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(...) A regeneração do indivíduo não se acha no futuro, mas no agora e, se adiarem a regeneração para amanhã, estarão atraindo a confusão, estarão presos na onda das trevas. A regeneração é agora, e não amanhã, pois a compreensão só se dá no presente. Não compreendem agora porque não põem todo o seu coração e mente, toda sua atenção naquilo que desejam compreender. Se puserem o coração e a mente para compreender, compreenderão. Senhor, se der seu coração e mente para descobrir a causa da violência, se estiver plenamente consciente dela, será não-violento já. Infelizmente, entretanto, já condicionaram toda a mente com a morosidade religiosa e a ética social, que se tornaram incapazes de olhar a coisa diretamente — e aí está a dificuldade. 
 
Assim, a compreensão está sempre no presente; nunca no futuro. A compreensão é agora e, não, em dias que virão. E a liberdade, que não é isolamento, só pode surgir quando cada um de nós compreende sua responsabilidade em relação ao todo. O indivíduo é o produto do todo; não é um processo à parte; ele resulta do todo. No final das contas, o senhor é um produto de toda a humanidade. O senhor pode denominar-se como quiser, mas o senhor é o resultado de um processo total que é o homem. E, se o senhor, psicologicamente, não estiver livre, como pode ter liberdade exterior? O que significa liberdade exterior? Pode ter governos diferenças — mas, por deus, isso é liberdade? Podem ter um grande número de províncias porque cada um quer um emprego, mas isso é liberdade? Senhor, nós nos alimentamos de palavras vazias; lançamos sombras nas assembleias com palavras que nada significam; temos vivido de propaganda que é mentira. Não pensamos, seriamente e por nós mesmos, sobre tais problemas porque a maioria de nós deseja ser conduzida. Não queremos pensar e descobrir porque é muito penoso e decepcionante pensar. Ou pensamos e ficamos desiludidos e cínicos — ou pensamos e transcendemos. Quando transcendemos todo o processo do pensamento, então há liberdade. E nisso há alegria, criação, coisa que o homem correto, vivendo isolado, jamais entenderá. 
*
Nosso problema, portanto, é que nossos pensamentos vivem perambulando e, naturalmente, queremos pô-los em ordem. mas como promover essa ordem? Para compreender uma máquina que trabalha muito rapidamente, precisamos desacelerar seu movimento, não é? Se quisermos examinar um dínamo, é preciso diminuir seu movimento, mas não pará-lo; parado, ele se torna uma coisa morta e não podemos compreender uma coisa morta. Só podemos compreender uma coisa viva. Desse modo, a mente que exterminou os pensamentos por meio de exclusão e do isolamento não pode compreender o pensamento; só o compreenderá se desacelerar o seu processo. Quando veem um filme em câmera lenta, percebem o maravilhoso movimento dos músculos de um cavalo que salta. É bonito esse movimento lento dos músculos; mas quando o cavalo salta velozmente, tão grande é essa velocidade, que se perde a beleza. Da mesma forma, quando a mente se move devagar porque deseja compreender cada pensamento que surge, nesse caso ela está liberta do pensamento, livre do pensamento controlado e disciplinado. Pensamento é a resposta da memória; por conseguinte, o pensamento nunca pode ser criativo. Só quando se encontro o novo como novo, o original como original, só então há um estado criador. A mente é o gravador, o acumulador de memórias e, enquanto a memória for revivida pelos desafios, tem de continuar o processo do pensamento. Mas, se observarem, sondarem e compreenderem, total e completamente, cada pensamento, verão que a memória começa a murchar. Falamos da memória psicológica, e não da memória factual.

Krishnamurti em, Bombaim, 7 de março de 1948 

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Questionador: Sinto-me muito só e anseio por um relacionamento humano íntimo. Já que não consigo arranjar companhia, o que devo fazer?

Krishnamurti: Uma das nossas dificuldades é, sem nenhuma dúvida, o fato de queremos ser felizes por meio de alguma coisa, por meio de uma pessoa, de um símbolo, de uma ideia, da virtude, por meio da ação, por meio da companhia. Pensamos que a felicidade, a realidade ou o nome que lhe quiserem dar pode ser encontrada por intermédio de alguma coisa. Logo, sentimos que, através da ação, da companhia, de certas ideias, encontraremos a felicidade.

Assim, estando só, quero encontrar alguém ou alguma ideia por meio da qual eu possa ser feliz. Mas a solidão sempre permanece; ela está sempre presente, encoberta. Mas como isso me assusta e eu não conheço a natureza interior dessa solidão, quero encontrar alguma coisa a que me apegar. Assim, penso que por meio de algo, de alguém, serei feliz. Por esse motivo, nossa mente está sempre preocupada em encontrar alguma coisa. Por intermédio dos móveis, de uma casa, de livros, de pessoas, de ideias, de rituais, de símbolos, esperamos alcançar algo, encontrar a felicidade. E eis porque as coisas, as pessoas, as ideias, se tornaram extraordinariamente importantes: porque temos a esperança de, por seu intermédio, vir a alcançar a felicidade. Desse modo, começamos a ficar dependentes delas.

Mas, apesar de tudo isso, permanece a coisa não compreendida, não resolvida; a ansiedade, o medo, ainda estão presentes. E mesmo quando me dou conta de que estão presentes, quero usá-los, transpô-los, a fim de descobrir o que há além. A minha mente usa tudo como um meio de ir além, e por isso, torna triviais todas as coisas. Se uso você para a minha realização, para a minha felicidade, você se torna bem pouco importante, visto que minha preocupação é a minha felicidade. Logo, quando minha mente está às voltas com a ideia de que pode ter felicidade por meio de alguém, de uma coisa ou de uma ideia, não torno transitórios todos esses meios? Porque minha preocupação é, nesse caso, alguma outra coisa, ir além, capturar algo que se encontra além disso tudo.

Não será muito importante que eu compreenda essa solidão, essa dor, esse sofrimento do vazio extraordinário? Porque, se eu compreender isso, talvez não empregue coisa alguma para encontrar a felicidade. Não usarei Deus como meio de atingir a paz nem um ritual para ter mais sensações, exaltações, inspirações. O que me consome o coração é essa sensação de medo, minha solidão, meu vazio. Posso compreender isso? Posso solucioná-lo? A maioria de nós se sente solitária, não? Façamos o que fizermos, o rádio, os livros, a política, a religião — nada dessas coisa pode encobrir de fato essa solidão. Posso ser socialmente ativo, posso identificar-me com certas filosofias organizadas, mas, faça o que fizer, a solidão continua presente, nas profundezas do meu inconsciente ou no mais íntimo do meu ser.

E como proceder diante disso? Como trazê-lo para o exterior e resolvê-lo por completo? Mais uma vez, toda a minha tendência é condenar, não é? Tenho medo daquilo que não conheço, e o medo é o resultado da condenação. Afinal, não conheço a qualidade da solidão, o que ela de fato é. Mas a minha mente a julgou, dizendo que ela é assustadora. A mente tem opiniões sobre o fato, tem ideias acerca da solidão. E são essas ideias e opiniões que criam o medo e me impedem de ver de fato a solidão.

Estarei me fazendo compreender com clareza? Sinto-me solitário e tenho medo disso. O que causa o medo? Não será o fato de eu não conhecer as implicações da solidão? Se conhecesse o conteúdo da solidão, eu não a temeria. Entretanto, como tenho uma ideia de como ela poderia ser, eu não a temeria. Entretanto, como tenho uma ideia de como ela poderia ser, fujo dela. O que gera o medo é a fuga, e não a observação que faço da solidão. Para observá-la, para ficar com ela, não posso condenar. E quando for capaz de encará-la, terei condições de amá-la, de observá-la

.Então, será essa solidão de que tenho medo apenas uma palavra? Não será ela, na verdade, um estado essencial, talvez a porta por meio do qual descobrirei? Essa porta pode me levar mais longe, de modo que a mente compreenda o estado no qual tem de estar só, não contaminada. Porque todos os processos que me afastam dessa solidão são desvios, fugas, distrações. Se a mente puder viver com a solidão sem condená-la, talvez isso a leve a descobrir o estar só, o estado em que a mente se encontra não apenas solitária mas completamente sozinha, independente, não desejosa de descobrir por intermédio de alguma outra coisa

É necessário ficar só, conhecer esse estar só não induzido pelas circunstancias, esse estar só que não é isolamento, esse estar só que é criatividade, condição na qual a mente já não busca a felicidade nem a virtude, nem cria resistência. A mente que está só é a única que pode encontrar — não a mente contaminada, corrompida pelas suas próprias experiências. Assim, talvez a solidão, de que todos temos consciência, possa, se soubermos como encará-la, abrir a porta para a realidade.

 

Krishnamurti — Londres 7 de abril de 1963
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Existem apenas dois tipos de pessoas: uma que está em busca da felicidade; é o tipo mundano. Pode ir para o mosteiro, mas o tipo não muda; lá, ele também pede pela felicidade, pelo prazer e gratificação. Agora, de maneira diferente — através da meditação, da prece, de Deus — está tentando ser feliz, cada vez mais feliz. Há, depois, o outro tipo de pessoa — e só existem dois tipos — a que está em busca da verdade. E isso é um paradoxo: aquele que busca a felicidade, nunca a encontra, pois ela não é possível a menos que você encontre a verdade. A felicidade é apenas uma sombra da verdade; em si mesma não é nada — é apenas uma harmonia. 

 

Quando você se sente uno com a verdade, tudo se agrega, tudo se harmoniza. Você sente um ritmo — e esse ritmo é felicidade. Não se pode buscá-la diretamente. 

 

A verdade tem de ser procurada. A felicidade é encontrada quando se encontra a verdade, mas a felicidade não é o objetivo. E se você buscar a felicidade diretamente, será cada vez mais infeliz. E sua felicidade será, no máximo, apenas um intoxicante para que você esqueça a infelicidade; é só o que vai acontecer. A felicidade é como uma droga — LSD, maconha, mescalina. 

 

Por que o Ocidente chegou às drogas? É um processo muito racional. Teve de chegar a elas porque, na sua busca de felicidade, mais cedo ou mais tarde chega-se ao LSD. O mesmo aconteceu antes na Índia. Nos Vedas, eles chegaram ao soma, ao LSD, porque estavam buscando a felicidade; não eram realmente buscadores da verdade. Buscavam a mais e mais gratificação — chegaram ao soma. Soma é a suprema droga. E Aldous Huxley, falando sobre a suprema droga, a ser encontrada em algum lugar no século vinte, chamou-a outra vez de 'soma'. 

 

Sempre que uma sociedade, um homem, uma civilização, buscam a felicidade, têm de chegar de alguma forma às drogas — porque a felicidade é a busca pelas drogas. A busca da felicidade é uma busca do auto-esquecimento; é isso o que a droga ajuda a fazer. Você esquece de si e assim não há mais miséria. Como pode haver miséria se você não está? Você está dormindo profundamente. 

 

A busca da verdade está exatamente na dimensão oposta: não é gratificação, não é prazer, não é felicidade, mas — Qual é a natureza da existência? O que é a verdade? Um homem que busca a felicidade nunca a encontrará — encontrará, no máximo, o esquecimento. Um homem que busca a verdade a encontrará, porque para buscá-la ele próprio terá de se tornar verdadeiro. Para buscar a verdade na existência, primeiro terá de buscar a verdade em seu próprio ser. Terá de se tornar cada vez mais atento em relação a si mesmo

 

Estes são os dois caminhos: o auto-esquecimento — o caminho do mundo; e a lembrança de si mesmo — o caminho de Deus. E o paradoxo é que aquele que busca a felicidade nunca a encontra; e aquele que busca a verdade e não se importa com a felicidade, encontra-a sempre. 

 

(...) O autoconhecimento tem que ser a única busca, tem que ser o único objetivo; porque se você conhecer todo o resto sem conhecer a si mesmo, isto não significará nada. Você pode chegar a conhecer tudo, exceto você mesmo, mas o que isso significa? Não pode ter nenhum significado — porque se o próprio conhecedor é ignorante, o que pode significar esse conhecimento, o que seu conhecimento pode lhe dar? Quando você mesmo permanece na escuridão, pode reunir milhões de luzes à sua volta mas elas não o preencherão de luz. Apesar delas você continuará na escuridão. Viverá e se moverá na escuridão. A ciência é esse tipo de conhecimento. Você conhece um milhão de coisas mas não conhece a si mesmo

 

Ciência é conhecimento de tudo menos de si mesmo, exceto do autoconhecimento; o próprio buscador permanece no escuro. Isso não adianta muito. A religião é basicamente auto-conhecimento. Você tem de estar iluminado por dentro, a escuridão deve desaparecer do seu interior, e então por onde quer que você ande, a sua luz interior incindirá sobre o caminho. Onde quer que você vá, faça o que fizer, tudo será iluminado pela sua luz interior. E esse movimento com luz lhe dá um ritmo, uma harmonia, que é a felicidade. Então você não tropeça, não esbarra, não tem mais conflitos. Você se move mais facilmente, seus passos são uma dança, e tudo é satisfação. Você não quer mais que alguma coisa extraordinária aconteça. Você é feliz. É simplesmente feliz no seu ser comum. 

 

E a menos que você se sinta feliz sendo comum, jamais será feliz. 

 

Você é feliz apenas por respirar, você é feliz por ser; é feliz apenas por comer, por dormir mais uma noite. Você é feliz. Agora a felicidade não deriva de nada — ela é você. Um homem que se conhece é feliz, não por qualquer razão, sua felicidade não tem causa. Não é uma coisa que lhe acontece, é toda sua maneira de ser. É simplesmente feliz. Para onde quer que se mova, leva consigo sua felicidade. Se você o atira no inferno, ele cria à sua volta um paraíso; com ele, um paraíso penetra no inferno. 

 

Como você é, ignorante de si mesmo, se pudesse ser jogado no paraíso, conseguiria criar um inferno, porque você carrega consigo o seu inferno. Vá onde for, isso não fará muita diferença, você terá à sua volta o seu próprio mundo. Esse mundo está dentro de você, é a sua escuridão. 

 

Essa escuridão interior precisa desaparecer — é isso o que significa autoconhecimento

 
O S H O  
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Não é possível parar o pensamento — não que ele não pare, só não é possível fazê-lo parar. Ele pára espontaneamente. É preciso entender essa diferença; do contrário você vai ficar maluco tentando perseguir a sua mente. 
 
A não-mente não surge quando você pára de pensar. Quando não existe mais o pensar, existe a não-mente. O próprio esforço para parar de pensar criará mais ansiedade, criará mais conflito, fará com que você fique dividido. Você viverá em constante tumulto interior. E isso não ajudará em nada. 
 
E, mesmo que você consiga forçá-lo a parar por alguns instantes, isso não será nenhuma conquista — pois esses instantes ficarão quase mortos, não estarão vivos. Você pode até sentir certa tranquilidade... mas não silêncio. Pois a tranquilidade forçada não é silêncio. Lá no fundo, nas profundezas do inconsciente, a mente reprimida continua em atividade. 
 
Portanto, não existe um meio de parar a mente. Mas a mente pára — isso é certo. Ela pára por livre e espontânea vontade. 
 
Então, o que fazer? — a pergunta é relevante. Observe. Não tente pará-la. Não é preciso fazer nada contra a mente. Para começar, quem iria fazer isso? Seria a mente brigando com ela mesma; você dividiria sua mente em duas: uma parte estaria tentando ser a chefe, a manda-chuva, estaria tentando matar a outra parte de si — o que é um absurdo. É um jogo idiota, pode levá-lo à loucura. Não tente deter a mente ou o pensamento. — só observe, de vazão a ele. Deixe a mente em total liberdade. Deixe-a vagar no ritmo que quiser; não tente de forma nenhuma controlá-la. Seja só uma testemunha
 
Ela é tão bela! A mente é um dos mecanismos mais belos que existem. A ciência ainda não foi capaz de criar nada como ela. A mente continua sendo uma obra-prima, tão complicada, com um poder tão grande, com tantas potencialidades! Observe-a! Aprecie-a! 
 
E não a vigie como se ela fosse um inimigo, pois, se você olhar para a mente como um inimigo, não conseguirá observá-la. Você já será preconceituoso, já estará contra ela. Já terá decidido que existe algo de errado com a mente — já terá chegado a uma conclusão. E sempre que você olha para uma pessoa como se ela fosse sua inimiga, você não olha profundamente, nunca olha dentro dos olhos; você a evita
 
Observar a mente significa olhar para ela com um amor profundo, com profundo respeito e reverência — ela é uma dádiva de Deus para você. Não existe nada de errado com a mente em si. Não há nada de errado com o ato de pensar. Trata-se de um lindo processo, assim como é todo processo.(...) Olhe a mente com profunda reverência. Não brigue com ela; ame-a. 
 
Observe as sutis nuances da mente, os volteios repentinos, os belos volteios. Os saltos e trancos, que ela dá, os jogos que continua fazendo; os sonhos que ela navega — a imaginação, a memória, as mil projeções que ela cria — observe! Ficando ali, afastado, um pouco distante, sem se envolver, paulatinamente você começa a sentir... Quanto mais atento você fica, mais profunda fica sua consciência; começa a haver lacunas, intervalos. Um pensamento vai, não vem outro, e surge uma brecha. Uma nuvem passa, outra está a caminho e surge um intervalo. 
 
Nesses intervalos, pela primeira vez você terá lampejos da não-mente. Você sentirá o gosto da não-mente (...) Nesses pequenos intervalos de repente o céu fica limpo e o sol brilha. De repente o mundo se enche de mistério, porque todas as barreiras vão abaixo; a tela nos seus olhos deixa de existir. Você vê com clareza, de modo penetrante. Toda existência fica transparente. 
 
No início, haverá apenas uns raros momentos, espaçados. Mas eles lhe proporcionarão vislumbres do que seja o samadhi. Pequenas porções de silêncio  elas virão depois irão embora, mas você saberá que está no caminho certo. Então você começa a observar novamente. Quando um pensamento cruza a sua mente, você observa; quando um intervalo, você o observa. As nuvens são bonitas; o brilho do sol também é tão belo. Agora você não faz escolhas. Agora você não tem uma mente fixa. Você não diz, "Gostaria que só houvesse intervalos". Isso é estupidez, pois, se se ficar apegado ao desejo de que só haja intervalos, você novamente terá decidido ficar contra o pensamento. E aí os intervalos desaparecerão. Eles só acontecem quando você está muito distante, afastado. Eles acontecem, não podem ser provocados. Eles acontecem, você não pode forçá-los a acontecer. São eventos espontâneos. 
 
Continue a observar. Deixe que os pensamentos venham e vão embora — para onde quiserem ir. Nada está errado! Não tente manipular nem dirigir nada. Deixe que os pensamentos sigam seu curso livremente. E, então, começarão a surgir intervalos cada vez maiores. Você será abençoado com pequenos satoris. Haverá ocasiões em que, por alguns minutos, não haverá pensamentos; não haverá trânsito nenhum — só um silêncio total, imperturbável. 
 
Quando começarem a surgir brechas maiores, começará a surgir uma nova lucidez. Você não terá somente lucidez para enxergar o mundo, você será capaz de enxergar seu mundo interior. Com os primeiros intervalos você enxergará o mundo — as árvores ficarão mais verdes do que parecem agora, você se verá cercado por uma música infinita, a música das esferas. Você subitamente estará na presença da santidade — inefável, misteriosa. Tocando você, embora você não consiga apreendê-la. Ao seu alcance e mesmo assim fora dele. Com os intervalos maiores, o mesmo acontecerá interiormente. Deus não estará apenas lá fora, de repente você ficará surpreso — ele está aqui dentro também. Ele não está apenas na coisa observada, ele está também no observador — dentro e fora. Pouco a pouco... 
 
Mas tampouco se apegue a isso. O apego é o alimento que faz com que a mente continue funcionando. O testemunho imparcial é o meio de detê-la sem fazer nenhum esforço. E, quando você começar a apreciar esses momentos de bem-aventurança, sua capacidade de conservá-los por períodos mais longos virá à tona. Finalmente, um dia você acaba se tornando senhor de si. A partir desse dia, quando quiser pensar, pensará; se o pensamento for necessário, você o usará. Se não for, você o deixará em repouso. Não que a mente tenha deixado de existir — ela existe, mas você tem a opção de usá-la ou não. Agora a decisão é sua, assim como a de usar as pernas; se quiser correr, você as usa; se não quiser, simplesmente fica onde está. As pernas estarão ali, à sua disposição. Da mesma forma, a mente estará ali também.

O S H O  .  
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 Compreender um hábito é abrir a porta para a compreensão de todo o mecanismo do hábito Então, eu devo, primeiro, compreender a futilidade da resistência ou do esforço para romper um hábito. Se isto estiver claro, o que acontece? Eu fico consciente do hábito, totalmente consciente dele. Se eu fumo, observo a mim mesmo fazendo isto. Eu fico consciente de colocar minha mão no bolso, pegar os cigarros, tirar um do maço, batê-lo na unha ou em alguma outra superfície dura, colocá-lo em minha boca, acendê-lo, apagar o fósforo, e dar baforadas. Estou consciente de cada movimento, de cada gesto, sem condenar ou justificar o hábito, sem dizer que é certo ou errado, sem pensar, “Que terrível, devo me livrar disto”, e assim por diante. Eu estou consciente sem escolha, passo a passo, conforme vou fumando. Tente isto da próxima vez, se quiser romper o hábito. E compreendendo e rompendo um hábito, mesmo superficial, você pode entrar na enorme totalidade do problema do hábito: hábito do pensamento, hábito do sentimento, hábito de imitar e o hábito de ansiar para ser alguma coisa, pois isto também é um hábito. Quando você combate um hábito, dá vida a esse hábito, e o combate se torna outro hábito, em que a maioria de nós fica presa. Nós só conhecemos a resistência, o que se tornou um hábito. Todo o nosso pensar é habitual, mas compreender um hábito é abrir a porta para a compreensão de todo o mecanismo do hábito. Você descobre onde o hábito é necessário, como no discurso, e onde o hábito é completamente corruptor.

 

J.Krishnamurti, Collected Works, Vol. XIII,204,Choiceless Awareness

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Você consegue permitir que a sua mente fique em silêncio?
 
Para alguns isso pode ser extremamente difícil, porque a mente parece ser como um macaco louco, pulando de um lado pro outro e gritando o tempo inteiro... Mas isso é porque você aprendeu a achar que não pode para-la.
 
Uma enorme quantidade de pessoas dedicam suas vidas à manter suas mentes ocupadas, e se sentem extremamente desconfortáveis com o silêncio, quando se estão sozinhas, ninguém dizendo nada, não tendo nada pra fazer... Isso é resultado da falta de presença no momento, resultado de uma preocupação produzida pela mente: "Eu fui deixado sozinho comigo mesmo, e eu quero fugir de mim mesmo", é por isso que algumas pessoas passam horas na frente da TV, ou adoram ir ao cinema ver filmes, ou ler livros de estórias, é por isso que vamos em festas atrás de companhias, vamos beber, ou qualquer coisa que fazemos em busca de distrações, é porque não queremos estar conosco, por algum motivo nos sentimos estranhos.
 
Mas porque você quer fugir de si mesmo? O que tem de tão ruim sobre si mesmo?
 
Isso é porque nossa cultura nos condiciona a sermos viciados em pensamentos, é como uma droga, mesmo que você não veja dessa maneira. Pensamentos compulsivos, um atrás do outro, se tornam um habito inconsciente, e com isso há a dificuldade em para-los, ou sequer percebê-los.
 
E como mudamos isso? Bom, não existe manual, mas o que eu posso sugerir com ênfase é: NÃO TENTE! Porque se você tentar irá ser como uma pessoa que tenta acalmar um lago agitado batendo na água com uma barra de ferro, e tudo que isso fará é agita-lo mais. Então, da mesma maneira como um lago agitado se acalma quando deixado sozinho, sem influencia do vento ou de pessoas na água, você precisa aprender a deixar sua mente sozinha, ela irá se acalmará por si só, pois este é seu estado natural, vazio. Ela só está em movimento porque você usa sua energia psíquica pra movimenta-la, consciente ou inconscientemente.
 
Não tente impor sua vontade, apenas observe, absorva e tenha paciência.
 
"A verdadeira meditação é abandonar a tentativa de manipular a experiência."
 
Adyashanti
 

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Por que é que as pessoas, tendo uma certa renda e podendo retirar-se do trabalho de responsabilidade, tanta vezes se deterioram e se desintegram psicologicamente?


Krishnamurti: A deterioração é mera resultante da renda certa? A renda certa talvez apenas exagere a deterioração já existente. Não, meus senhores, não foi riam disso, como se nada fosse. Interessa-nos saber por que a mente se deteriora numa determinada fase, ou por que razão ela se deteriora
 
Um homem que está trabalhando, ganhando dinheiro, frequentando regularmente um escritório, não está se deteriorando, aparentemente, pois está em atividade; ao cessar, porém, essa atividade, torna-se perceptível a deterioração. 
 
A mente sujeita a uma rotina, seja a rotina de um escritório, de um rito, ou a rotina de um certo dogma, já está se deteriorando, não é verdade?
 
Por certo, vale muito mais a pena descobrir as causas determinantes da deterioração da mente, do que inquirir por que razão o seu vizinho se desintegra, quando se retira das atividades. Se pudermos realmente compreender só esta questão, talvez venhamos a conhecer a eternidade da mente.
 
Por que se deteriora a mente — não apenas a sua mente, mas a mente do homem? Pode-se ver que o fator da deterioração surge quando a mente se transforma em máquina de hábito, quando a sua educação é mero exercício de memória, e quando se acha numa luta incessante, procurando ajustar-se a um padrão imposto de fora ou criado por ela própria. 
 
Há medo, deterioração, destruição da mente, quando ela está constantemente em busca de segurança, ou quando sujeita do desejo de preenchimento.  
 
E tal é o nosso estado, não é verdade? Ou estamos na sujeição do hábito, da rotina, fazendo a mesma coisa sempre e sempre, exercitando-nos na virtude, ajustando-nos ao padrão de uma disciplina, para chegarmos a um certo resultado, para encontrarmos segurança psicológica ou material; ou, ainda, estamos a competir, a fazer esforços inauditos, na nossa ambição de sucesso mundano. 
 
Certo, é isso que cada um de nós está fazendo, e, por conseguinte, já pusemos em funcionamento o mecanismo da deterioração. Se qualquer dessas reações existe em nós, em qualquer nível que seja, estamos nos deteriorando. 
 
Pois bem. Pode a mente renovar-se com frequência? Pode a mente ser criadora momento por momento? 
 
Não me refiro à criação compreendida como mera atividade de planejar e expressar, compreendida como capacidade ou aplicação de uma técnica. Não estou me referindo à criação sob nenhum desses aspectos. Mas pode a mente experimentar o desconhecido? Sem dúvida, só no estado de não-conhecimento não há deterioração.
 
Qualquer outro estado acarretará, por força, o envelhecer da mente. Como qualquer mecanismo posto a funcionar seguidamente durante dias, semanas, meses e anos, a mente, sempre em atividade, se deteriora, inevitavelmente. 
 
Enquanto você fizer uso da sua mente como se fosse máquina, para realizar, produzir, ganhar, tem em si as sementes da deterioração, da velhice e da decrepitude. E quer se trate de um menino de dezesseis anos ou de um velho de sessenta, o "processo" é o mesmo. 
 
Nós, porém, em geral, não estamos cônscios desse processo de deterioração. Estamos cônscios, apenas, de nos acharmos entre as rodagens da máquina de prazeres e dores e sofrimentos, e da nossa luta para sairmos dela. 
 
A mente, pois, nunca está quieta, despreocupada; sempre se acha envolvida com alguma coisa: com Deus, com o comunismo, com o capitalismo, com o enriquecer, com a opinião dos outros ou... com a cozinha. Com quantas coisas ela anda preocupada! Como está constantemente ocupada, nunca é livre, jamais tranquila. 
 
Só a mente que está tranquila — não por estar insensibilizada, mas por encontrar-se naquele estado de silêncio que é criador — só essa mente pode sustar a deterioração. 
 
A imunidade à deterioração não é possível à mente que se preenche pelo exercício de capacidades. À medida que nos tornamos mais idosos, a capacidade se embota. Você pode ser um exímio pianista; como o envelhecer, porém, vem o reumatismo, vêm os achaques, vem a cegueira, ou você pode ser vitima de um acidente. 
 
A mente que anda à procura de preenchimento, em qualquer sentido, em qualquer nível, já contém em si a semente da destruição. É o "eu" que quer preencher-se, quer tornar-se alguma coisa; vendo-se vazio, frustrado, busca o "eu" preenchimento em minha família, meu filho, minha propriedade, minha ideia, minha experiência. 
 
Quando reconhecemos tudo isso e lhe percebemos os perigos, só então a mente pode estar vazia momento por momento, dia por dia, não embargada pela carga do passado ou pelo temor do futuro. 
 
O viver naquele momento não é nenhuma coisa fantástica, só concedida a uns poucos.
 
Afinal de contas, como disse, cada um de nós vive num mundo de sofrimento, luta, dor, efêmera alegria, e cada um de nós deve encontrar aquela coisa desconhecida; ela não foi reservada só para um e negada aos demais. É justo que podemos criar um mundo novo; mas este mundo novo não pode nascer da revolução exterior, que produz decomposição. 
 
A mente se deteriora quando busca um fim, quando se submete à autoridade, nascida do temor. Há um definhar-se da mente, quando não há autoconhecimento, e o autoconhecimento não é uma coisa que se possa aprender de um livro. Ele tem de ser descoberto a cada momento, o que requer uma mente vigilante ao extremo; e a mente não está vigilante quando achou um fim. 
 
Assim, o fator que acarreta a deterioração se encontra em nossas próprias mãos. A mente, presa à experiência, vivendo da experiência, nunca encontrará o incognoscível. O incognoscível só pode manifestar-se quando o passado já não existe; e só não há passado, quando a mente está tranquila.

Krishnamurti em, Percepção Criadora

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Medo é o nome da chave de sua apertada cela

 

A maioria tem medo de ficar só. Porventura saímos a passeio sozinhos? Raramente. Sempre queremos alguém que vá conosco porque queremos conversar, queremos contar alguma história a alguém, sempre estamos falando, falando, falando; portanto, nunca estamos sós, estamos? Quando se cresce e se pode sair para um passeio sozinho, descobre-se muitas coisas. Descobre-se o próprio jeito de pensar, e então começa-se a observar todas as coisas circundantes — o mendigo, o homem estúpido, o inteligente, o rico e o pobre; toma-se consciência das árvores, dos pássaros, a luz refletida numa folha. Vocês verão tudo isso quando saírem a passear sozinhos. Ficando sós, vocês depressa descobrirão que têm medo. E é porque temos medo que inventamos essa coisa chamada religião. 

 

Muitos volumes têm sido escritos sobre Deus e sobre o que se deve fazer para abordá-lo; mas a base disso tudo é o medo. Enquanto se tem medo, não se pode encontrar nada de real. Se você tem medo do escuro, não se atreve a sair da cama, cobre a cabeça com o lençol e trata de dormir. Para sair e ver, para descobrir o que é real, é preciso haver liberdade em relação ao medo, não é? Mas, vejam, ficar livre do medo é muito difícil. A maioria dos adultos diz que que vocês só podem ser livres quando forem mais velhos, quando tiverem amealhado conhecimentos e tiverem aprendido a disciplinar a mente. Eles pensam que liberdade é algo muito distante, situado no fim e não no princípio. Mas certamente deve haver liberdade desde a infância, de outro modo vocês jamais serão livres. 

 

Vejam, tendo eles próprios medo, eles os disciplinaram, dizendo-lhes o que é certo e o que é errado; dizem que vocês precisam fazer aquilo e não isto, que devem pensar no que as pessoas dirão, e assim por diante. Há todo tipo de controle para assustá-los na trilha, no molde, no modelo, e a isso chamam de disciplina. Sendo muito jovens, e por causa de seu próprio medo, vocês se ajustam; mas isso não os ajuda em nada, porque quando vocês apenas se ajustam a algo, não o compreendem. 

 

Ora, examinem isso de outro modo. Se vocês não fossem disciplinados, se não fossem controlados, reprimidos, fariam o que quisessem? Vocês fariam o que bem entendessem, se não houvesse ninguém para lhes dizer o que fazer? Talvez o fizessem agora, porque estão habituados a ser obrigados, oprimidos, moldados e, como reação, fariam algo contrário a tudo isso. Mas suponham que desde a infância, desde o começo de sua frequência à escola, o professor conversasse com vocês e não lhes dissesse o que deveria fazer — como então reagiriam? Se, desde o começo de sua passagem pela escola, o professor assinalasse que ser livre é a primeira coisa importante, e não a última a ser tratada quando se está para morrer, o que aconteceria? 

 

O problema é que ser livre requer boa dose de inteligência; e como vocês ainda não sabem o que é ser livre — é função do professor ajudá-los a descobrir os processos da inteligência. É a inteligência que acarreta a liberdade em relação ao medo. Enquanto houver medo, vocês estarão sempre se impondo algum tipo de disciplina: devo fazeristo e não aquilo, devo crer, preciso conformar-me, preciso fazer puja, e assim por diante. Essa autodisciplina é toda nascida do medo, e onde há medo não há inteligência.

Por conseguinte, a educação, a rigor, não é apenas uma questão de ler livros, de passar nos exames e de obter um emprego. É um processo completamente distinto; ela se estende desde o momento em que se nasce até a morte. Vocês podem ler inúmeros livros e ser muito espertos, mas não creio que a mera esperteza seja sinal de educação. Se for simplesmente esperto, você perderá muito na vida. O importante é, primeiro, descobrir de que é que você tem medo, compreender isso e não fugir disso. Quando sua mente está realmente livre de todo tipo de exigências, quando já não é invejosa, cobiçosa, só então poderá descobrir o que é Deus. Deus não é o que o povo diz que ele é. É algo inteiramente diferente — algo que acontece quando você compreende, quando você não tem nenhum medo. 

 

Assim sendo, a religião é na realidade um processo de educação, não é verdade? A religião não é uma questão daquilo que se deve crer ou não crer, de cumprir rituais ou de apegar-se a algumas superstições; é um processo de auto-educação nos caminhos do entendimento, de modo que nossa vida fique extraordinariamente rica e não mais sejamos seres humanos amedrontados, medíocres. Só então poderemos criar um mundo novo.

Líderes políticos e religiosos dizem que a criação de um novo mundo está nas mãos dos jovens. Nunca ouviram isso? Centenas de vezes, provavelmente. Mas eles não os educam para serem livres; e é haver liberdade para criar um mundo novo. Os adultos os educam nos modelos das próprias ideias deles — e têm feito uma grande confusão. Eles dizem que são vocês, os da nova geração, que devem criar um mundo novo; mas ao mesmo tempo eles os enjaulam, não é verdade? Dizem-lhes que precisam ser indianos, parses, isto ou aquilo — e se vocês lhes seguirem as ideias irão obviamente criar um mundo exatamente igual ao atual. Um novo mundo só pode ser criado quando se cria a liberdade, não com medo, não com superstição, não com base no que certa pessoa disse que um mundo deveria ser.

Vocês, jovens, da nova geração, só poderão criar um mundo totalmente diferente se forem educados para serem livres e não forçados a fazer algo de que não gostem ou que não compreendam. Por isso, é muito importante, enquanto são jovens, seremverdadeiros revolucionários — o que significa não aceitar qualquer coisa, mas inquirir sobre todas as coisas a fim de descobrir a verdade. Só então poderão criar um mundo novo. Caso contrário, ainda que os chamem por um nome diferente, vocês estarão perpetuando o mesmo velho mundo de misérias e destruição que sempre existiu até agora.

Mas, geralmente, o que é que nos acontece quando somos jovens? As moças se casam, têm filhos, e aos poucos desaparecem. Os rapazes, quando crescem, têm de ganhar a vida, então arranjam empregos e lhes é exigido que se conformem, que sigam uma profissão, quer gostem quer não; tendo-se casado e tendo filhos, são arrastados pela vida afora por suas responsabilidades e devem, portanto, fazer aquilo que lhes dizem que façam. Nessas condições, o espírito de revolta, o espírito de inquirição, o espírito da busca interior chega a seu fim; todas as suas ideias revolucionárias de criar um mundo novo são esmagadas, porque a vida é demais para eles. Eles precisam ir para o escritório, têm lá um chefe para o qual precisam fazer isto ou aquilo e, aos poucos, o senso de inquirir, o sentimento de revolta, a ânsia de criar um modo de viver completamente diferente de tudo, é destruída por completo. Por isso, é muito importante ter esse espírito de revolta desde o princípio da vida.

Vejam, a religião, a coisa real, significa uma revolta para encontrar a Deus. ou seja, significa descobrirmos por nós mesmos o que é a verdade. Não é a mera aceitação dos chamados livros sagrados, por mais antigos e venerados que eles sejam. 

 


Krishnamurti em,  "O verdadeiro Objetivo da vida"

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Tratemos de averiguar o que é viver. A realidade do viver é a fadiga diária, a rotina, com as respectivas lutas e conflitos; é a dor da solidão, a aflição e sujeira da pobreza e da riqueza, a ambição, a busca de preenchimento, o êxito e a tristeza — que abarcam toda a esfera de nossa vida. Eis o que chamamos viver — ganhar e perder batalhas, e a interminável busca de prazer. 
 
Contrastando com isso ou como seu oposto há o que se chama "viver religioso" ou "vida espiritual". Mas todo oposto contém decerto a semente de seu próprio oposto e, por conseguinte, ainda que pareça diferente, na realidade não o é. Podem-se mudar as roupas externas, mas a essência íntima do que foi e do que deverá ser é a mesma. Essa dualidade é produto do pensamento, e, portanto, gera mais conflito; esse conflito é uma galeria interminável. Sabemos de tudo isso; outros nos têm dito ou nós mesmos o temos experimentado. Isso é o que se chama viver. 
 
A vida religiosa não está na outra margem do rio; está neste lado — onde se acham todas as agonias do homem. É este lado que temos de compreender, e a ação da compreensão é o ato religioso — e não cobrir-se de cinzas, cingir os quadris com uma tanga ou a cabeça com uma mitra, ocupar o trono dos poderosos ou ser transportado no dorso de um elefante. 
 
Ver inteiramente a condição do homem, seus prazeres e aflições, é de primeira importância, e não o especular sobre o que deveria ser uma vida religiosa. "O que deveria ser" é um mito; é a moralidade criada pelo pensamento e a fantasia, moralidade que devemos rejeitar — social, religiosa, profissionalmente. Essa rejeição não vem do intelecto, mas é, com efeito, um sereno abandono do padrão dessa imoral moralidade. 
 
Portanto, a questão realmente é esta: Temos possibilidade de sair desse padrão? Foi o pensamento quem criou essa medonha desordem e angústia, e ele é que está impedindo tanto a religião como a vida religiosa. O pensamento se julga capaz de sair do padrão, mas, se o faz, isso será ainda um ato de pensamento, porque o pensamento não tem realidade e, por conseguinte, só pode criar outra ilusão. 
 
Ultrapassar tal padrão não é um ato do pensamento. Isso precisa ser compreendido claramente porque, de contrário, você se verá novamente encerrado na prisão do pensamento. O "você", afinal de contas, é um feixe de memórias, de tradição e do conhecimento acumulado em milhares de dias passados. Assim, só com a terminação do sofrimento — pois o sofrimento é resultado do pensamento — pode-se sair do mundo da guerra, do ódio e da violência. Esse ato de sair é a vida religiosa. Essa vida religiosa não tem crença nenhuma, porque não tem amanhã. 
 
"Você não está exigindo o impossível, senhor? Não está querendo um milagre? Como posso sair de tudo isso sem o pensamento? O pensamento é meu próprio ser!"

Exatamente! Esse "seu próprio Ser", que é pensamento, tem de acabar. Esse egocentrismo com todas as suas atividades tem de morrer, sem esforço, naturalmente. Só nessa morte se encontra o começo da vida religiosa.

Krishnamurti em, A OUTRA MARGEM DO CAMINHO

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A Busca por liberação também é sofrimento.
 

Os sacerdotes ao redor do mundo, sejam cristãos, budistas, hindus ou tibetanos, sempre disseram que há a promessa de algo maior. Faça isso e você irá para o céu, e se não fizer irá para o inferno. O que é interpretado na versão hindu de um modo e nas outras de outro modo, mas isso é irrelevante. Assim, nossas mentes estão fortemente condicionadas por algo diferente de "o que é". Esse algo é a terra prometida, a utopia, o paraíso, a iluminação, o nirvana, a moksha dos hindus. Porque eu não sei o que fazer com isso, "o que é", todo o meu desejo é por aquilo..

Isso é colocado de diferentes modos: os comunistas querem um Estado perfeito, um ambiente perfeito. É o mesmo problema, a mesma questão, apenas posta em palavras diferentes - o amanhã. Então essa pode ser - eu estou perguntando - uma das razões fundamentais por que os seres humanos não mudam, porque eles têm isso - o mais elevado princípio perfeito, chamado Brahman na Índia ou nirvana pelos budistas, paraíso pelos cristãos, e assim por diante. Essa pode ser uma das razões fundamentais por que os seres humanos não mudam. Ou por causa do ideal perfeito, ou do homem ou da mulher perfeita. O que significa que "o que é" não é importante, mas o ideal perfeito é importante, o Estado perfeito é importante, o inominado é importante. Então não se preocupe com "o que é", não olhe para "o que é", mas traduza "o que é" em termos de "o que deveria ser". Vocês compreendem tudo isso? Espero estar alcançando vocês. Então nós criamos essa dualidade: "o que deveria ser" e "o que é". E estamos dizendo que essa pode ser uma das principais razões por que os seres humanos não mudam.

Quando há essa divisão entre "o que é" e "o que deveria ser", o mais elevado, então há conflito, certo? Divisão entre o árabe e o judeu. Onde quer que haja divisão tem de haver conflito, essa é a lei. Então temos sido condicionados nessa divisão, a aceitar, a viver nessa divisão entre "o que é" e "o que deveria ser". O "que deveria ser" foi trazido porque eu não sei como lidar com "o que é". Ou "o que deveria ser" é visto como uma alavanca - vocês entendem? - para se livrar de "o que é". Então isso é um conflito. Assim, por que a mente criou "o que deveria ser"? E por que não está totalmente preocupada com "o que é"? Por que a mente fez isso? Por que o pensamento fez isso?

O pensamento, se está alerta, de todo, diz "Isto é um fragmento, isto é transitório, aquilo é permanente" - vocês entendem? Isso "que é" é transitório, e o pensamento criou o princípio mais elevado, que ele pensa ser permanente - o pensamento acha isso. Isto é impermanente, aquilo é permanente. Ambos sendo criações do pensamento. Certo? Deus, o Salvador - todos criados pelo pensamento, o "que deveria ser".

Assim o pensamento criou essa divisão, e então diz "Eu não posso resolver isto, mas vou abordar aquilo". Agora quando você vê a verdade disto, aquilo não existe. Apenas isto permanece. Eu me pergunto se vocês vêem isso.

O pensamento criou o ideal perfeito, o Estado perfeito, o nirvana perfeito, a moksha perfeita, o paraíso perfeito, porque não sabe o que fazer com isto, com "o que é", com meu sofrimento, minha agonia, minha ignorância impenetrável. Você vê a verdade disso? Não concordância verbal, não aceitação, aceitação lógica, mas a verdade disso? Se você vir a verdade disto, então aquilo - o ideal, o perfeito - não existe. Porque você não sabe nada sobre ele, é meramente uma projeção do pensamento. E então você tem a energia para lidar com "o que é". Em vez de perder energia lá fora, você tem a energia para lidar com o que está acontecendo. Vocês vêem a diferença? Oh, pelo amor de Deus! Vocês vêem? Então vocês têm a energia para lidar com "o que é"..
Então você tem de aprender como olhar para "o que é". A observar "o que é". Agora você já não tem mais a dualidade criada pelo "que deveria ser", mas apenas "o que é". Vocês estão começando a ver as implicações disso?.

Quando não há "o que deveria ser", o princípio mais elevado, você tem apenas isto. Isto é um fato, e aquilo não é um fato. Então nós podemos lidar com fatos.

Quando não há dualidade, há apenas uma coisa, digamos, por exemplo, a violência. Há apenas a violência, não a não-violência. A não-violência é "o que ser". Então quando você vê a verdade disso, há apenas violência, certo?

Agora você tem a energia para lidar com essa violência.

O que é a violência? Entre nisso comigo por um momento. Violência: raiva, competição, comparação, imitação - imitação sendo eu sou isto, devo ser aquilo. Então a violência psicologicamente é comparação, imitação, várias formas de conformidade, essencialmente comparação - eu sou isto, devo ser aquilo - isso é violência. Não apenas atirar bombas, violência física, isso é algo bem diferente. É provocado pela nossa sociedade podre, imoral, não vamos entrar nisso.


Então há apenas essa coisa, violência. O que é importante nisso? Qual a natureza dela? Nós descrevemos, mais ou menos, o que é violência. Você pode não concordar com a descrição, mas você sabe o que queremos dizer com violência - ciúme, raiva, ódio, irritação, arrogância, vaidade, tudo isso é parte da estrutura da violência. Essa violência vem com a figura, com a imagem que eu tenho, que é parte da minha imagem. Agora, como a mente pode ficar livre da imagem? Enquanto houver uma imagem, uma figura, eu tenho de ser violento. A figura é formada através da sensação, mais o pensamento e a imagem - vocês estão acompanhando isso? Então um ser humano compreende que enquanto houver essa imagem criada pela sensação mais pensamento, enquanto essa imagem - que sou eu - existir, eu tenho de ser violento. A violência significa "eu" e "você", "nós" e "eles". Assim a violência está aí enquanto essa imagem existir. E essa imagem é sensação mais pensamento. E não há imagem se houver apenas sensação completa. E então nós podemos lidar com "o que é". Eu me pergunto se vocês compreendem isso. .


Vejam: eu estou irritado, ou eu odeio alguém - não odeio, mas tomaremos isso como um exemplo. Eu odeio alguém porque essa pessoa fez algo feio, machucou-me e tudo o mais. Minha resposta instintiva, sendo um ser humano razoavelmente inteligente, razoavelmente normal, é dizer "Eu não devo odiá-lo, isso é ruim". Eu agora tenho duas imagens: eu odeio, e eu não devo odiar. Duas imagens. Então há uma batalha entre essas duas imagens. E a pessoa diz: controle, suprima, modifique, não ceda - vocês estão acompanhando? - isso acontece todo o tempo enquanto houver duas imagens. )


E eu sei - eu compreendi isso muito profundamente - que as imagens são formadas por sensação mais pensamento. Isso é um fato. Eu compreendi isso. Então eu deixo de fora o não-ódio - vocês entendem? Tenho apenas esse sentimento de irritação, raiva, ódio. O que é esse sentimento criado através da imagem, por alguma ação de outrem? Você fez algo à imagem que sou eu. E essa imagem está ferida, e a reação a essa ferida é a raiva. E se eu não tiver imagem, pensamento, sensação, se eu não tiver imagem, você não me toca - vocês compreendem? Não há ferir, não há ódio - que é "o que é". Agora eu sei, estou consciente do que fazer com "o que é". Vocês captaram alguma coisa disso?

Então eu descobri que os seres humanos não mudam porque estão desperdiçando sua energia, não mudam porque estão exercitando sua vontade, que eles julgam ser extremamente nobre, o que é chamado de liberdade de escolha. E além disso eles não sabem o que fazer com "o que é" e portanto projetam "o que deveria ser", e talvez também porque aquilo, o nirvana, a moksha, o paraíso, é muito mais importante do que "o que é". Esses são os bloqueios que impedem os seres humanos de mudar, essa é a razão porque não transformam radicalmente a si mesmos. Se vocês compreenderam isso profundamente, com seu sangue, com seu coração, com todos os seus sentidos, então vocês verão que há uma transformação extraordinária sem o menor esforço.

 


De Can Humanity Change, pg. 168-172 © 2003 Krishnamurti Foundation Trust,

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Sri Aurobindo - A Mãe sobre si mesma


Há duas coisas que não deveriam ser confundidas uma com a outra, a saber, o que se é e o que se faz, o que se é essencialmente e o que se faz no mundo exterior. Elas são muito diferentes. Sei o que sou. E o que os outros pensam e dizem ou qualquer coisa que aconteça no mundo, não altera essa verdade que permanece inabalável, inalterável, um fato. É real para si mesma e a negação ou a afirmação do mundo não aumenta nem diminui essa realidade. Mas sendo o que sou, o que faço realmente é totalmente uma questão diferente: dependerá das condições e circunstâncias onde as coisas estão e nas quais e através das quais eu deva trabalhar. Conheço a verdade que trago, mas quanto dela acha expressão no mundo, depende do próprio mundo. O que trago, o mundo deve ter a capacidade e a vontade de aceitar: de outra forma mesmo se eu trouxesse comigo a verdade mais alta e mais imperativa, ela seria, absolutamente inexistente para uma consciência que não a reconhecesse nem a recebesse: o ser com essa consciência não tiraria dela o mínimo proveito..


Você dirá que, se a verdade que eu trago é suprema e onipotente, porque ela não obriga o mundo a aceitá-la, porque ela não pode quebrar a resistência do mundo, forçar o homem a aceitar o bem que ele recusa? Mas esse não é o modo pelo qual o mundo foi criado, nem a maneira pela qual ele se move e se desenvolve. A origem da criação é liberdade: é um livre arbítrio na consciência que se projetou como o mundo objetivo. Esta liberdade é o próprio caráter de sua natureza fundamental. Se o mundo nega sua verdade suprema, seu bem mais elevado, assim o faz no deleite de sua livre escolha; e se for para voltar e reconhecer essa verdade e esse bem, deverá assim fazê-lo no mesmo deleite de livre escolha. Se ao mundo errante fosse obrigado a se corrigir e imediatamente assim o fizesse, se as coisas fossem feitas num instante, através de milagres, então, não haveria razão para se criar um mundo. Criação significa um jogo de crescimento: é uma jornada, um movimento no tempo e no espaço através de passos e estágios graduados. É um movimento para longe — longe de sua fonte — e um movimento direcionado: esse é o princípio ou plano sobre o qual ela se mantém. Neste plano não há compulsão sobre quaisquer dos elementos que compõem o mundo para renegar seu movimento natural, para obedecer a um ditame do exterior: tal compulsão quebraria o ritmo da criação.





E contudo há uma compulsão. É a pressão secreta da própria natureza da pessoa que a impulsiona para a frente através de todas vicissitudes, de volta novamente à sua fonte original. Quando se diz que a Graça Divina pode e deveria fazer tudo, isso significa nada mais e nada menos do que isso: a Graça Divina apenas acelera o processo de retorno e reconhecimento. Mas ao lado do elemento que viaja, a alma, uma colaboração consciente deve ser despertada, um consentimento inicial e uma adesão renovada constantemente. É isto que traz para fora, pelo menos ajuda a estabelecer no exterior, no plano físico, a força que já está e tem sempre estado a trabalhar dentro e nos planos mais altos e mais sutis. Esse é o esquema do jogo, o sistema de condições sob os quais o jogo é executado. A Graça trabalha e se incorpora em e através de um corpo de colaboradores conscientes e de boa vontade: estes tornam-se parte e parcela da Força que trabalha. .

A verdade que eu trago manifestar-se-á e será incorporada sobre a terra; pois, é o destino inevitável da terra e do mundo. A questão de tempo é irrelevante. Em um aspecto, a verdade que digo que será manifestada, já está totalmente manifesta, já está realizada e estabelecida: não há questão de tempo lá. Ela está em uma consciência interminável ou eternamente presente. Há um processo, um jogo de tradução entre o equilíbrio infinito e o equilíbrio no tempo que nós conhecemos aqui em baixo. A medida desse hiato é muito relativa, relativa à consciência que mede, longo ou curto de acordo com o metro que cada um traz. Mas isso não é a essência do problema: a essência é que a verdade está lá, ativa, no processo de "materialização", apenas dever-se-ia ter a visão para vê-la e a alma para saudá-la.


Do livro "O Yoga de Sri Aurobindo - partes V a VII" de Nolini Kanta Gupta, pg. 136 (livro impresso da Editora Shakti).

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Quando eu digo que meditação não é nada além de ausência de pensamentos, você pode me entender erroneamente. Você não tem de fazer nada para ficar sem pensamentos, porque o que quer que você faça será novamente um pensamento.Você tem que aprender a ver a procissão de pensamentos, ficando do lado da estrada, como se não fosse do seu interesse o que está passando por ali. Simplesmente o tráfego ordinário - se você puder tomar seus pensamentos de um modo que eles não sejam de muito interesse, então, facilmente, lentamente, a caravana de pensamentos que tem existido continuamente por milhares de anos desaparece.

 

Você tem que compreender uma coisa simples: que dar atenção é dar nutrição. Se você não der nenhuma atenção e permanecer indiferente, os pensamentos começam a morrer por conta própria. Eles não têm nenhum outro modo para conseguir energia, nenhuma outra fonte de vida. Você é a energia que eles têm. E como você continua lhes dando atenção, seriamente, você pensa que é muito difícil se livrar dos pensamentos. É a coisa mais fácil do mundo, mas tem de ser feito da maneira certa.

 

A maneira certa é ficar do lado. O tráfego vai passando - deixe-o passar. Não faça nenhum julgamento de bom e mau; não aprecie, não condene. Está tudo certo.

 

Sem forçar... e isso é algo que tem de ser lembrado, porque nossa tendência natural é forçar - se é para ficarmos sem pensamentos, por que não forçar os pensamentos? Por que não joga-los fora? Mas através do simples ato de forçá-los, você está lhes dando energia, está lhes dando nutrição, está lhes dando atenção e os está tornando importantes - tão importantes que sem jogá-los para fora, você não pode meditar.

 

Tente jogar fora um pensamento, e você verá como fica difícil. Quanto mais você o empurra para fora, mais ele volta com força! Ele adorará o jogo e você será derrotado no final. Você tomou a rota errada.

 

(...)

 

Você não pode reprimir nenhum pensamento. O próprio processo repressivo dá energia, vida, força a ele. E o enfraquece, porque você se torna o parceiro derrotado no jogo. A coisa mais fácil é não forçar, mas ser simplesmente uma testemunha.

 

(...)

 

Nunca force nenhum pensamento a ir embora, senão ele voltará com uma energia muito maior. E a energia é sua! Você está numa trilha de auto-fracasso. Quanto mais você o empurra para fora, com mais força ele volta.

 

(…)

 

Apenas permaneça em silêncio observando todos os tipos de coisas e deixe-as passar. Logo você encontrará a estrada vazia. E quando você encontrar a estrada vazia, você encontrou a mente vazia - naturalmente.

 

(...)

 

Quando você está no estado de não-mente, que equivale a ausência de pensamentos ... quando não há nenhuma nuvem de pensamento passando em sua mente, você atinge à claridade do estado de não-mente.

 

A mente é simplesmente uma combinação de todos os pensamentos, de todas as nuvens. A mente não tem nenhuma natureza independente própria. Quando todos os pensamentos forem embora e o céu estiver limpo e claro, você verá que tudo aquilo para o qual você deu tanta atenção não é nada mais do que vazio. Seus pensamentos eram todos vazios. Eles não continham nada, eles eram vazios.

 

Tudo o que você pensava que eles tinham era sua própria energia. Você retirou sua energia - o casco vazio do pensamento desaparece. Você retirou a identidade que você tinha com ele e, imediatamente, o pensamento não está mais vivo. Era a sua identificação que estava dando força de vida a ele.

 

E estranhamente você pensava que seus pensamentos eram muito fortes e era muito difícil livrar-se deles! Você os estava lhes dando força, estava cultivando-os.

 

(...)

 

Você pode simplesmente sentar-se ou se deitar e deixar os pensamentos passarem. Eles não deixarão nenhum rastro. Simplesmente não fique interessado... nem fique desinteressado tampouco. Simplesmente fique neutro. E ficar neutro é trazer de volta a própria força de vida que você tem dado a seus pensamentos.

 

OSHO, The Buddha: The Emptiness of the Heart, # 1

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13 toques sobre autoconhecimento


O autoconhecimento não pode ser aprendido de outrem. Eu não posso dizer-vos o que ele é. Mas pode-se ver como a mente opera, não apenas a mente que está ativa todos os dias, porém a totalidade da mente — a mente consciente e a mente oculta. Todas as numerosas camadas da mente têm de ser percebidas, investigadas, mas não pela introspecção. A auto-análise não revela a totalidade da mente, porque há sempre a separação entre o analista e a coisa analisada. Mas se puderdes observar as operações de vossa mente, sem tendência para julgar, avaliar, sem condenação ou comparação — observar, simplesmente, como se observa uma estrela, desapaixonadamente, tranquilamente, sem ansiedade — vereis então que o autoconhecimento não depende do tempo, não é processo de penetração do inconsciente com o fim de remover todos os "motivos" ou de compreender os vários impulsos e compulsões. O que cria o tempo é a comparação, não resta dúvida; e porque nossa mente é resultado do tempo, só pode pensar em termos de mais - sendo isso o que chamamos progresso.(1)


Já se disse que conhecer a si próprio é a mais alta sabedoria, mas mui poucos dentre nós têm cuidado disso. Falta-nos a necessária paciência, intensidade ou paixão, para descobrirmos o que somos. Nós temos a necessária energia, mas valemo-nos da energia de outros; precisamos que outros nos digam o que somos.(2)


Liberdade significa não condenardes nada do que vedes em vós mesmo. Em geral condenamos, ou explicamos, justificamos. Nunca olhamos sem justificação ou condenação. Por conseguinte, a primeira coisa que cumpre fazer — e esta é talvez a última coisa — é observar sem nenhuma espécie de condenação. Isso vai ser muito difícil, porque é nossa cultura, nossa tradição, comparar, justificar ou condenar o que somos. Dizemos "isto é certo e isso é errado; isto é verdadeiro e isto é falso, isto é belo, etc.", e isso nos impede de observar o que realmente somos.(3)


Estamos empenhados em várias atividades, alternadamente — ganhar a vida, criar filhos; ou assumimos certas responsabilidades perante várias organizações; estamos tão cheios de compromissos, de diferentes espécies, que dificilmente encontramos tempo para a reflexão sobre nós mesmos, para observarmos e estudarmos. Assim com efeito, a responsabilidade da reação é nossa, e de mais ninguém. Andar pelo mundo em busca de gurus e de seus sistemas, ler os livros mais recentes sobre esta ou aquela matéria, etc., parece-me completamente vão, completamente fútil. Podemos percorrer toda a Terra, mas teremos de voltar a nós mesmos. E, visto que em geral nos desconhecemos totalmente, é dificílimo começarmos a ver com clareza o processo do nosso pensar, sentir e agir.(4)


Quanto mais uma pessoa se conhece, tanto mais clareza existe. O autoconhecimento é infinito; nunca se chega a um remate, nunca se chega a uma conclusão. É um rio sem fim. Estudando-o e penetrando-o mais e mais, encontramos a paz. Só quando a mente está tranquila — em virtude do autoconhecimento e não da autodisciplina — só então, nessa tranquilidade, nesse silêncio, pode manifestar-se a realidade. Só então pode haver bem-aventurança, ação criadora. E se, sem termos esta compreensão, esta experiência, pomo-nos a ler livros, a assistir conferências, a fazer propaganda, isto me parece extremamente infantil, uma simples atividade sem muita significação. Mas se, ao contrário, o indivíduo for capaz de compreender a si mesmo e, por conseguinte, de fazer nascer aquela felicidade criadora, aquele experimentar de algo não produzido pela mente, então talvez possa haver transformação imediata das relações, ao redor de nós, e, por conseguinte, no mundo em que vivemos.(5)


Somos criados com a ideia de que o guru é essencial, porque é um homem que sabe e irá dizer-nos o que devemos fazer; estamos completamente imbuídos desta tradição e cumpre cortar-lhe imediatamente a raiz, para que sejamos capazes de compreender as questões que vamos examinar. Vede, senhores, temos medo de ficar privados dos nossos guias, porque nos achamos sumamente confusos; e quando agimos, em meio à nossa confusão, aumenta-se a confusão. Mas a confusão só pode ser dissipada por cada um de nós, sendo esta a razão por que tanto importa o indivíduo compreender a si mesmo. Com a compreensão vem uma ação que não é confusa nem causadora de confusão. O autoconhecimento, portanto, é essencial, mas não o autoconhecimento que se ensina nos livros, porque isso não é autoconhecimento, de modo nenhum, e sim, meramente, vã repetição.(6)


Preciso conhecer a mim mesmo, não como ideologicamente gostaria de ser, mas como realmente sou, bonito ou feio, ciumento, invejoso, ganancioso. Mas é muito difícil ver-nos tal qual somos sem desejar mudar, e esse mesmo desejo de mudança é outra forma de condicionamento; e assim prosseguimos, de condicionamento a condicionamento, nunca chegando a algo que esteja além do que é limitado.(7)


No momento, somos meros gramofones repetidores, eventualmente trocando gravações quando pressionados mas, em geral, tocando as mesmas melodias para todas as ocasiões. E é esse repetir constante, esse perpetuar da tradição, a origem do problema com todas as suas complexidades. Parecemos incapazes de escapar da conformidade, embora saibamos substituir a atual conformidade por uma outra, ou até mesmo sejamos capazes de tentar mudar o modelo atual. Trata-se de um processo constante de repetição, de imitação... e a repetição, seguramente, não irá solucionar os problemas humanos... por meio do autoconhecimento, é possível livrar-se desse eterno repetir.(8)


É essencial para um homem de paz, para um homem de pensamento, compreender a si mesmo. Pois sem autoconhecimento, seus esforços só criarão mais confusão e desgraças. Tome ciência do processo total de você mesmo. Você não precisa de gurus, de livros, para entender a cada novo momento o seu relacionamento com as coisas.(9)


Nós somos a sociedade. Se querem que a sociedade seja algo diferente, os senhores tem de começar, tem de por suas casas em ordem, as casas que são os senhores.(10)



Autoconhecimento não significa conhecer-se, mas conhecer a atividade do pensamento. Porque o eu é pensamento, a ideia. Portanto, observe cada movimento do pensamento, não deixando nunca que um pensamento passe sem se certificar do que ele é. Tente. Faça isso e você verá o que acontece. Isso revigora o cérebro. Veja: o pensamento é medo, o pensamento é prazer, o pensamento é tristeza. E o pensamento não é amor. O pensamento não é compaixão.(11)

Tendes que ser "impiedosos" com vós mesmos e viver no "verdadeiro estado de investigação". A menos que vos investigueis profundamente, em vosso interior, não tendes a possibilidade de descobrir o que é verdadeiro. Ninguém vos pode levar a esse descobrimento — ninguém! — e, por consequência, nenhum sistema. A verdade não é uma coisa estática, que fica à vossa espera, enquanto seguis um sistema uniforme, enquanto praticais dia a dia um certo método, enquanto aprimorais a vossa mente e o vosso coração para alcançar aquele estado a que chamais "a verdade". A Verdade não espera por vós!(12) .

Se você achar difícil estar atento, então experimente escrever todo pensamento e sentimento que surge ao longo do dia, anote suas reações de ciúme, inveja, vaidade, sensualidade, as intenções atrás de suas palavras, e assim por diante. Reserve algum tempo antes do café para escrever isto – o que pode exigir sair mais cedo da cama e abandonar alguma atividade social. Se você anota estas coisas sempre que pode, e à noite antes de adormecer olha tudo que escreveu durante o dia, estuda e examina isto sem julgamento, sem condenação, você começará a descobrir as causas ocultas de seus pensamentos e sentimentos, desejos e palavras. ... Agora, o importante nisto é estudar com a inteligência livre tudo que você escreveu, e estudando isto você se dará conta de seu próprio estado. Na chama da autoconsciência, do autoconhecimento, as causas do conflito são expostas e consumidas. Você deveria continuar a escrever seus pensamentos e percepções, intenções e reações, não uma vez ou outra, mas por um número considerável de dias até que você possa estar imediatamente atento a eles ... Meditação não é só autoconsciência constante, mas abandono constante do ego. Além do pensamento de comum conhecido, existe a meditação, da qual provém a tranqüilidade da sabedoria, e na serenidade algo maior acontece. Ao escrever o que a pessoa pensa e sente, os seus desejos e suas reações, propicia a consciência interior, a cooperação do inconsciente com o consciente, e isto por sua vez conduz em troca à integração e à compreensão.(13)


(1) Krishnamurti - Da solidão à Plenitude Humana - ICK
(2) Krishnamurti - Fora da Violência - Ed. Cultrix
(3) Krishnamurti - Fora da Violência - Ed. Cultrix
(4) Krishnamurti - A Primeira e Última Liberdade - Cultrix
(5) Krishnamurti - A Primeira e Última Liberdade - Cultrix
(6) Krishnamurti - Da solidão à Plenitude Humana - ICK
(7) Krishnamurti - Sobre Deus - Ed. Cultrix
(8) Krishnamurti - Sobre Relacionamentos - Ed. Cultrix
(9) Krishnamurti - Sobre Relacionamentos - Ed. Cultrix
(10) Krishnamurti - O Futuro é Agora - Cultrix
(11) Krishnamurti - Diálogos sobre a visão intuitiva - Cultrix
(12) Krishnamurti - Uma Nova Maneira de Agir
(13) Krishnamurti - O Livro da Vida

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O Objeto Obscuro de nosso desejo


[...] Só se pode renunciar àquilo que anteriormente se conheceu: conhecer certos males nos permitirá apreciar melhor quando ficarmos livres deles.



Sabemos que a palavra pecado, em grego hamartia, quer dizer “errar o alvo”, visar algo e não atingi-lo. Assim o pecado é antes de tudo uma doença do desejo, uma desorientação ou uma perversão de sua “mira”. O primeiro efeito terapêutico do ensinamentos dos Terapeutas do Deserto será dizer de novo ao homem e o fim e a finalidade de seu desejo, porque, tendo se tornado máquina desejante, joguete de múltiplas pulsões, seu drama e sofrimento são não saber mais para o que, para quem dirige-se a multidão de seus desejos amiúde contrários ou opostos. Para os Terapeutas “o objeto obscuro de nosso desejo” seria o próprio Ser, O On; sem esta mira última ele se perde, se dispersa e sofre. A infelicidade do homem, a causa de todas as doenças, dirão mais tarde os Padres do Deserto, é esquecer o Ser. O sofrimento é recalcar esse desejo essencial do Ser. “Tu nos fizeste para ti, Senhor, e nosso coração não descansará até que repouse em ti”. Reorientar o desejo, torna-lo “a memória bem-aventurada do Ser”, fazê-lo voltar do “esquecimento”, é dar-lhe o sabor do Real Absoluto, presente em todas as realidades relativas, o que lhe permitirá não adorar e não desprezar nenhuma. Não adorar nada, pois toda realidade, relativa por definição, não é absoluta; não desprezar nada, pois toda realidade, relativa pelo próprio fato de sua existência, participa da Única Fonte de todo Real. Nem desprezo nem idolatria, este seria o começo de uma atitude justa com respeito ao mundo e ao que nele habita, quando o desejo é “orientado” ou “polarizado” para a própria Fonte de tudo o que vive e respira.


Assim, para os Terapeutas, a cura psíquica está ligada ao conhecimento metafísico. Nada é grave se não se perde a consciência do “Ser que É”. Hoje em dia a doença mental não é ainda a perda do Real? O fechamento em “representações” ou reflexos do real que tomamos como a própria Realidade?


O Apego ao prazer
A primeira perturbação que ameaça desequilibrar a harmonia de uma pessoa e acorrentar a sua liberdade é para Fílon de Alexandria “o apego ao prazer”. O prazer em si mesmo não é uma coisa má; é até o sinal de que uma coisa está bem feita. “O prazer é para o ator virtuoso aquilo que é o fruto para a flor”, sinal de que um ato chegou a bom termo. Mas o prazer é fugaz, e há quem gostaria de fazê-lo durar! Querer fazer durar aquilo que não é feito para durar só pode ser causa de dor. O apego ao prazer implica a dor; neste sentido é que é preciso curar-se do apego, acolhê-lo quando vem coroar um mato bem feito, mas não chorar por causa da coroa quando murcha; não ficar segurando-a, não se apegar a ela. Mais que no prazer, a fonte do sofrimento estaria no apego ao prazer ou na busca do prazer pelo prazer. Fazer do prazer um fim é falhar no único fim que pode saciar-nos plenamente: o Ser.

Assim, a busca do prazer nos faz desviar-nos da meta, ela é fonte de ilusão. Nós nos apegamos ao reflexo e perdemos a luz. A terapia proposta por Fílon para tratar aquilo que ele considera como “patologia” vai começar pelo “domínio dos sentidos”, porque “os sentidos geram prazer”, e o prazer é um dos grandes fatores de alienação da criatura humana. Todas as realidades exteriores podem exercer decisiva ascendência sobre o ser humano e reduzi-lo à escravidão, os amigos do dinheiro procuram dinheiro, e os amigos da consideração procuram consideração, e é isto que os caracteriza. Pois entregaram o melhor ao pior, a alma às realidades inanimadas. Não se trata, para Fílon de Alexandria, de mutilar-se, nem de renunciar ao uso dos sentidos, mas de aprender a moderação. O que o aflige intensamente, nos banquetes pagãos, que denuncia vigorosamente, é a falta de medida, a devassidão que tira do ser humano os seus traços humanos. Não é mais senhor dos próprios sentidos e dos prazeres que os alimentam; está subjugado pelos sentidos. Aí só existe a loucura, ou no mínimo uma “desordem”: o animal tornou-se senhor daquele a quem deveria servir. .

[...] O desejo é uma potência do exílio; rouba-nos o instante[...] O drama do ser humano é desejar realidades relativamente reais e pedir a essas realidades transitórias que sejam "a" Realidade e permaneçam imutáveis. Só poderá decepcionar-se. A conversão do desejo consiste em considerar tudo o que existe não como sendo o Ser, mas como a sua expressão ou Sua manifestação. O desejo idolatra os seus objetos, esta é a sua enfermidade ou a sua perversão: pedir o Infinito a seres finitos, pedir o Absoluto a seres relativos. A cura do desejo, para os Terapeutas do Deserto, consistirá portanto, num primeiro momento, em reorientar o desejo para aquilo que É, ou mais exatamente, para "aquele que É", o Ser. .


Jean-Yves Leloup - Cuidar do Ser: Fílon e os Terapeutas de Alexandria

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O amor nos relacionamentos


Como é fácil destruir o que amamos! Com que rapidez surge uma barreira entre nós, uma palavra, um gesto, um sorriso! A saúde, o humor e o desejo nos entristecem e o que era maravilhoso torna-se insípido e opressivo. Pelo uso, nós nos desgastamos, e aquilo quer era vivo e claro torna-se cansativo e confuso. Por meio de constantes atritos, esperanças e frustrações, aquilo que era belo e simples torna-se terrível e cheio de expectativas. Relacionamentos são complexos e difíceis, e poucos conseguem sair deles ilesos. Embora quiséssemos que fosse estático, duradouro e contínuo, o relacionamento é um movimento, um processo que deve ser profunda e completamente entendido, e não forçado a se conformar a um padrão interno ou externo. A conformidade, que é a estrutura social, perde seu peso e autoridade somente quando há amor. O amor no relacionamento é um processo purificador, pois revela os mecanismos do Eu. Sem essa revelação, o relacionamento tem pouca importância.



Mas como lutamos contra essa revelação! A luta assume muitas formas: controle ou submissão, medo ou esperança, ciúme ou aceitação e assim por diante. A dificuldade é que nós não amamos; e se nós de fato amamos, queremos que isso funcione de uma forma particular, não lhe damos liberdade. Nós amamos com nossas mentes e não com nossos corações. A mente pode se modificar, mas o amor, não. A mente pode se tornar invulnerável, mas o amor não; a mente pode sempre se retrair, ser exclusivista, tornar-se pessoal ou impessoal. O amor não é para ser comparado e tolhido. Nossa dificuldade está naquilo que chamamos de amor, que é realmente da mente. Enchemos nossas corações com as coisas da mente e mantemos nossos corações sempre vazios e cheios de expectativas. É a mente que se apega, que é ciumenta, que controla e destrói. Nossa vida é dominada pelos centros físicos e pela mente. Nós não amamos e deixamos em paz, mas ansiamos por ser amados; nós damos a fim de receber, que é a generosidade da mente, não do coração. A mente está sempre buscando garantia, segurança; e pode o amor ser garantido pela mente? Pode a mente, cuja própria essência é temporal, perceber o amor, que é sua própria eternidade?

Mas mesmo o amor do coração tem seus próprios truques; pois corrompemos tanto nosso coração que ele é hesitante e confuso. É isso que torna a vida tão dolorosa e cansativa. Em um momento nós achamos que temos amor e no próximo ele é perdido. Aí entra uma força imponderável, que não é da mente, cujas fontes não podem ser sondadas. Essa força é mais uma vez destruída pela mente; pois nessa batalha a mente, invariavelmente, parece ser a vitoriosa. Esse conflito dentro de nós mesmos não será resolvido pela mente astuta ou pelo coração hesitante. Não há um meio, uma maneira de fazer esse conflito terminar. A própria busca por um meio é outro anseio da mente por domínio, para livrar-se do conflito e ficar tranquila, para ter amor, para tornar-se algo. .

Nossa maior dificuldade é estar ampla e profundamente atentos ao fato de que não existem meios para o amor como um objetivo desejável da mente. Quando entendemos isso real e profundamente, há uma possibilidade de receber algo que não é desse mundo. Sem o toque desse algo, façamos o que quisermos, não poderá haver felicidade duradoura no relacionamento. Se você receber essa graça e eu não, naturalmente estaremos em conflito. Você e eu pode não estar em conflito, mas eu estarei; e em minha dor e tristeza eu me desligarei. A dor é tão exclusiva quanto o prazer, e até que exista aquele amor que não seja uma construção minha o relacionamento será dor. Se houver a bênção daquele amor, você nada poderá fazer a não ser me amar pelo que sou, pois então não moldará o amor segundo o meu comportamento. Quaisquer que sejam os truques da mente, somos independentes; embora possamos estar em contato um com o outro em alguns pontos, a integração não é com você, mas dentro de mim. Essa integração não é resultado da mente em nenhum momento; ela forma somente quando a mente está inteiramente silenciosa, tendo alcançado o limite de suas forças. Somente assim não existe dor no relacionamento.


Krishnamurti -- Comentários sobre o viver

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Elimine as falsas nescessidades descubra a necessidade Única.


Sigmund Freud disse em algum lugar que o homem nasce neurótico. Isso é uma meia-verdade.


O homem não nasce neurótico, mas ele nasce em uma humanidade neurótica e a sociedade à volta deixa todo mundo neurótico mais cedo ou mais tarde. O homem nasce natural, real, normal, mas no momento em que a criança se torna parte da sociedade, a neurose começa a funcionar.a neurose consiste em uma divisão – uma profunda divisão. Você não é um: você é dois ou mesmo muitos… Seu sentimento e seu pensamento tornaram-se duas coisas diferentes: essa é a neurose básica. Sua parte que pensa e sua parte que sente se tornaram duas e você está identificado com a parte que pensa, não com a parte que sente.

E sentir é mais real do que pensar; sentir é mais natural do que pensar. Você nasceu com um coração que sente, mas o pensar é cultivado: ele é dado pela sociedade.

E seu sentimento se tornou uma coisa reprimida. Mesmo quando você diz que sente, você somente pensa que sente. O sentimento tornou-se morto e isso aconteceu por certas razões.

Quando uma criança nasce, ela é um ser sensível: ela sente coisas. Ela não é ainda um ser que pensa. Ela é natural, exatamente igual a qualquer coisa natural na natureza – exatamente como uma árvore ou como um animal. Mas nós começamos a moldá-la, a cultivá-la. Ela tem de reprimir seus sentimentos, porque sem reprimir seus sentimentos ela está sempre atormentada.Quando ela quer chorar, ela não pode chorar porque seus pais não aprovarão. Ela será condenada. Ela não será apreciada, não será amada. Ela não será aceita como ela é. Ela deve se comportar; ela deve se comportar de acordo com uma determinada ideologia, determinados ideais. Somente então ela será amada


O amor não virá para ela como ela é. Ela somente pode ser amada se seguir certas regras. Essas regras são impostas; elas não são naturais. O ser natural começa a se tornar reprimido, e o não natural, o irreal, é imposto sobre ela. Este irreal é sua mente; e chega um momento em que a divisão é tão grande que você não pode transpô-la. Você continua se esquecendo completamente qual era – ou é – a sua natureza real. Você é


Osho , em O Livro dos Segredos..

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A morte consciente vivda no agora Liberta a consciência para o eterno.


A Morte é mais importante do que a vida. A vida é apenas o comum, é apenas o superficial .A morte é mais profunda. Através da morte tu te desenvolves para a vida real...e através da vida tu apenas alcanças a morte, e nada mais.
O que quer que chamemos de vida, que tomemos como vida, não passa de uma viagem em direção a morte. Se puderes compreender que toda a nossa vida é apenas uma viagem, e nada mais, então ficarás mais interessado na morte, pode chegar as profundidades maiores da vida. De outra forma ,permanecerá apenas na superfície. .
Mas não estamos absolutamente interessados na morte. Antes,fugimos aos fatos, estamos continuamente fugindo aos fatos. A morte ai está e a cada momento estamos morrendo. A morte não é algo distante; está aqui, e agora. Estamos morrendo. Mas enquanto estamos morrendo ,vamos nos preocupando com a vida. Essa preocupação com a vida , Essa superpreocupação com a vida, é apenas uma fuga, apenas um temor. A morte ai está , profundamente dentro –crescendo.

Modifique-se a ênfase: volte-se a tua atenção para o que há em torno. Se te tornas preocupado com a morte, tua vida te vai ser revelada pela primeira vez,porque no momento em que te sintas a vontade com a morte, ganhaste a vida que não pode morrer. Do momento em que tenhas conhecido a morte, conheceste que a vida é eterna . .

A morte é a porta da vida superficial , a chamada vida, a comum. Há uma porta. Se passares através dela, encontrarás outra vida (mais profunda...eterna), sem morte, imortal. Da chamada vida,que,realmente,nada é , senão o morrer, temos que passar pela porta da morte. Só então alcançaremos a vida que é realmente existencial e ativa. –sem morte.

Mas é presciso que se passe muito conscientimente através dessa porta. Estivemos morrendo muitas vezes. Mas, quando quer que alguém morra torna-se inconsciente. Passas através da porta num estado inconsciente da mente. Então nasces de novo, e toda a insensatez recomeça. E outra vez não te preocupas com a morte. .


Quem se preocupa com a morte mais do que a vida, começa a passar conscientemente pela porta, Isso é o que entendemos por meditação: passar conscientemente pela porta da morte. Morrer conscientemente é meditação. Mas não podes esperar pela morte. Não prescisas fazer isso, porque a morte está sempre ai. É uma porta que existe dentro de ti, não e algo que vá acontecer no futuro, não é algo fora de ti, que tens que alcançar, está dentro de ti é uma porta..

Do momento em que aceitas o fato de que a morte ai está e começas a senti-la , a vive-la , a ter consciência dela, começas a desaparecer através da porta interior. A porta se abre, e através da porta da morte começas a ter realces da vida eterna. Só através da morte é possível a alguém ter relances da vida eterna, não há outra maneira. Portanto realmente, tudo quanto é conhecido como meditação não passa de morte voluntaria, apenas um aprofundamento interior, um afogamento interior , um mergulhar interior um afastar-se da superfície e procurar a profundidade. .



Portanto para quem está disposto a morrer , essa própia disposição se torna a transcendência: essa propia disposição é religiosidade . Quando dizemos que alguém é mndano , queremos dizer ,antrs, que ele é absolutamente preocupado com a vida , e de forma alguma preocupado com a morte. Uma pessoa mundana é alguém para quem a morte vem , afinal. E qando vem, ele está insconsciente

Um homem religioso é o que está morrendo a cada momento. A morte não está no fim; é o próprio processo da vida. Um homem religioso é o que está mais preocupado com a morte do que com a vida, por que sente que aquio , seja o que for, que conhecemos como vida, vai ser tomado. Está sendo tomado; a cada momento tu o estás perdendo .A vida é apenas a areia numa ampulheta. A cada momento a areia vai sendo perdida e nada podes fazer neste caso. O processo é Natural. Nada pode ser feito:é irreversível. (...) (Um dia toda a areia estará perdida e tu estarás vazio -- apenas um eu vazio sem mais tempo consigo ,Então morres...


Sê mais preocupado com a morte(e com o tempo). Ele está aqui e agora, na esquina presente a cada momento. Desde que começas a procura-lo, tornas-te consciente dele . Ele está aqui ,tu apenas está deixando de observar esse fato. Mas nem mesmo deixando de observar esse fato tu foges a ele. Portanto entra na morte , salta para ela . Essa é a dureza da meditação , essa é asua austeridade ; é presciso saltar para a morte. Continuar amando a vida é sensualidade profunda , e estar pronto a morrer parece, de certa forma, não natural. Sem dúvida, a morte é uma das coisas mais naturais ... mas parece nada natural estar proonto par morrer.


Assim é como funciona o paradoxo, a dialética da existência; se estás pronto a morrer, mesmo essa disposição torna-te não mortal; mas se não estás pronto a morrer essa mesma disposição esse superego e ânsia de de viver fazem de ti um fenômeno que morre. Quando assumimos qualquer atitude, sempre lançamos o oposto. Essa é a profunda dialética da existência.o esperado nunca chega, o desejado nunca é obtido, o desejo jamais é satisfeito. Quanto mais desejas mais perdes. Seja qual for a dimensão isso não faz diferença: a lei permanece a mesma se pedes demasiado, seja o que for, pelo fato de pedires perderás o qe pedes. (...)


Assim uma pessoa cheia de ânsia pela vida é uma pessoa morta. Já está morta , apena um cadáver. Quanto mais ela sente ser apenas um cadáver, mas mais desejo tem de viver, mas não conhece a dialética. O Próprio anseio é venenoso . Uma pessoa que não têm ânsia de viver –Uma pessoa com o Buda , que não tem ânsia pela vida – vive ardentemente. Floresce em vivência, perfeitamente, totalmente. .

No dia em que Buda morreu alguém lhe disse: “Agora, estás morrendo, Vamos sentir muita falta de ti , durante eras e eras,vidas e vidas”
No dia em que Buda morreu alguém lhe disse: “Agora, estás morrendo, vamos sentir muita falta de ti , durante eras e eras,vidas e vidas” Buda respondeu: “Mas eu morri a muito tempo, durante quarenta anos não tive consciência de estar vivo. No dia em que atingi o conhecimento a iluminação , morri.”


Estava entretanto tão vivo! E esteve realmente, vivo só depois de estar “morto”. No dia em que atingiu a iluminação interior , morreu exteriormente , mas foi quando se tornou muito vivo. Então foi relaxado e espontâneo . Então ,não teve medo , não temeu a morte.

O medo da morte é o único medo. Pode tomar qualquer aspescto, mas é o medo básico. Desde que estejas pronto – desde que tenhas morrido – já não existe medo. E só numa existência destituída de medo a vida pode chegar ao florescimento completo. Mesmo então a morte vem. Buda morre. Mas a morte acontece apenas para nós , não para ele , porque quem passa pela porta da morte (consciente) tem a continuidade eterna . uma continuidade intemporal.


OSHO – Meditação: Aarte do êxtase, Capitulo 10 , págs 113 a 117

VÍDEO onde Mooji relata a experiência do Místico Ramana Marhashi ao passar Conscientemente pela porta da Morte .
Apartir dos 5:12 Minutos

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A beatitude de permanecer centrado no Ser .


Tente entender qual é o problema da mente: quando dividida, está doente; quando não-dividida,está saudável. Quando existem muitas coisas contraditórias na mente, ela fica doente, fica como uma multidão, como uma louca multidão. Mas, quando existe apenas uma coisa na mente, ela fica saudável —porque através da unidade uma cristalização acontece. A menos que na mente exista apenas uma coisa,ela permanece doente. Há certos momentos em que sua mente também atinge a unidade. Alguns momentos acontecem, algumas vezes, acidentalmente. Certa manhã, você levanta cedo; tudo está fresco e o sol está surgindo; tudo é tão belo que você se torna centrado. Esquece que tem de ir ao mercado, esquece que tem de ir ao escritório, esquece que é hinu, maometano ou cristão, esquece que é pai, mãe ou filho — esquece este mundo. O sol é tão belo e a manhã tão fresca que você penetra nela e torna-se um só. Por um singular momento, você é um só, sua mente é total e saudável; você sente uma benção surgindo por todo o seu ser. Isto pode acontecer acidentalmente, mas você também pode fazer com que aconteça conscientemente.

Quando a mente é uma só, uma qualidade mais alta expressa a si mesma e a inferior cai imediatamente por si mesma. É exatamente como numa escola: quando o diretor está presente, os professores trabalham bem, os alunos aprendem e há ordem. Quando o diretor sai, os professores são a autoridade mais alta e não existe tanta ordem porque os professores estão em liberdade. Uma energia mais baixa começa a funcionar — eles vão fumar, tomar chá e começam a tagarelar. Ainda assim, se os professores estiverem presentes, os estudantes estarão quietos. Mas quando o professor sai, a classe viraum caos; é uma multidão, uma louca multidão. O professor entra na classe — e de repente, tudo muda. Uma força mais alta entrou, o caos desapareceu. O caos demonstra simplesmente que uma força mais alta está ausente. Quando não existe nenhum caos, quando há harmonia, isto demonstra que uma força mais alta está presente. Sua mente está em caos — um ponto mais alto é necessário, uma cristalização mais alta é necessária. Você é exatamente como um aluno, uma classe, uma classe louca onde o professor não está. Quando você se concentra, imediatamentese faz sentir uma função mais alta.

Este é o processo completo. A mente está doente porque não tem nenhum centro. Você já obteve um centrona mente? Você pode dizer: "Este centro sou eu? Ele muda a cada momento: pela manhã, você está comraiva e sente que é a raiva; à tarde, fica amoroso e pensa: "Eu sou amor"; à noite, está frustrado e pensa:"Eu sou frustração". Há algum centro em você? Ou você é apenas uma multidão em movimento? Do jeito que você está, não existe nenhum centro, não há nenhum centro ainda — e um homem sem um centro é um doente. Um homem saudável é um homem com um centro. Jesus disse: "Auxilie as pessoas a alcançarem o centro"; assim, seja qual for o caos ao redor haverá um centro por dentro, você permanecerá centrado vinte e quatro horas por dia; algo permanecerá contínuo — esse continuam tornarse-á seu Ser.



Observe: existem três camadas na existência. Uma camada é objetiva, é o mundo objetivo; seus sentidos transmitem tudo o que está a sua volta — seus olhos vêem, seus ouvidos ouvem, suas mãos tocam. O mundo objetivo é a primeira camada da existência e, se você estiver envolvido por ela, permanecerá satisfeito com a mais superficial. Há uma segunda camada em seu interior, a camada da mente: pensamentos, emoções, amor, raiva, sentimentos — esta é a segunda camada. A primeira camada é comum — se eu tiver uma pedra em minha mão você será capaz de vê-la — ela é um objeto comum a todos. Mas ninguém pode ver o que está dentro da mente. Quando você olha para mim, vê apenas o meu corpo; nunca me vê. Quando eu olho para você, vejo apenas o seu corpo, não você. Uma outra pessoa pode ver o seu comportamento: como você age, o que faz, como reage. Pode ver a raiva em sua face, o rubor, a crueldade, a violência em seus olhos, mas não pode ver a raiva dentro da sua mente. Pode ver um gesto amoroso demonstrado pelo seu corpo, mas nãopode ver o amor. E você pode estar apenas fazendo um gesto, talvez não haja nenhum amor. Você podeenganar os outros por meio de ações, e é isso o que você tem feito. Seu corpo pode ser conhecido pelos outros, mas a sua mente não. O mundo objetivo é comum a todos; é o mundo da ciência. A ciência diz que essa é a única realidade porque: "Nós não podemos saber sobre os pensamentos — se eles existem ou não, ninguém sabe. Você diz que eles existem, mas eles não são aparentes, objetivos; nós não podemos experimentá-los, não podemos vê-los. Você os transmite, mas pode estar nos enganando ou sendo enganado — quem sabe?" Seus pensamentos não são coisas mas você bem sabe que existem. Sabe que não existem apenas coisas, mas pensamentos também. Entretanto, os pensamentos são privados, não são comuns. A camada externa, a primeira camada, a camada da superfície cria a ciência. A segunda camada, a dos pensamentos e sentimentos, cria a filosofia, a poesia. Mas isso é tudo? Matéria e mente? Se isso fosse tudo, você não poderia nunca ficar centrado porque a mente é sempre um fluxo. Não tem nenhum centro:ontem, você teve determinados pensamentos, hoje tem outros; amanhã terá outros — é como um rio, nãotem nenhum centro em si. (...)Você compreende pela mente e a mente embaralha, confunde, interpreta — então esta asserção torna-se perigosa (...)


Na mente, não se pode encontrar qualquer centro: os pensamentos mudam, os sentimentos mudam; há um fluxo. Desse modo, você permanece sempre doente, confuso, não pode nunca estar são. Mas há também uma outra camada na existência, a mais profunda. A primeira é o mundo objetivo, o mundo da ciência; a segunda é o mundo dos pensamentos — a filosofia, a poesia, os sentimentos, os pensamentos. E há uma terceira camada que é o mundo da religião, do testemunho — daquele que observa os pensamentos, daquele que observa os objetos. Esse observador é único; não existem dois. Se você está olhando para uma casa com os olhos abertos ou fechados, o observador é o mesmo. Se você está olhando para a raiva ou para o amor, o observador é o mesmo. Se está triste ou alegre, se a vida transformou-se em poesia ou em pesadelo, isso não faz nenhuma diferença — aquele que olha permanece o mesmo, a testemunha permanece a mesma. Atestemunha é o único centro, essa testemunha é o mundo da religião.
Quando Jesus diz: "Vá e sane as pessoas", está dizendo: "Vá e auxilie-as a alcançar seus centros, faça com que sejam testemunhas. Assim, não estarão envolvidos pelo mundo, nem pelos pensamentos, estarão enraizadas no ser". E, uma vez que você esteja enraizado em seu ser, tudo muda, a qualidade muda — você pode rezar.(...)

(...)Assim, Jesus diz: "Observe o que surge de você; não se preocupe com o que encontra." Isso tem de ser observado por você também; do contrário, toda a sua abordagem estará errada. Se você pensar continuamente no que entra, nunca desenvolverá essa capacidade de ser que pode transformar as coisas O real deve vir do ser. Primeiro, você deve mudar e ser transformado; então, tudo o que fizer será bom.
Deixe as coisas virem do seu ser. Não manipule e não controle suas ações, transforme seu ser. O real não é o que você faz, o real é aquilo que você é.


OSHO, Bagwam Rajneesh | A semente de mostarda, Vol 1. págs 71 a 76 . Editora TAO

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Muletas Psicologicas as armadilhas do ego

Somos criaturas bio-químicas e queiramos ou não estamos confinados, pelo menos enquanto seres viventes deste mundo, a interagirmos com toda essa descarga química que rege nossas vidas diariamente. Somos uma grande farmácia de manipulação, uma indústria química que consegue produzir um elemento para cada coisa. Tem química para a alegria, tristeza, paixão, stress, medo, coragem, raiva, excitação, bem-estar… Toda e qualquer emoção que tivermos, por mais que tenham tido seu estopim na mente e nas ações e interações do cotidiano, vai culminar no gerenciamento de alguma química pelo cérebro, que irá induzir e sentir tal processo, em sua totalidade, como uma emoção. E como toda química, obviamente, algumas viciam. À princípio, não há problema nisso. O problema é quando as ações e estímulos necessários para que se inicie todo esse processo, acontecem de forma equivocada, atingindo negativamente os outros e a nível inconsciente, a si mesmo. E é aí que entra o papel do ego… Nunca vi termo tão mal compreendido quanto este. O ego tornou-se a majestade e o bobo da corte – simultaneamente. Muitos de nós, vivemos exclusivamente em função dele, mas não temos a menor noção de que a forma que tratamos nosso ego, tem sido manipulada por forças poderosas e covardes, que se aproveitam da falta de auto-conhecimento para deturpar diariamente como lidamos com nós mesmos, sem nos darmos conta do processo.

Uma boa definição de “ego”:
“O ego é uma instância da personalidade definida pela psicologia como o nosso eu mais perceptível. Esse conceito foi revisto e ampliado pelo médico austríaco Sigmund Freud (1856-1939), autor da teoria psicanalítica. Para ele, o ego é uma instância psíquica relacionada ao princípio de realidade. O psiquismo humano seria composto ainda por duas outras instâncias: o id, que se orientaria pelo princípio do prazer, e o superego, que exerceria a função de juiz ou censor do ego. O ego, que é a parte mais perceptível de cada um de nós, age condicionado por nossos desejos, conscientes ou inconscientes, e ao mesmo tempo é moldado por nossa autocensura e pelos nossos juízos de valor, representados pelo superego. As pessoas com ego mais frágil são, geralmente, mais impulsivas, uma vez que cedem aos impulsos do id. Quem tem o ego mais rígido, por sua vez, está mais submetido às leis do superego e costuma ser lógico e controlador.” Um bom exemplo das armadilhas do ego, é a questão do “status” ou posição social. Desde cedo, somos massificados com a seguinte informação: “você é o que tem”. Alguém com um anél de ouro, um carro mais moderno, uma roupa de marca, consegue se sentir bem exibindo-se em público e atraindo atenções para tal. Se sente uma pessoa superior apenas por possuir bens materiais que, “dizem” ser melhores do que muitos outros em uso pela grande maioria. Nomes e marcas fazem este trabalho, que evidentemente é ilusório para os que sabem como isso tudo é criado, mas altamente corruptível e atraente para a grande maioria. É a manutenção do ego utilizando a ilusão do status, criada pelo capitalismo através da mídia. E daí, entra em ação mais uma vez o turbilhão químico do bem-estar, a partir de um estímulo nocivo. E isso acontece em diversas outras situações do cotidiano, que visam atrair a atenção para si:

-  Agressão a outras pessoas em posições inferiores ou não passíveis de revide, como vendedores de lojas, atendentes de serviços via telefone e outros trabalhadores que lidam com o público. A agressão pode partir de um cliente/consumidor ou mesmo do chefe, que agride psicologicamente, ameaçando sempre mandar o trabalhador embora, incutindo medo, insegurança e humilhando o indivíduo;
-  A agressão pode se dar em outros níveis da sociedade, como com idosos, crianças, mulheres, etc. O mundo acaba virando um palco para desfilarmos nossa “atitude”, aliviar nossas frustrações, mas isso serve apenas para que nós mesmos nos afastemos da noção de inferiores, patéticos. Agressão verbal ou até física para inflar o ego e nos sentirmos poderosos, mesmo que às custas da humilhação alheia; - Super-estimar posses materiais, ou o popular “contar vantagem”. “
- Meu carro é melhor, meu relógio é melhor, minha roupa é de marca, meu sapato foi caríssimo” e por aí vai… “O meu é sempre melhor do que o seu”, mesmo que na prática não me transforme em uma pessoa melhor. Muito pelo contrário, acabamos escravos do que possuímos e cada vez mais dependentes de bens materiais para nos afirmarmos como indivíduos na sociedade;
- Da mesma maneira que supervalorizar bens materiais infla o ego, diminuir o que outros possuem também dá conta do recado. Falar mal da vida alheia, caluniar as pessoas e fazer pouco caso do que possuem, como conseguiram seus bens, como são fisicamente ou como vivem, serve para intensificar ainda mais o bem-estar ilusório, ou para mascarar frustrações. De qualquer forma, serve de alimento para o ego.
Um alimento deveras venenoso e viciante, que vai exigir cada vez mais comportamentos bizarros. Como uma droga, sempre se quer mais sem se importar com limites;
- Outra ação muito comum na sociedade é a filiação a grupos para participar de manifestações de cunho popular que também geram alimento ao ego, mas que descamba para a alienação e por vezes agressão. O caso mais comum talvez seja o de torcidas organizadas de futebol, mas a religião também pode ser um motivador poderoso. O foco da pessoa que se filia a um todo desse tipo se perde, assim como sua individualidade. Ele não vai mais ao estádio para torcer, mas sim para agredir a torcida adversária, “marcar território” e se sentir forte como parte de um coletivo que lhe providencia escudo e proteção para agir de maneira que não agiria estando sozinho. No final, ele não sabe se torce pro time, pro jogador, pro clube ou pro dirigente, pois a idéia é competir e sobrassair como parte de um grupo, seja ele qualquer.
 E é assim… Um círculo vicioso de comportamentos que visam o bem-estar pessoal acima de tudo, baseando-se no egoísmo como principal propulsor, muitas vezes sem a menor auto-crítica e piedade com o próximo. O “Eu” acima de tudo e de todos, que acaba perpetuando e corrompendo toda a sociedade pela lei da imitação, pela facilidade com que se pode fazer tais coisas e acima de tudo pela legitimidade com que tratamos esses comportamentos. Afinal, “- o mundo é assim”, dizem.. como também “- não vou conseguir mudar o mundo sozinho”. Esses pensamentos são justamente o combustível principal de muitos dos erros e problemas da atualidade, como a desigualdade social e o preconceito, mas que pode começar a ser mudado a qualquer momento. Basta que consigamos ter o desejo honesto de se melhorar, evoluir a consciência, pois com isso, invariavelmente melhoramos o mundo. Talvez ainda haja um pouco de tempo para nós, mas com certeza haverá bastante para as futuras gerações. Mesmo que não estejamos mais aqui, pense que muitas pessoas boas, sensatas e inteligentes, tiveram grandes feitos no passado e que hoje, mesmo elas já não estando mais por aqui, nós é que nos beneficiamos com isso.


EGO, O FALSO CENTRO

O primeiro ponto a ser compreendido é o ego.
Uma criança nasce sem qualquer conhecimento, sem qualquer consciência de seu próprio eu. E quando uma criança nasce, a primeira coisa da qual ela se torna consciente não é ela mesma; a primeira coisa da qual ela se torna consciente é o outro. Isso é natural, porque os olhos se abrem para fora, as mãos tocam os outros, os ouvidos escutam os outros, a língua saboreia a comida e o nariz cheira o exterior. Todos esses sentidos abrem-se para fora. O nascimento é isso.
   Nascimento significa vir a este mundo, o mundo exterior. Assim, quando uma criança nasce, ela nasce neste mundo. Ela abre seus olhos, vê aos outros. O ‘outro’ significa o tu. Ela primeiro se torna consciente da mãe. Então, pouco a pouco, ela se torna consciente de seu próprio corpo. Este também é o outro, também pertence ao mundo. Ela está com fome e passa a sentir o corpo; quando sua necessidade é satisfeita, ela esquece o corpo.
   É desta maneira que a criança cresce.
Primeiro ela se torna consciente do você, do tu, do outro, e então, pouco a pouco, contrastando com você, tu, ela se torna consciente de si mesma. Essa consciência é uma consciência refletida. Ela não está consciente de quem ela é. Ela está simplesmente consciente da mãe e do que esta pensa a seu respeito. Se a mãe sorri, se ela aprecia a criança, se diz: ‘Você é bonita’, se ela a abraça e a beija, a criança sente-se bem a respeito de si mesma. Agora um ego está nascendo. Através da apreciação, do amor, do cuidado, ela sente que é boa, ela sente que tem valor, ela sente que tem importância. Um centro está nascendo. Mas esse centro é um centro refletido. Ela não é o ser verdadeiro. A criança não sabe quem ela é; ela simplesmente sabe o que os outros pensam a seu respeito.
   E esse é o ego: o reflexo, aquilo que os outros pensam. Se ninguém pensa que ela tem alguma utilidade, se ninguém a aprecia, se ninguém lhe sorri, então, também, um ego nasce – um ego doente, triste, rejeitado, como uma ferida; sentindo-se inferior, sem valor. Isso também é o ego. Isso também é um reflexo.
   Primeiro a mãe – e mãe, no início, significa o mundo. Depois os outros se juntarão à mãe, e o mundo irá crescendo. E quanto mais o mundo cresce, mais complexo o ego se torna, porque muitas opiniões dos outros são refletidas. O ego é um fenômeno acumulativo, um subproduto do
viver com os outros. Se uma criança vive totalmente sozinha, ela nunca chegará a desenvolver um ego. Mas isso não vai ajudar. Ela permanecerá como um animal. Isso não significa que ela virá a conhecer o seu verdadeiro eu, não. O verdadeiro pode ser conhecido somente através do falso, portanto, o ego é uma necessidade. Temos que passar por ele. Ela é uma disciplina. O verdadeiro pode ser conhecido somente através da ilusão. Você não pode conhecer a verdade diretamente. Primeiro você tem que conhecer aquilo que não é verdadeiro. Primeiro você tem que encontrar o falso. Através desse encontro, você se torna capaz de conhecer a verdade. Se você conhece o falso como falso, a verdade nascerá em você.
   O ego é uma necessidade; é uma necessidade social, é um subproduto social. A sociedade significa tudo o que está ao seu redor, não você, mas tudo aquilo que o rodeia. Tudo, menos você, é a sociedade. E todos refletem. Você irá para a escola e o professor refletirá quem você é. Você fará amizade com outras crianças e elas refletirão quem você é. Pouco a pouco, todos estão adicionando algo ao seu ego, e todos estão tentando modificá-lo, de tal forma que você não se torne um problema para a sociedade.
   Eles não estão interessados em você. Eles estão interessados na sociedade.
   A sociedade está interessada nela mesma, e é assim que deveria ser. Ela não está interessada no fato de que você deveria se tornar um conhecedor de si mesmo. Interessa-lhe que você se torne uma peça eficiente no mecanismo da sociedade. Você deveria ajustar-se ao padrão. Assim, estão tentando dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Ensinam-lhe a moralidade. Moralidade significa dar-lhe um ego que se ajustará à sociedade. Se você for imoral, você será sempre um desajustado em um lugar ou outro.
É por isso que colocamos os criminosos nas prisões – não que eles tenham feito alguma coisa errada, não que ao colocá-los nas prisões iremos melhorá-los, não. Eles simplesmente não se ajustam. Eles criam problemas. Eles têm certos tipos de egos que a sociedade não aprova. Se a sociedade aprova, tudo está bem.
   Um homem mata alguém – ele é um assassino. E o mesmo homem, durante a guerra, mata milhares – e torna-se um grande herói. A sociedade não está preocupada com o homicídio, mas o homicídio deveria ser praticado para a sociedade – então tudo está bem. A sociedade não se preocupa com moralidade.
   Moralidade significa simplesmente que você deve se ajustar à sociedade.
Se a sociedade estiver em guerra, a moralidade muda. Se a sociedade estiver em paz, existe uma moralidade diferente. A moralidade é uma política social. É diplomacia. E toda criança deve ser educada de tal forma que ela se ajuste à sociedade; e isso é tudo, porque a sociedade está interessada em membros eficientes. A sociedade não está
interessada no fato de que você deveria chegar ao autoconhecimento. A sociedade cria um ego porque o ego pode ser controlado e manipulado. O eu nunca pode ser controlado e manipulado. Nunca se ouviu dizer que a sociedade estivesse controlando o eu – não é possível.
E a criança necessita de um centro; a criança está absolutamente inconsciente de seu próprio centro. A sociedade lhe dá um centro e a criança pouco a pouco fica convencida de que este é o seu centro, o ego dado pela sociedade.
   Uma criança volta para casa – se ela foi o primeiro aluno de sua classe, a família inteira fica feliz. Você a abraça e a beija, e você coloca a criança no colo e começa a dançar e diz: ‘Que linda criança! Você é um motivo de orgulho para nós.’ Você está dando um ego a ela. Um ego sutil. E se a criança chega em casa abatida, fracassada, um fiasco – ela não pode passar, ou ela tirou o último lugar – então ninguém a aprecia e a criança sente-se rejeitada. Ela tentará com mais afinco na próxima vez, porque o centro se sente abalado. O ego está sempre abalado, sempre à procura de alimento, de alguém que o aprecie. É por isso que você está continuamente pedindo atenção.
Ouvi contar:
Mulla Nasrudin e sua esposa estavam saindo de uma festa, e Mulla disse:
‘Querida, alguma vez alguém já lhe disse que você é fascinante, linda, maravilhosa?
Sua esposa sentiu-se muito, muito bem, ficou muito feliz. Ela disse: Eu me pergunto por que ninguém jamais me disse isso.’
Nasrudin disse: ‘Mas então de onde você tirou essa idéia?;
Você obtém dos outros a idéia de quem você é. Não é uma experiência direta. É dos outros que você obtém a idéia de quem você é. Eles modelam o seu centro.

Esse centro é falso, porque você contém o seu centro verdadeiro. Este não é da conta de ninguém. Ninguém o modela, você vem com ele. Você nasce com ele. Assim, você tem dois centros. Um centro com o qual você vem, que lhe é dado pela própria existência. Este é o eu. E o outro centro, que lhe é dado pela sociedade – o ego. Ele é algo falso – e é um grande truque. Através do ego a sociedade está controlando você. Você tem que se comportar de uma certa maneira, porque somente então a sociedade o aprecia. Você tem que caminhar de uma certa maneira: você tem que rir de uma certa maneira; você tem que seguir determinadas condutas, uma moralidade, um código. Somente então a sociedade o apreciará, e se ela não o fizer, o seu ego ficará abalado. E quando o ego fica abalado, você já não sabe onde está, quem você é. Os outros lhe deram a idéia. Essa idéia é o ego. Tente entendê-lo o mais profundamente possível, porque ele tem que ser jogado fora. E a menos que você o jogue fora, nunca será capaz de alcançar o eu. Por estar viciado no centro, você não pode se mover, e você não pode olhar para o eu. E lembre-se, vai haver um período intermediário, um intervalo, quando o ego estará despedaçado, quando você não saberá quem você é, quando você não saberá para onde está indo,quando todos os limites se dissolverão. Você estará simplesmente confuso, um caos.

Devido a esse caos, você tem medo de perder o ego. Mas tem que ser assim. Temos que passar através do caos antes de atingir o centro verdadeiro. E se você for ousado, o período será curto. Se você for medroso e novamente cair no ego, e novamente começar a ajeitá-lo, então, o período pode ser muito, muito longo; muitas vidas podem ser desperdiçadas. Ouvi dizer: Uma criancinha estava visitando seus avós. Ela tinha apenas quatro anos de idade. De noite, quando a avó a estava fazendo dormir, ela de repente começou a chorar e a gritar: ‘Eu quero ir para casa. Estou com medo do escuro.’ Mas a avó disse: ‘Eu sei muito bem que em sua casa você também dorme no escuro; eu nunca vi a luz acesa: Então por que você está com medo aqui?’ O menino disse: ‘Sim, é verdade – mas aquela é a minha escuridão. Esta escuridão é completamente desconhecida.’ Até mesmo com a escuridão você sente: ‘Esta é minha.’ Do lado de fora – uma escuridão desconhecida. Com o ego você sente: ‘Esta é a minha escuridão.’ Pode ser problemática, pode criar muitos tormentos, mas ainda assim, é minha. Alguma coisa em que se segurar, alguma coisa em que se agarrar, alguma coisa sob os pés; você não está em um vácuo, não está em um vazio. Você pode ser infeliz, mas pelo menos você é.
Até mesmo o ser infeliz lhe dá uma sensação de ‘eu sou’. Afastando-se disso, o medo toma conta; você começa a sentir medo da escuridão desconhecida e do caos – porque a sociedade conseguiu clarear uma pequena parte do seu ser… É o mesmo que penetrar em uma floresta. Você faz uma pequena clareira, você limpa um pedaço de terra, você faz um cercado, você faz uma pequena cabana; você faz um pequeno jardim, um gramado, e você sente-se bem. Além de sua cerca – a floresta, a selva. Aqui tudo está bem; você planejou tudo. Foi assim que aconteceu. A sociedade abriu uma pequena clareira em sua consciência. Ela limpou apenas uma pequena parte completamente e cercou-a. Tudo está bem ali. Todas as suas universidades estão fazendo isso. Toda a cultura e todo o condicionamento visam apenas limpar uma parte, para que você possa se sentir em casa ali.

E então você passa a sentir medo. Além da cerca existe perigo. Além da cerca você é, tal como dentro da cerca você é – e sua mente consciente é apenas uma parte, um décimo de todo o seu ser. Nove décimos estão aguardando no escuro. E dentro desses nove décimos, em algum lugar, o
seu centro verdadeiro está oculto.
Precisamos ser ousados, corajosos. Precisamos dar um passo para o desconhecido.
Por um certo tempo, todos os limites ficarão perdidos.
Por um certo tempo, você vai sentir-se atordoado.
Por um certo tempo, você vai sentir-se muito amedrontado e abalado, como se tivesse havido um terremoto.
Mas se você for corajoso e não voltar para trás, se você não voltar a cair no ego, mas for sempre em frente, existe um centro oculto dentro de você, um centro que você tem carregado por muitas vidas.
Esta é a sua alma, o eu.
Uma vez que você se aproxime dele, tudo muda, tudo volta a se assentar novamente. Mas agora esse assentamento não é feito pela sociedade. Agora, tudo se torna um cosmos e não um caos; nasce uma nova ordem. Mas esta não é a ordem da sociedade – é a própria ordem da existência. É o que Buda chama de Dharma, Lao Tsé chama de Tao, Heráclito chama de Logos. Não é feita pelo homem. É a própria ordem da existência.
Então, de repente tudo volta a ficar belo, e pela primeira vez, realmente belo, porque as coisas feitas pelo homem não podem ser belas. No máximo você pode esconder a feiúra delas, isso é tudo. Você pode enfeitá-las, mas elas nunca podem ser belas. A diferença é a mesma que existe entre uma flor verdadeira e uma flor de plástico ou de papel. O ego é uma flor de plástico, morta. Não é uma flor, apenas parece com uma flor. Até mesmo lingüisticamente, chamá-la de flor está errado, porque uma flor é algo que floresce. E essa coisa de plástico é apenas uma coisa e não um florescer. Ela está morta. Não há vida nela. Você tem um centro que floresce dentro de você. Por isso os hindus o chamam de lótus – é um florescer. Chamam-no de o lótus das mil pétalas. Mil significa infinitas pétalas. O centro floresce continuamente, nunca para, nunca morre. Mas você está satisfeito com um ego de plástico. Existem algumas razões para que você esteja satisfeito. Com uma coisa morta, existem muitas vantagens. Uma é que a coisa morta nunca morre. Não pode – nunca esteve viva. Assim você pode ter flores de plástico, e de certa forma elas são boas. Elas são permanentes; não são eternas, mas são permanentes. A flor verdadeira, a flor que está lá fora no jardim, é eterna, mas não é permanente. E o eterno tem uma maneira própria de ser eterno. A maneira do eterno é nascer muitas e muitas vezes… e morrer. Através da morte, o eterno se renova, rejuvenesce.
Para nós, parece que a flor morreu – ela nunca morre. Ela simplesmente troca de corpo, assim está sempre fresca. Ela deixa o velho corpo e entra em um novo corpo. Ela floresce em algum outro lugar, nunca deixa de estar florescendo.
Mas não podemos ver a continuidade porque a continuidade é invisível. Vemos somente uma flor, outra flor; nunca vemos a continuidade. Trata-se da mesma flor que floresceu ontem. Trata-se do mesmo sol, mas em um traje diferente. O ego tem uma certa qualidade – ele está morto. É de plástico. E é muito fácil obtê-lo, porque os outros o dão a você. Você não o precisa procurar; a busca não é necessária para ele. Por isso, a menos que você se torne um buscador à procura do desconhecido, você ainda não terá se tornado um indivíduo. Você é simplesmente uma parte da multidão. Você é apenas uma turba. Quando você não tem um centro autêntico, como você pode ser um indivíduo? O ego não é individual. O ego é um fenômeno social – ele é a sociedade, não é você. Mas ele lhe dá um papel na sociedade, uma posição na sociedade. E se você ficar satisfeito com ele, você perderá toda a oportunidade de encontrar o eu. E por isso você é tão infeliz.
Com uma vida de plástico, como você pode ser feliz? Com uma vida falsa, como você pode ser extático e bem-aventurado? E esse ego cria muitos tormentos, milhões deles. Você não pode ver, porque se trata da sua escuridão. Você está em harmonia com ela. Você nunca reparou que todos os tipos de tormentos acontecem através do ego? Ele não o pode tornar abençoado; ele pode somente torná-lo infeliz.
O ego é o inferno.
   Sempre que você estiver sofrendo, tente simplesmente observar e analisar, e você descobrirá que, em algum lugar, o ego é a causa do sofrimento. E o ego continua encontrando motivos para sofrer.
  Uma vez eu estava hospedado na casa de Mulla Nasrudin. A esposa estava dizendo coisas muito desagradáveis a respeito de Mulla Nasrudin, com muita raiva, aspereza, agressividade, muito violenta, a ponto de explodir. E Mulla Nasrudin estava apenas sentado em silêncio, ouvindo. Então, de repente, ela se voltou para ele e disse: ‘Então, mais uma vez você está discutindo comigo!’ Mulla disse: ‘Mas eu não disse uma única palavra!’
   A esposa replicou: ‘Sei disso – mas você está ouvindo muito agressivamente.’ Você é um egoísta, como todos são. Alguns são muito grosseiros, evidentes, e estes não são tão difíceis. Outros são muito sutis, profundos, e estes são os verdadeiros problemas.
   O ego entra em conflito com outros continuamente porque cada ego está extremamente inseguro de si mesmo. Tem que estar – ele é uma coisa falsa. Quando você nada tem nas mãos, mas acredita ter algo, então haverá um problema. Se alguém disser: ‘Não há nada’, imediatamente começa a briga porque você também sente que não há nada. O outro
o torna consciente desse fato. O ego é falso, ele não é nada.
E você também sabe isso.
   Como você pode deixar de saber isso? É impossível! Um ser consciente – como pode ele deixar de saber que o ego é simplesmente falso? E então os outros dizem que não existe nada – e sempre que os outros dizem que não existe nada, eles batem numa ferida, eles dizem uma verdade – e nada fere tanto quanto a verdade. Você tem que se defender, porque se você não se defende, se não se torna defensivo, onde estará você?
Você estará perdido. A identidade estará rompida.
Assim, você tem que se defender e lutar – este é o conflito. Um homem que alcança o eu nunca se encontra em conflito algum. Outros podem vir e entrar em choque com ele, mas ele nunca está em conflito com ninguém.
Aconteceu de um mestre Zen estar passando por uma rua. Um homem veio correndo e o golpeou duramente. O mestre caiu. Logo se levantou e voltou a caminhar na mesma direção na qual estava indo antes, sem nem ao menos olhar para trás. Um discípulo estava com o mestre. Ele ficou simplesmente chocado. Ele disse:
‘Quem é esse homem? O que significa isso? Se a gente vive desta maneira, qualquer um pode vir e nos matar. E você nem ao menos olhou para aquela pessoa, quem é ela, e por que ela fez isso?’
O mestre disse: ‘Isso é problema dela, não meu.’
Você pode entrar em choque com um iluminado, mas esse é seu problema, não dele. E se você fica ferido nesse choque, isso também é problema seu. Ele não o pode ferir. É como bater contra uma parede – você ficará machucado, mas a parede não o machucou.
O ego sempre está procurando por algum problema. Por quê?
Porque se ninguém lhe dá atenção o ego sente fome. Ele vive de atenção.
Assim, mesmo se alguém estiver brigando e com raiva de você, mesmo isso é bom, pois pelo menos você está recebendo atenção. Se alguém o ama, isso está bem. Se alguém não o está amando, então até mesmo a raiva servirá. Pelo menos a atenção chega até você. Mas se ninguém estiver lhe dando qualquer atenção, se ninguém pensa que você é alguém importante, digno de nota, então como você vai alimentar o seu ego?


OSHO, Bagwam Rajneesh | para ler o texto por completo clique aqui

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Questionador: Ouço as suas palestras há muitos anos, e me tornei bastante eficiente em observar os meus próprios pensamentos e ter consciência de tudo o que faço. Mas jamais vivenciei ou toquei as águas profundas da transformação a que se refere. Por quê?

Krishnamurti:Acredito que é muito claro o motivo pelo qual nenhum de nós vivencia algo que se encontra além do simples observar. Pode ocorrer raros momentos de um estado emocional no qual enxergamos, por assim dizer, a claridade do céu entre as nuvens, mas não me refiro a nada desse gênero. Todas essas atividades são temporárias e não têm maior significado. O questionador quer saber por que, após tantos anos de vigilância, não encontrou ainda as águas profundas. E por que haveria de encontrá-las? Compreendem? Vocês creditam que, por vigiar seus próprios pensamentos, terão uma recompensa — se fizerem isso, ganharão aquilo. Na verdade, você não vigia nada em absoluto, porque sua mente continua preocupada em obter uma recompensa. Você acredita que, por vigiar, por ter consciência, se tornará mais amoroso, sofrerá menos, será menos irritadiço, atingirá algum ponto superior; assim, sua vigilância é um processo de compra. Com esta moeda você compra aquilo, ou seja, sua vigilância é um processo de escolha; logo, não se trata de vigilância, mas se trata de atenção. Vigiar é observar sem escolher, é enxergar você tal como você é, sem que o desejo de mudar faça qualquer movimento, e fazer isso é de extrema dificuldade; mas não significa que você continuará no seu estado atual. Você não sabe o que acontecerá se puder se enxergar tal como é e não quiser promover uma mudança naquilo que vê. Vamos dar um exemplo e trabalhar nele, e entenderão. Digamos que eu seja violento, como muitas pessoas são. Toda a nossa cultura é violenta, mas não vou deter-me agora na anatomia da violência, porque não é esse o problema de que nos ocupamos. Eu sou violento e verifico que sou violento. O que acontece? Minha resposta imediata é a de que preciso fazer algo a respeito, não é verdade? Digo que preciso tornar-me não violento. Isso é o que qualquer professor de religião nos vem ensinando há séculos — que, se alguém é violento, precisa tornar-se não violento. Então eu pratico, sigo todos os preceitos ideológicos. Mas agora percebo o absurdo disso, pois a entidade que observa a violência e quer transformá-la em não violenta ainda é violenta. Portanto, devo me preocupar, não com a expressão da entidade, mas com a própria entidade. Bem, mas o que vem a ser a entidade que diz: "Preciso deixar de ser violento"? Será essa entidade diferente da violência que observou? Serão dois estados diferentes? Sem dúvida, a violência e a entidade que diz "Preciso mudar a violência em não-violência" são ambas a mesma. Reconhecer esse fato é acabar com qualquer conflito, não é mesmo? Deixa de existir o conflito de tentar mudar, porque percebo que o movimento da mente na direção da não-violência é, ele próprio, resultado da violência. E o questionador quer saber por que não pode ir além das disputas superficiais da mente. A explicação é simples: é porque, de forma consciente ou inconsciente, a mente vive sempre a buscar algo, e a própria busca produz violência, competição, a sensação de uma enorme insatisfação. Apenas quando a mente atinge o silêncio absoluto existe a possibilidade de tocas as águas profundas.

Krishnamurti Ojai, 21 de Agosto de 1955

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