Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Pergunta: De tudo que haveis dito, vejo que nada tendes de oferecer a um faminto que busca alimento; quero dizer alimento, não espiritual; vós tendes, talvez pelo hábito da compaixão, a simpatia para com os pobres, porém não haveis modificado o coração do homem que se acha imerso nas riquezas. Há algumas pessoas ricas ao redor de vós, seguramente, obrigados pelos sistemas, elas reduzem milhares de outras pessoas à pobreza e a ruína da saúde, e bem assim a degradação do coração e da mente, para por esse modo acumularem essas riquezas. Pessoas como estas podem sentir “simpatia pelos pobres”, e dar suas migalhas aos famintos, porém por esse processo somente aumentam sua vaidade e fazem exibição de sua importância pessoal a custa do respeito por si mesmos inerente ao homem.
 
Falais de exploração com aborrecimento e, no entanto, tolerais a exploração. Como podeis falar de uma Realidade última pela qual, dizeis, pautais vossa conduta e, apesar disso, sorris aos que esmagam e aos que são esmagados, com igual compostura, e viveis em Paz?
 
Krishnamurti: Um sistema foi estabelecido durante muitos séculos, em virtude do qual o indivíduo tem descambado, em que o seu egoísmo tem sido o senhor único, acobertado por uma grande quantidade de ideais, tais como o desejo de auxiliar, o de servir; de fato, porém, ele só tem expressado o interesse que nutre por si mesmo. Muitos anos serão necessários para modificar este sistema; se, porém, as pessoas não tiverem limpado os seus próprios corações do egoísmo, criarão outro sistema, o qual será, ainda baseado no egoísmo. Pela ideia de que não deve haver egoísmo no trabalho cooperativo, é com este desejo que devemos alterar as condições sociais. Sei que isto levará tempo, não podemos alterar num único dia, seja o que for que tenha levado séculos a firmar-se. Em vossa busca pela Verdade, sede um perigo para tudo quanto esteja baseado no egoísmo, na exploração, quer seja ela espiritual ou econômica.
 
Não posso alimentar a todas as pessoas famintas do mundo; posso, porém, mostrar-vos a maneira pela qual podeis compreender este problema, de modo a, como indivíduo, poderdes sair a trabalhar coletivamente para destruir esse sistema baseado no egoísmo, e não mais serdes indivíduos que desejam expressar seu egoísmo pelo trabalho coletivo. Por favor, compreendei esta distinção. No trabalho coletivo, como é natural, tem que haver autoridade; não pode havê-la entretanto, na realização da Verdade.
 
Para isto fazerdes, tendes que possuir mente clara e não estar sobrecarregados por ideais baseados num egoísmo sutil. Já expliquei cuidadosamente como encaro tais ideais. Os ideais, desde que se constituam em motivos para vos conduzir a uma vida perfeita, são baseados sobre o egoísmo, sobre a presunção de vossa própria importância.
 
Para mim, o que é de importância é a busca pela Verdade e a concentração dessa energia que produz a paz, que não se altera, que não se corrompe, que não está ao mando, seja do rico, seja do pobre. Se me disserdes que alguns de vossos amigos ricos não compreendem isto de que vos falo, deve ser porque tal não se preocupam. Vós, porém, desejais que eu julgue, que eu indague quem busca e quem não busca a Verdade. Falo contra o egoísmo, seja ele do rico, seja do pobre. Não tomeis em consideração a riqueza ou a pobreza; tomai em consideração a vós mesmos, que sois ricos e pobres e que pelo fato de desejardes qualquer coisa que não tendes, vos apegais a algo que possuis e tendes medo de perder. Por favor, tomais em conta a vós próprios e não ao vosso próximo: isto é, averiguai se sois egoístas, se estais explorando os outros, se ansiais por títulos, por distinções, pelos graus, pelas vaidades e pelos bens. Libertai a vós mesmos de todas essas coisas; não tenteis enganar-vos dizendo: “Estou executando o trabalho do mundo, estou trabalhando para ter mais dinheiro afim de o dar aos outros. Olhai para vós mesmos e, no processo de destruir o vosso próprio egoísmo, vosso próprio apego, vossa própria importância pessoal, vossas vaidades, chegareis a banir as coisas que acrescentam e ampliam a vaidade dos homens.
 
Sei ser isto um grande problema, porém somente o podereis resolver de maneira muito simples. Essa maneira simples está em vós mesmos. Podeis a vós próprios modificar, agora, e assim ajudareis a derrubar esta civilização baseada na exploração. Não se trata de simpatia, de compaixão ou de sentimentalidade, é uma questão de senso comum vulgar. Pelo fato de pensardes que os bens, as vaidades, os títulos, os uniformes, o mando, a pompa, o poder, são as maiores conquistas do mundo, é que criais estes males ao redor de vós. Ainda que a vós próprios tenhais por filantropos e façais a tentativa de organizar o bem estar do mundo, vossas boas obras estarão rodeadas pelo ego e seus interesses. Eu pretendo mostrar-vos que, no trabalho que é coletivo, o egoísmo do indivíduo somente pode produzir o caos, a confusão e o interesse entorpecente. Se não compreenderdes, haveis de produzir a destruição no trabalho coletivo, pela importância pessoal e o interesse centralizado em vós mesmos.
 
Tende, portanto, em vista, a vós próprios, limpai vossas mentes e vossos corações deste desejo corrupto de posses, de poder e bem assim de todos os temores. Por favor, compreendei isto, que pela mudança de sistema não vos é dado esperar alimentar o mundo inteiro, a não ser que o egoísmo seja em absoluto desarraigado do trabalho coletivo para o todo. Para este não podereis trazer vossas estranhas ideias de egoísmo, todas belamente cobertas de filantropia, retidão e serviço aos homens. Na busca da Verdade, que constitui o verdadeiro serviço do homem, não pode haver auto-decepções e hipocrisias. Na busca da Verdade, a preocupação imediata do homem, não é a do egoísmo do seu vizinho, porém, a de como se libertar de sua própria autoconsciência, de seu próprio egoísmo.    
 

Krishnamurti, 3 de agosto de 1931  
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:



Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Estamos no facebook