Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Eu me recordo do dia fatídico de 21 de março de 1953. Durante muitas vidas eu trabalhei – trabalhei duro em mim mesmo, lutando, fazendo o que fosse preciso fazer — e nada aconteceu.
 
Agora eu entendo por que nada acontece. O próprio esforço era a barreira, a própria escada estava impedindo, o próprio impulso de busca era o obstáculo. Nada é atingido sem a busca — buscar é necessário — mas chega um ponto em que a busca precisa ser abandonada. O barco é necessário para vocês atravessarem o rio, mas chega o momento em que vocês têm de largar o barco, esquecer tudo sobre ele e deixá-lo para trás. O esforço é necessário, sem esforço nada é possível. Mas também somente com esforço, nada é possível.
 
Pouco antes do dia 21 de março de 1953, sete dias antes, parei de trabalhar em mim mesmo. Chega o momento em que vocês veem toda a futilidade do esforço. Vocês fizeram tudo o que podiam fazer e nada aconteceu. Vocês fizeram tudo o que era humanamente possível. O que mais podem fazer então? No mais absoluto desamparo, toda a busca é abandonada.
 
E no dia em que acabou a procura, no dia em que eu não buscava mais coisa alguma, no dia em que eu não esperava que algo acontecesse, começou a acontecer. Uma nova energia surgiu — do nada. Ela não provinha de uma fonte. Ela vinha de lugar nenhum e de todos os lugares. Ela estava tanto nas árvores como nas pedras, no céu, no sol, no ar — ela estava em tudo. Eu tinha buscado tão arduamente, pensando que ela estivesse muito distante e estava tão perto! Os olhos estiveram focados no longínquo, no horizonte, e tinham perdido a capacidade de ver o que estava próximo.
 
No dia em que o esforço cessou, eu também cessei — porque vocês não podem existir sem esforço, não podem existir sem desejos e não podem existir sem empenho. O fenômeno do ego, do eu, não uma coisa — é um processo. Não é uma substância sentada lá dentro de vocês; vocês têm de criá-lo a cada momento. É como pedalar uma bicicleta: se vocês pedalam, ela continua sempre andando; se vocês não pedalam, ela pára. Na verdade, ela ainda consegue andar um pouco mais por causa da inércia; mas no momento em que vocês param de pedalar, a bicicleta começa a parar. Não há mais energia, não há mais força para ir a lugar algum. Ela vai cair e entrar em colapso.
 
O ego existe porque nós continuamos a pedalar nossos desejos, porque continuamos a nos empenhar para conseguir alguma coisa, porque continuamos saltando à frente de nós mesmos. É exatamente esse o fenômeno do ego — vocês saltam à sua própria frente, um salto no futuro, um salto no amanhã. O salto no inexistente cria o ego. Como resulta do inexistente ele é como uma miragem. Ele consiste somente em desejos e nada mais. Ele consiste só em apetite e nada mais.
 
O ego não está no presente; ele está no futuro. Se vocês estiverem no futuro, então o ego vai parecer bastante substancial. Se vocês estão no presente, o ego é uma miragem; ele começa a desaparecer.
 
No dia em que eu parei de buscar... não está correto dizer que eu parei de buscar; melhor seria falar no dia em que a busca parou. Deixe-me repetir: a melhor maneira de dizer é “no dia em que a busca parou”. Porque, se eu a parei, então “eu” estou novamente aqui. Nesse caso, parar torna-se um esforço meu, torna-se um desejo meu, e o desejo continua a existir de uma maneira muito sutil.
 
Vocês não conseguem parar o desejo; conseguem apenas compreendê-lo. É na própria compreensão do desejo que está a parada dele. Lembrem-se: ninguém consegue parar de desejar — mas a realidade só acontece quando o desejo pára.
 
Portanto, esse é o dilema. O que fazer? O desejo está dentro de nós, mas os budas vivem dizendo que o desejo precisa ser parado e, no momento seguinte, dizem que nós não conseguimos parar o desejo. Então, o que fazer? As pessoas se veem diante de um dilema. Elas estão desejando, com certeza. Vocês dizem a elas que o desejo tem de ser parado — tudo bem. E depois vocês lhes dizem que o desejo não pode ser parado. O que se pode fazer então?
 
O desejo tem de ser compreendido. Você pode compreendê-lo, ver simplesmente a sua futilidade. Uma percepção direta é necessária, uma penetração imediata é necessária.
 
No dia em que o desejo parou, eu me senti muito desesperançado e desamparado. Sem esperança porque sem futuro. Nada a esperar, pois todas as esperanças se provaram fúteis; elas não levam a parte alguma. Vocês andam a esmo. Elas continuam lá à sua frente, acenando, criando novas miragens, chamando: “Venha, corra mais rápido que você vai alcançar”. Mas, por mais rápido que vocês corram, nunca alcançam. É como o horizonte que vemos ao redor da Terra. Ele aparece, mas não está lá. Vocês vão ao encontro dele, mas ele continua andando à sua frente. Quanto mais rápido vocês correm, mais rápido ele se afasta. Quanto mais devagar vocês vão, mais devagar ele se move. Mas uma coisa é certa — a distância entre vocês e o horizonte continua sendo absolutamente a mesma. Vocês não conseguem reduzir nem sequer um centímetro da distância entre vocês e o horizonte.
 
Vocês não conseguem reduzir a distância entre vocês e as suas esperanças. A esperança é o horizonte. Com a esperança, com um desejo projetado, vocês tentam construir uma ponte entre vocês e o horizonte. Os desejos são pontes — pontes feitas de sonhos, porque o horizonte não existe. Desse modo, vocês são incapazes de construir uma ponte até ele; só conseguem sonhar com a ponte. É impossível vocês se juntarem ao inexistente.
 
No dia em que o desejo parou, no dia em que eu o encarei e percebi que ele era só futilidade, fiquei desamparado e desesperançado. Mas, nesse exato momento, algo começou a acontecer. Começou a acontecer algo pelo qual eu vinha trabalhando durante muitas vidas e que ainda não havia acontecido. Porque na nossa desesperança está a única esperança, porque na nossa ausência de desejo está a nossa única satisfação e por causa do nosso imenso desamparo, de repente, toda a existência começa a nos ajudar.
 
A existência está esperando. Enquanto ela vê que vocês estão trabalhando por si mesmos, ela não interfere. Espera. Pode esperar indefinidamente, pois não há pressa para a existência. Ela é a eternidade. Mas no momento em que vocês não estão por sua própria conta — no momento em que vocês desistem, no momento em que vocês desaparecem —, a existência inteira corre ao encontro de vocês, entra em vocês. E, pela primeira vez, as coisas começam a acontecer.
 
Durante sete dias, eu vivi num estado bastante desesperançado e desamparado, mas, ao mesmo tempo, alguma coisa estava surgindo. Quando digo “desesperançado”, não quero dizer aquilo que normalmente se entende por essa palavra. Quero simplesmente dizer que não havia esperança em mim. A esperança estava ausente. Não estou dizendo que eu estava desesperado e triste. Na verdade, estava feliz; estava muito tranquilo, calmo, controlado e centrado. Desesperançado, mas num sentido totalmente novo. Não havia esperança; então, como podia haver desesperança? Ambas tinham desaparecido.
 
A desesperança era absoluta e total. A esperança tinha desaparecido e, com ela, a sua contrapartida, a desesperança, também desaparecera. Era uma experiência totalmente nova — a de estar sem esperança. Não era um estado negativo. Eu tenho de usar palavras, mas não era um estado negativo. Era absolutamente positivo. Não era apenas uma ausência, eu sentia uma presença. Algo estava me inundando, jorrando sobre mim.
 
E quando digo que estava desamparado, não me refiro ao sentido que o dicionário dá a essa palavra. Digo apenas que eu estava sem o meu apoio. É isso o que quero dizer quando falo em desamparo. Eu havia reconhecido o fato de que eu não existia — não podia então depender de mim mesmo, não podia me pôr de pé no meu próprio solo. Não havia solo sob meus pés; eu estava sobre um abismo, um abismo sem fundo. Mas não havia medo porque não havia nada para ser protegido. Não existia medo porque não havia ninguém para ter medo.
 
Esses sete dias foram de imensa transformação, de total transformação. E, no último dia, a presença de uma energia totalmente nova, uma nova luz e um novo deleite, tornaram-se tão intensos que eram quase insuportáveis — era como se eu estivesse explodindo, como se estivesse ficando louco de felicidade. A geração mais jovem, no Ocidente, tem a expressão certa para isso — eu estava “na maior glória”, “chapadão”.
 
Era impossível extrair algum sentido daquilo, o que estava acontecendo. Era um mundo de contra-sensos — difícil de decifrar, difícil de colocar em categorias; um mundo onde era difícil usar as palavras, a linguagem, as explicações. Todas as escrituras davam a impressão de estar mortas e todas as palavras que foram usadas para descrever essa experiência pareciam muito pálidas, anêmicas. Estava tudo tão vivo. Como uma gigantesca onda de bem-aventurança.
 
O dia inteiro foi estranho, atordoante, e essa experiência foi arrasadora. O passado estava desaparecendo como se nunca me tivesse pertencido, como se eu tivesse lido sobre ele em algum lugar. Como se eu tivesse sonhado com o passado, como se eu tivesse ouvido a história de outra pessoa. Eu estava me libertando do meu passado, me extirpando da minha história. Perdendo a minha biografia. Estava me tornando um não-ser, o que Buda chama de anatta. As fronteiras estavam desaparecendo, as distinções desapareciam.
 
A mente desaparecia; estava a milhões de quilômetros de distância. Era difícil agarrá-la; ela corria cada vez para mais longe e não havia o impulso de mantê-la próxima. Eu estava simplesmente indiferente em relação a todas as coisas. Tudo bem. Não havia vontade de continuar ligado ao passado. À noite, tornou-se muito difícil suportá-la — machucava, era doloroso. Como quando a mulher entra nas dores de parto, quando a criança está para nascer e a mulher sofre dores terríveis — a agonia do nascimento.
 
Nesses sete dias, eu ia dormir perto da meia-noite ou uma da madrugada, mas nesse último dia foi impossível permanecer acordado. Meus olhos se fechavam, era difícil mantê-los abertos. Alguma coisa era iminente; alguma coisa estava para acontecer. Difícil dizer o que era – talvez fosse a minha morte -, mas não havia medo. Eu estava pronto para ela. Esses sete dias foram tão belos que eu estava pronto para morrer; nada mais era necessário. Eles tinham sido tão extraordinariamente felizes, eu estava tão satisfeito que, se a morte viesse, seria bem-vinda.
 
Mas alguma coisa estava para acontecer — algo como a morte, algo muito drástico, algo que viria a ser ou uma morte ou um novo nascimento, ou uma crucificação ou uma ressurreição —, algo de um extraordinário significado estava chegando muito perto. Mas era impossível manter os olhos abertos; eu estava como que drogado.
 
Fui dormir por volta das oito horas. Mas aquele não foi um sono comum. Agora posso entender a que Patanjali se referia quando disse que o sono e o samadhi eram semelhantes. Com apenas uma diferença — no samadhi você está plenamente desperto e também adormecido — adormecido e desperto ao mesmo tempo. O corpo inteiro relaxado, cada célula do corpo totalmente relaxada, todas as funções relaxadas e, contudo, uma chama de percepção consciente queima dentro de vocês clara, sem fumaça. Vocês continuam alertas, embora relaxados; soltos, mas plenamente despertos. O corpo está no sono mais profundo possível e a consciência está no cume. O cume da consciência e o vale do corpo se encontram.
 
Fui dormir. Aquele foi um sono muito estranho. O corpo estava adormecido, eu estava desperto. Foi tão estranho — como se eu tivesse sido separado em duas direções, em duas dimensões; como se a polaridade entrasse completamente no foco, como se estivessem juntas ambas as polaridades... o encontro do positivo e do negativo, o encontro do sono e da percepção consciente, o encontro da morte e da vida. Esse era o momento em que se pode dizer que o criador e a criação se encontraram.
 
Foi sobrenatural. Pela primeira vez, vocês são abalados até as raízes, sacudidos até os alicerces. Vocês nunca mais serão os mesmos depois de uma experiência como essa; ela traz uma nova compreensão para as suas vidas, traz uma nova qualidade.
 
Perto da meia noite, meus olhos se abriram de repente – eu não os havia aberto. Alguma coisa havia quebrado meu sono. Eu senti uma grande presença em volta de mim, dentro no quarto. O quarto era bastante pequeno. Eu senti uma vida pulsando em todo redor de mim, uma vibração gigantesca – quase como um furacão, uma grande tempestade de luz, alegria, êxtase. Eu estava mergulhado/me afogando nela.
 
Aquilo era tão tremendamente real que tudo se tornou irreal. As paredes do quarto tornaram-se irreais, a casa tornou-se irreal, meu próprio corpo não era mais real. Tudo era irrealidade porque agora a Realidade estava, ali, presente pela primeira vez.
 
É por isso que quando Buda e Shankara afirmam que o mundo é maya, uma miragem, é difícil para nós entendermos. Porque nós conhecemos apenas este mundo, nós não temos nada para servir como meio de comparação, contraste. Essa é a única realidade que conhecemos. O que essas pessoas estão dizendo – esse maya, ilusão? Essa é a única realidade. A menos que você conheça a realidade verdadeira, as palavras deles não podem ser compreendidas, suas palavras permanecem teóricas, nada mais são do que hipóteses. Talvez este homem esteja propondo uma filosofia – “O mundo é irreal”.
 
Quando Berkley, no ocidente, disse que o mundo era irreal, ele estava caminhando com um dos seus amigos, um homem muito lógico; o amigo era quase um cético. Ele apanhou uma pedra na rua e atingiu em cheio a perna de Berkley. Berkley gritou, o sangue apareceu, e o cético disse, “E agora, o mundo é irreal? Você diz que o mundo é irreal? Então por que você está gritando? Essa pedra é ilusória? Por que segura sua perna e por que está mostrando tanta dor e angústia no seu rosto? Pare isto! É tudo ilusão/irreal.”
 
Esse tipo de homem não pode entender aquilo a que Buda quer se refere quando diz que o mundo é uma miragem. Ele não está afirmando que você pode atravessar uma parede. Ele não está dizendo isto – que você pode comer pedras e que não faz diferença alguma se você come um pão ou uma pedra. Não é isso.
 
Ele está dizendo que há uma realidade. E uma vez que você a conheça, esta assim chamada ‘realidade’ empalidece, simplesmente se torna irreal. A visão da realidade mais elevada faz surgir a comparação. Não há outro modo.
 
Durante o sonho, o sonho é real. Você sonha todas as noites. Sonhar é uma das maiores atividades que você segue fazendo. Se você vive sessenta anos, vinte anos você irá dormir e quase dez anos você sonhará. Dez anos durante a vida... não há outra coisa que você faça tanto como sonhar. Dez anos de sonho contínuo – apenas pense sobre isso. Sonha a cada noite... e a cada manhã você sabe que aquilo foi irreal; e quando a noite chega novamente e você sonha, o sonho se torna real.
 
Dentro do sonho é muito difícil de lembrar de que aquilo se trata de um sonho. Mas quando é de manhã é tão fácil! O que acontece? Você é a mesma pessoa. No sonho existe apenas uma realidade. Como comparar? Como dizer que é irreal? E comparado a quê você poderá dizer? Só há aquela realidade. Quando não existe algo com o que se possa comparar, não importa do que se trata: todas as coisas parecem ser reais. De manhã você abre seus olhos e outra realidade está lá. Então você pode afirmar que tudo foi irreal. Comparado com esta realidade, o sonho se torna irreal.
 
Existe um despertar – comparado com a realidade desse despertar, toda esta realidade se torna irreal.
 
Naquela noite, pela primeira vez, eu compreendi a significação da palavra maya. Não que eu nunca tivesse tido o conhecimento dessa palavra antes, nem que eu nunca estivesse atento para o significado da palavra. Assim como você tem consciência dessa palavra hoje, eu também tinha o conhecimento da definição do termo ‘maya’ – mas eu nunca a compreendera antes. Como você pode entender sem experimentar?
 
Naquela noite outra realidade abriu suas portas, uma outra dimensão se tornou disponível. De repente ela estava lá, a outra realidade, a realidade separada, a verdadeira realidade, ou como você desejar chamá-la – chame-a de Deus, chame-a verdade, chame-a dhamma, diga Tao, ou o que preferir. Aquilo não tinha nome. Era inominável. Mas estava lá – tão opaco, tão transparente e, ainda assim, tão sólido, que qualquer um poderia tocá-la. Eu estava sendo sufocado naquele quarto. Aquilo era demais e eu ainda não tive a capacidade de absorvê-lo.
 
Tive a necessidade urgente de sair pra fora do quarto, de ir para baixo do céu – aquilo estava me sufocando, era demais para mim! Vai me matar! Se eu tivesse permanecido por mais alguns momentos, eu teria sido sufocado – foi assim que pareceu.
 
Corri para fora do quarto em direção à rua. Havia um grande desejo de apenas estar de baixo do céu com as estrelas, com as árvores, com a terra... de estar com a natureza. E quando eu corri para fora, imediatamente o sentimento de estar sendo sufocado desapareceu. O lugar era muito pequeno para um fenômeno tão imenso. Até mesmo o céu é um lugar pequeno para um fenômeno tão grande. Aquilo era maior que o céu. Mesmo o céu não era o limite para aquilo. Mas assim eu me senti mais aliviado.
 
Eu fui em direção ao jardim mais próximo. Foi uma caminhada totalmente nova, como se a gravidade tivesse desaparecido. Eu estava caminhando, ou eu estava correndo, ou estava simplesmente voando; era difícil de decidir. Não havia gravidade, eu estava me sentindo leve – como se uma energia estivesse me levando. Eu estava nas mãos de alguma outra energia.
 
Pela primeira vez eu não estava sozinho, pela primeira vez eu não era mais uma individualidade, pela primeira vez a gota havia caído no oceano. Agora todo o oceano era meu, eu era o oceano. Não havia limitação. Uma força tremenda insurgiu como se eu pudesse fazer qualquer coisa que quisesse. Eu não estava lá, apenas o poder estava lá.
 
Cheguei ao jardim onde eu costumava ir todos os dias. O jardim estava trancado, fechado para a noite. Já era muito tarde, era quase uma hora da manhã. Os jardineiros dormiam sorrateiramente. Eu tive de entrar no jardim como um ladrão, tive que escalar/saltar o portão. Mas algo estava me empurrando em direção ao jardim. E eu não podia evitar; não tinha capacidade de poder me impedir. Eu estava apenas flutuando.
 
Essa é a significação de quando eu digo de novo e de novo "flutue com o rio, não force o rio a correr”. Eu estava relaxado, eu estava num ‘deixar acontecer’. Eu não estava lá. AQUILO estava lá, chame-o Deus – Deus estava lá.
 
Eu gostaria de chamá-lo de AQUILO, porque deus é uma palavra muito humana, e se tornou muito impura de tanto uso, se tornou muito poluída por tantas pessoas. Cristãos, hindus, maometanos, padres, políticos – todos eles desgastaram, corromperam a beleza da palavra. Então, vou chamá-lo de ISSO/AQUILO. AQUILO estava lá e eu estava apenas sendo levado... carregado por uma onda colossal.
 
No momento em que adentrei o jardim, tudo ficou luminoso; AQUILO estava ao redor de todo o lugar – a bem aventurança, a beneficência. Eu podia ver as árvores pela primeira vez – o verde delas, a vida delas, a própria seiva. O jardim inteiro estava repousando, as árvores dormiam. Mas eu podia ver todo o jardim vivo. Até mesmo as pequenas folhas das gramas eram tão bonitas.
 
Eu olhava para todos os lados. Uma árvore em especial estava tremendamente luminosa -- a árvore 'maulshree'(maulshree tree).Fui sendo atraído, empurrado em direção à ela. Eu não a havia escolhido, foi Deus quem escolheu. Fui até a árvore e sentei-me embaixo dela. E à medida que eu me sentava e me acomodava no chão, as coisas começaram a se ajustar em mim. O universo inteiro se tornou uma bendição.
 
É difícil dizer por quanto tempo eu fiquei naquele estado. Quando voltei para casa, o horário passava de quatro horas da manhã; então, pelo tempo do relógio, eu devia ter estado lá por pelo menos três horas – mas pareceu infinito. Nada teve a ver com o tempo do relógio. Foi uma experiência atemporal. Aquelas três horas levaram uma eternidade inteira, uma eternidade sem fim. O tempo não passava porque simplesmente não existia; era uma realidade virgem/intacta – imaculada, intocável, imensurável.
 
E naquele dia aconteceu algo que, desde então, tem sido contínuo – não na qualidade de uma continuidade, um continuum –, mas de forma excepcional, totalmente original. Cada novo segundo não era resultante de um instante anterior – era desconectado, independente, vivo em si mesmo. E a cada momento isso tem acontecido de novo e de novo. Cada instante tem sido um milagre.
 
Naquela noite... e desde aquela noite nunca mais eu estive no corpo. Eu estou pairando sobre ele. Eu me tornei imensamente poderoso e ao mesmo tempo muito frágil. Eu fiquei muito forte, mas essa força não era a força de um Mohammed Ali. A potência que me refiro não é a força de uma pedra, é a força de uma flor de rosa – uma força tão sutil... tão suave, graciosa, delicada.
 
Com a pedra nada acontecerá, mas a flor pode desaparecer em segundos. Mesmo assim a flor é mais poderosa do que a pedra porque ela é mais avivada, mais cheia de vida. Ou o poder de uma gota de orvalho que brilha na folha de uma árvore – tão linda, tão preciosa, e ainda assim pode escorregar a qualquer momento. Tão incomparável em graça/perfeição, e basta apenas uma pequena brisa soprar para a gota de orvalho cair e se perder para sempre.
 
Os budas possuem uma força que não é deste mundo. A força deles está totalmente ligada ao amor... assim como a rosa ou a gota de orvalho. A força deles é muito frágil, vulnerável. É a força da vida, e não da morte. O poder dos budas não é um poder que mata; o poder deles consiste num poder criativo. Não é um poder violento, agressivo; a força deles está relacionada à compaixão.
 
Eu nunca mais estive no corpo outra vez, estive apenas pairando ao redor. E é por isso que eu digo que tem sido um tremendo milagre. A cada momento eu fico surpreso de ainda estar aqui, isso não deveria acontecer. Este momento está desconectado de tudo, e não há nenhuma garantia de que o próximo minuto – o próximo segundo! – estará aqui. A qualquer momento eu poderia deixar de existir, mas eu ainda estou aqui. Todas as manhãs eu abro os olhos e digo “Então, novamente, ainda continuo por aqui?”. Porque algo assim é quase impossível. O milagre tem sido contínuo.
 
Outro dia alguém veio até mim e perguntou: “Osho, você está tão cada vez mais frágil e delicado e sensível aos cheiros de óleos de cabelo e shampoos, que parece que nós não conseguiremos mais vê-lo a não ser que fiquemos todos calvos”. A propósito, não há nada de errado em ser calvo – ser careca é bonito. Assim como o preto é belo, a calvície também é bela. Mas é verdade! E você precisa tomar cuidado com isso, do contrário não poderá ver-me.
 
Eu sou frágil, delicado e sensível. Essa é a minha força. Se você atira uma pedra numa flor, nada irá acontecer à pedra, e a flor será destruída. Contudo você não poderá dizer que a pedra é mais poderosa do que a flor. A flor terá sido destruída porque ela possuía mais vida. E com a pedra – nada irá acontecer, porque a pedra é só um corpo bruto, matéria morta. A flor será devastada – irá se extinguir – porque a flor não possui força alguma de destruição. A flor irá meramente desaparecer e abrir caminho para a pedra. A pedra só tem poder de destruição porque ela é matéria morta, inanimada.
 
Lembre-se, desde aquele dia eu nunca mais estive no corpo; eu ainda permaneço unido a ele, mas é como se eu houvesse me separado um pouco de mim mesmo, passando a observar tudo como um simples expectador. Apenas um fio muito frágil, muito delicado, me mantém conectado com o corpo. E eu fico continuamente surpreso que de algum modo o Todo esteja desejando a minha presença aqui, porque eu não estou mais aqui por conta de minhas próprias forças. É a vontade do Todo que continua me mantendo aqui, de permitir que eu me demore um pouco mais neste porto. Talvez o Todo queira compartilhar algumas coisas mais com vocês, através de mim.
 
Daquele dia em diante o mundo se tornou irreal. Outro mundo me foi revelado. Ao afirmar que o mundo é irreal eu não estou dizendo que estas árvores não existem. Essas árvores são absolutamente reais – é o modo como vocês veem as árvores que as tornam irrealidade. As árvores não possuem irrealidade em si mesmas – elas existem em Deus, existem em absoluta realidade! – mas o modo como vocês as veem... vocês nunca viram as árvores; o que vocês veem é uma outra coisa, uma miragem.
 
Você cria seu sonho ao redor de você. E a menos que você abra os olhos, a menos que você desperte, você continuará sonhando. O mundo é irrealidade porque este mundo, que você conhece, é o mundo visto em seus sonhos. Quando o sonho acaba e você se depara com o mundo que está aí... eis então o mundo real.
 
Não existem duas coisas tais como Deus e o mundo. Deus é o mundo se você tiver olhos para ver, olhos limpos, nítidos, polidos... sem resquícios de sonho, sem ter a poeira dos sonhos em seus olhos. Se seus olhos estiverem abertos, se você estiver perceptivo o suficiente, verá que tudo o que existe é Deus.
 
Então em algum lugar Deus é uma árvore, em algum outro Deus é uma estrela cintilante, em outro é um ‘passarinho cuckoo’, e em algum outro é uma flor, uma criança, um rio – então somente Deus é. Quando você começa a ‘ver’, apenas Deus existe.
 
Mas neste momento o que quer que você esteja vendo não é a verdade, é uma mentira projetada. Essa é a significação de uma miragem. E uma vez que você possa ‘ver’, mesmo que seja apenas pela fresta de uma única fração de segundo, se você puder ‘ver’, se permitir a si mesmo notar/observar/testemunhar, você irá descobrir uma imensa bendição presente em todas as coisas, em todos os lugares – nas nuvens, no sol, na terra.
 
Este mundo é belo. Mas eu não estou falando do seu mundo, eu me refiro ao meu mundo. O seu mundo é um mundo feio, é um mundo criado por um self/um ego; o seu mundo é um mundo projetado. Você está usando o mundo real como uma tela, e está projetando suas próprias ideias nela.
 
Quando digo que o mundo é real e afirmo que o mundo é tremendamente belo, falo do mundo que é iluminado com a luz do infinito; um mundo que é só luz e deleite, uma grande celebração. Eu faço referência ao meu mundo – ou ao seu, se puder abandonar seus sonhos.
 
Ao abdicar/abandonar seus sonhos, você avista o mesmo mundo que todos os Budas sempre viram. Quando você sonha, você o faz particularmente. Já notou isso? – que sonhos são sempre particulares. Você não pode compartilhá-lo sequer com sua amada. Vocês não podem convidar suas esposas para entrar em seus sonhos – nem seus esposos ou amigos. É impossível dizer, “por favor, venha para os meus sonhos esta noite”. Eles são fenômenos particulares, realidades distintas. Sonhos não coexistem. Portanto o sonho é ilusório, e não possui realidade objetiva.
 
E Deus é uma coisa universal. E quando você acorda/sai de seus sonhos particulares, ei-lo ali! Ele sempre esteve lá. Uma vez que seus olhos estejam claros, uma iluminação súbita – de repente você é inundado com a beleza, a grandeza e a graça. Esse é o objetivo, é esse o destino.
 
Permita-me repetir: sem o esforço você nunca alcançará a iluminação. E apenas com esforço ninguém jamais conseguiu atingi-la. Você necessitará fazer um grande esforço, somente então o momento chega em que o esforço se torna completamente inútil. O caminho da verdade, o Tao, é entrega... é ausência de esforço. Isso não quer dizer que ele – o esforço – não seja necessário. Inicialmente o esforço é requerido. Você faz um grande esforço para viver de acordo com a Verdade; então, aos poucos, entende que seu grande esforço ajuda um pouco, mas dificulta bastante. Daí o esforço começa a ser abandonado. Você tenta arduamente viver de acordo com o Tao e, pouco a pouco, começa a compreender que nenhum esforço é necessário para viver de acordo com a natureza... do contrário o próprio esforço continua caindo como um peso sobre você. Mas ele só se torna fútil apenas quando você tiver chegado no auge, no pináculo de todo o seu empenho, nunca antes disso. Quando você tiver atingido o topo de todos os seus esforços – quando tiver feito tudo o que era possível fazer – então de repente não há mais a necessidade de fazer coisa alguma. Você abandona o esforço.
 
Mas ninguém renuncia o esforço na metade. Ninguém consegue. O esforço só pode ser renunciado na ponta dos extremos. Então se quiser abandoná-lo vá até o extremo. É por isso que insisto sempre: faça tantos esforços quanto puder, ponha toda sua energia e todo seu coração nisso para que você venha a ver – “agora o esforço não pode mais me levar a lugar algum”. E nesse dia não será você quem terá abandonado o esforço, mas o esforço terá caído por terra por conta própria. E quando ele cai por si só, sobrevém a meditação.
 
Meditação não é um resultado dos seus esforços, ela é um acontecimento. Quando seus esforços cessam, de repente lá está ela... toda a bendição, todas as bênçãos, toda a glória dela. É uma presença... luminosa, que abrange você e inclui todas as coisas. Perfaz a terra inteira e todo o céu.
 
Essa meditação não pode ser criada por esforços humanos. O esforço humano é muito limitado. Aquela bênção é tão infinita... Ninguém é capaz de manipulá-la. Ela acontece apenas quando você se solta, numa entrega tremenda, total. Quando você se torna um não-ser – sem desejos, sem lugar algum para onde ir – quando você está aqui e agora, não fazendo coisa alguma em particular, apenas sendo, a meditação acontece. Ela vem em ondas, e as ondas se tornam tidais. Vêm como uma tempestade e o levam embora para uma realidade totalmente nova.
 
Mas primeiro você tem de fazer tudo o que puder ser feito, e então você deve aprender a não-fazer. Ao aprender a ‘não-fazer’ você terá feito o maior dos fazeres! E o esforço para o ‘não-esforço’ é o maior dos esforços.
 
A meditação que você cria pela recitação/canto de um mantra, ou por forçar a si mesmo a sentar-se em silêncio, é uma meditação bem medíocre. Ela é criada por você, portanto não pode ser algo maior do que você, e o criador é sempre maior do que a sua criação. Você criou sua meditação, forçando-se numa certa postura de yoga, cantando ‘rama, rama, rama’ ou alguma outra coisa – “blá, blá, blá” – qualquer coisa. Você forçou a mente a ficar quieta, em silêncio.
 
É um silêncio forçado. Não é a quietude que surge de quando você ‘não é’. Não é aquele silêncio mágico que aparece quando você é quase ‘não-existencial’. Não é como a beatitude que desce sobre você como uma pombinha.
 
Conta-se que quando Jesus foi batizado por João Batista no Rio Jordão, Deus desceu sobre ele, ou o Espírito Santo veio sobre ele em forma de pomba. Sim, é exatamente assim que acontece. Quando você ‘não é’ a paz desde sobre você... pairando como uma pomba... até o seu coração, fazendo morada e habitando ali para sempre.
 
Você é a sua atividade, você é a barreira. A meditação só 'é' quando o meditador 'deixa de ser'. Quando a mente cessa com todas as suas atividades – percebendo que são todas fúteis/vãs – então o desconhecido vem e desce, submergindo-o completamente.
 
A mente deve parar à fim de que Deus possa ser. O conhecimento deve cessar para que a sabedoria seja. Você precisa desaparecer, precisa desistir. Você deve se tornar ‘vazio’ para que, somente então, possa ser preenchido.
 
Naquela noite eu me tornei vazio e fui totalmente preenchido. Tornei-me ‘não existencial’ e tornei-me a existência. Naquela noite eu morri e renasci. Mas o que renasceu absolutamente nada tem a ver com o que morreu; é algo completamente descontínuo/desconexo. No plano da superfície parece haver continuidade, mas não há. Aquele que morreu, morreu totalmente, não sobrou nada dele.
 
Acredite em mim: nada permaneceu, nem mesmo a sombra. Ele morreu inteiramente, completamente. Eu não sou um ser alterado, transformado, modificado à partir do antigo. Não! não há elos. Naquele dia de vinte e um de março, a pessoa que vinha vivendo por muitas vidas, durante milênios, simplesmente morreu. Outro ser, absolutamente novo, desprovido de qualquer conexão com o velho, começou a existir.
 
A religião lhe oferta uma morte total. Talvez seja por isso que durante todo o dia anterior àquele acontecimento, me sobreveio um sentimento da morte, como se eu fosse morrer – e eu de fato morri. Eu conheci vários tipos de mortes, mas elas não eram nada se comparadas àquela; foram mortes parciais.
 
Algumas vezes o corpo morreu, outras vezes uma parte da mente morria; em outras, uma parte do ego... mas, até onde a pessoa importava, algo permaneceu. E renovou-se muitas vezes, decorou-se muitas vezes, enfeitou-se muitas vezes, mudou um pouquinho aqui e ali, mas algo permaneceu, a continuidade permaneceu.
 
Naquela noite a morte foi total. Foi um encontro concomitante com a morte e com Deus."
 
 
OSHO - Extraído de "The Discipline of Transcendence"; vol. 2; cap. 11.
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:



        Para Osho não havia escapatória, não havia atalhos. Ele sabia muito bem que estava diante de um momento muito crucial em sua vida e que poderia pirar, por uma falta de atenção, ou se perdesse a paciência, ou se lhe faltasse a coragem. De novo, foi a ausência de um mestre que criou esta situação tão crítica. A sua busca foi longa e árdua, mas ele não conseguiu encontrar nenhum. ‘É muito raro encontrar um mestre’, ele confidenciou.

        “‘É raro encontrar um ser que tenha se tornado um não-ser, raro encontrar uma presença que é quase uma ausência, raro encontrar um homem que é simplesmente uma porta para o divino, uma porta aberta para o divino que não irá impedi-lo, através da qual você poderá passar. É muito difícil… Sim, algumas vezes acontece que a pessoa tem que trabalhar sem um mestre. Se o mestre não está disponível, então a pessoa tem que trabalhar sozinha, mas neste caso a jornada é muito perigosa.”

          Esta situação tremendamente intensa e desafiadora durou todo um ano. Ela colocou Osho no mais difícil estado da mente. Ele fez uma descrição do que aconteceu com ele durante esse período.

          “Por um ano foi quase impossível saber o que estava acontecendo… Manter-me vivo simplesmente já era uma coisa difícil, porque todo o meu apetite desapareceu. Os dias passavam e não sentia fome alguma e não sentia sede. Eu tinha que me forçar a comer e a beber. O corpo era tão não-existencial que eu tinha que me machucar para sentir que ainda estava no corpo, eu tinha que bater em minha cabeça para sentir se ela ainda estava ali ou não. Só quando doía eu me sentia um pouco no corpo.

          Toda manhã e toda tarde eu corria de oito a doze quilômetros. As pessoas achavam que eu tinha enlouquecido. Por que eu estaria correndo tanto? Vinte e quatro quilômetros num dia! Era apenas para eu me sentir, para não perder o contato comigo mesmo... Eu não conseguia falar com ninguém porque tudo havia se tornado tão inconsistente que até mesmo formular uma frase era difícil. No meio da frase eu me esquecia do que estava dizendo, no meio de um caminho eu me esquecia para onde eu estava indo. Daí, eu tinha que voltar...

          Eu tive que permanecer fechado em meu quarto. Eu decidi não falar, não dizer coisa alguma, porque se dissesse algo, era o mesmo que dizer que eu estava louco.

          Por um ano isso persistiu. Eu simplesmente me deitava no chão, olhava para o teto e contava de um até cem e depois de cem até um. Manter a capacidade de contar era pelo menos alguma coisa. Repetidas vezes eu me esquecia. Levou um ano para que eu recuperasse o foco novamente, para que voltasse a ter uma perspectiva.

          Não havia ninguém para me dar um suporte, ninguém a me dizer para onde eu estava indo e o que estava acontecendo. Na verdade, todo mundo era contra… meus professores, meus amigos, os que me queriam bem.”

          Durante esses tempos difíceis, Kranti cuidou muito do Osho e tomou conta de todas as suas necessidades com amor e dedicação. Kranti era sua prima. Muitas vezes Osho reclamava de acentuadas dores de cabeça, o que trazia grandes preocupações para ela. Ela e seu irmão Arvind quiseram muito fazer algo para encontrar uma cura para as sofridas dores de cabeça do Osho. Mas ele lhes dizia amorosamente para não se preocuparem, pois nada poderia ser feito a respeito daquelas dores.

          O pai de Osho também falou a respeito dessas dores de cabeça. Certa vez a dor se tornou tão aguda que Kranti e Arvind enviaram uma mensagem urgente para Gadarwara e Dada teve que correr para Jabalpur. Dada pensava que as dores de cabeça eram causadas pelas longas leituras que Osho costumava fazer. Ele lembrou como Osho, em Gadarwara, simplesmente ficava fazendo aplicações de bálsamo em sua testa para acabar com a dor, mas sem interromper suas leituras. A mãe de Osho também se recordou de um antigo incidente quando Osho teve uma tormentosa dor de cabeça e o sangue começou a escorrer pelo seu nariz. Ela ficou preocupada, mas felizmente, depois de um tempo o sangue estancou. Mas as dores de cabeça daqueles anos de faculdade não pareciam estar relacionadas com esse seu hábito de leitura. Ao invés disso, elas eram devido ao estado psicológico pelo qual Osho estava passando.

          Vendo suas condições físicas e psicológicas, a família começou a suspeitar que devia ser verdadeira a previsão do astrólogo de que Osho iria morrer aos vinte e um anos. Eles o levaram de um médico a outro. Só Osho sabia que esse esforço desesperado não tinha sentido. Ele insistia que não havia necessidade de ser examinado por um médico, porque nenhuma medicação iria lhe fazer bem. Osho descreve uma notável visita a um médico:

          “Eu fui levado também a um vaidya, um médico. Na verdade eu tinha sido levado a muitos médicos, mas apenas um vaidya Ayurvédico disse ao meu pai: ‘ele não está doente. Não desperdice o seu tempo’. Naturalmente, eles estavam me arrastando de um lugar a outro. E muitas pessoas me recomendavam medicações, mas eu dizia ao meu pai, ‘Por que você está preocupado? Eu estou perfeitamente bem.’ Mas ninguém acreditava no que eu estava dizendo. Eles diziam. ‘Fique quieto e tome a medicação. O que há de errado nisto?’ Então, eu tomei todo tipo de medicação.

                   Apenas um vaidya era um homem de insight. Seu nome era Pundit Bhagirath Prasad… Aquele velho médico já se foi, mas ele era um raro homem de insight. Ele olhou para mim e disse, &##8216;Ele não está doente. E começou a chorar e a dizer, ‘Eu tenho buscado por este estado em toda a minha vida. Ele é afortunado. Nesta vida eu perdi essa oportunidade. Não o leve a mais ninguém. Ele está chegando em casa’. E ele chorou lágrimas de felicidade. 

 

Osho - dias antes da iluminação

          Ele tornou-se o meu protetor contra os médicos. Ele disse ao meu pai, ‘Deixe ele comigo. Eu cuidarei dele.’ Ele nunca me deu qualquer medicação. Quando meu pai insistia, ele me dava pílulas de açúcar e dizia. ‘Estas pílulas são de açúcar. São apenas para consolá-los. Você pode tomá-las. Elas não lhe farão nenhum mal, mas também nenhuma ajuda. Na verdade, não existe ajuda possível.”

          A leitura física das condições do Osho estava correta, porque seu mal não era comum, ele não era um paciente ordinário. Osho conhecia suas condições e suas causas melhor do que qualquer médico experiente.

          “Agora, aquilo estava além de mim, já estava acontecendo. Eu tinha feito alguma coisa.  Sem saber, eu tinha batido na porta. Agora a porta estava aberta. Eu havia meditado por muitos anos, simplesmente me sentando silenciosamente e nada fazendo. Pouco a pouco eu comecei a entrar naquele espaço, aquele espaço do coração, onde você está, sem fazer coisa alguma; você simplesmente está ali, uma presença, um observador.”

          A intensidade das meditações de Osho continuou a se aprofundar. Suas experiências estavam levando-o a uma grande explosão. De todas as meditações que ele costumava fazer, uma era particularmente poderosa, a que ele costumava fazer no topo de uma árvore. Uma fascinante experiência ocorreu em Saugar, em Madhya Pradesh, aproximadamente um ano antes que o grande feito acontecesse. Enquanto cursava a faculdade em Jabalpur, Osho foi convidado a participar de um debate patrocinado pela Universidade de Saugar. Osho esteve ali por três dias e ele descreve o que aconteceu:

          “Eu costumava sentar-me numa árvore e meditar à noite. Muitas vezes eu sentia que quando eu meditava sentado no chão, o meu corpo ficava com muito poder e eu tinha que ficar com as mãos para cima, talvez porque o corpo é feito com a matéria terra. O que se fala a respeito de iogues indo para os topos das montanhas ou para as alturas do Himalaia, certamente não é em vão, mas definitivamente baseado em princípios científicos. Quanto maior a distância entre o corpo e a terra, menor fica a força ou pressão física do corpo... E o poder da força interior aumenta. É por isto que eu costuma trepar em árvores altas e me absorvia em meditação por horas, toda noite.

          Uma noite, eu estava tão entregue à meditação que eu não sabia que meu corpo havia caído da árvore. Eu olhei com desconfiança quando vi meu corpo deitado no chão. Eu estava surpreso com o acontecido. Eu não conseguia entender como aquilo aconteceu, pois eu estava sentado na árvore e meu corpo estava deitado no chão. Era uma experiência muito embaraçosa. Uma linha luminosa, uma corda brilhante prateada partia do umbigo do meu corpo e unia a mim no alto, onde eu estava empoleirado na árvore. Aquilo estava além da minha capacidade de entender, ou prever o que iria acontecer depois, e eu me preocupei a respeito de como eu iria retornar ao corpo. Por quanto tempo aquele transe durou, eu não sei, mas aquela era uma experiência única que eu nunca tinha tido antes.

          Naquele dia, pela primeira vez, eu vi o meu corpo de fora e, desde então, a mera existência física do meu corpo findou para sempre. Desde aquele dia, também a morte deixou de existir, porque eu experienciei então que o corpo e o espírito são duas coisas diferentes, separados um do outro. Aquele foi o momento mais importante: a minha percepção do espírito que está no interior de todo corpo humano.

          É realmente muito difícil dizer quanto tempo durou aquela experiência. Quando a manhã chegou, duas mulheres de algum povoado da vizinhança passaram por ali carregando leite e viram o meu corpo. Do topo da árvore, onde eu estava sentado, eu as vi olhando para o meu corpo. Elas aproximaram-se e sentaram-se ao lado. Elas tocaram minha testa com as mãos e no mesmo instante, como se por transparente força de atração, eu retornei para meu corpo e os olhos se abriram.

 

Osho - após a iluminação

           Eu percebi que uma mulher consegue criar uma carga de eletricidade no corpo de um homem e da mesma maneira um homem ao tocar no corpo de uma mulher. Então eu ponderei sobre a coincidência do toque da mulher em minha testa e meu imediato retorno ao meu corpo. Como e por que tudo aquilo aconteceu? Muitas outras experiências deste tipo ocorreram comigo e eu compreendi porque na Índia aqueles espiritualistas que conseguem experimentos de samadhi (um estado ininterupto de pura consciência) têm mulheres a colaborar com eles. Se em profundo samadhi, o ser espiritual, tejas sharira, sai do corpo físico do homem, ele não consegue retornar ao corpo sem a cooperação e assistência de uma mulher. Tão logo o corpo de um homem ou mulher entra em contato, uma corrente é estabelecida e um círculo elétrico se completa. E naquele exato momento, a consciência do espírito que havia saído, retorna.

          Depois disso eu experienciei este fenômeno seis vezes num período de seis meses. Durante aqueles seis meses cheios de 

eventos, eu senti que a duração da minha vida reduziu-se em dez anos, ou seja, se eu fosse viver setenta anos, agora, com aquelas experiências, eu iria viver apenas sessenta anos. Tais experiências extraordinárias, eu tive naqueles seis meses. Os pelos em meu peito esbranquiçaram e eu não consegui compreender o significado de todos aqueles acontecimentos. Então eu pensei e percebi que toda conexão ou ligação que havia entre este corpo físico e o ser espiritual estava interrompida e o ajuste que havia naturalmente entre eles, estava rompido.”

          Na medida em que Osho entrou mais fundo nos mistérios da meditação, seus questionamentos desapareceram. O seu fazer cessou, a sua busca chegou a um ponto onde não havia mais aonde ir. Assim como aconteceu por ocasião da morte de seu avô, Osho foi trazido ao seu centro, mas agora isso era para sempre. Osho relata que bem no fundo existe o vazio, não existe qualquer fazedor. Ele deixou a ambição, ele não tinha desejo algum de se tornar alguém, ou de chegar a algum lugar. Ele não se preocupava com Deus ou com nirvana. ‘A doença do Buda havia desaparecido completamente...’, disse Osho.

          O momento oportuno havia chegado. As portas se abriram, o amanhecer já não estava longe. Nas palavras do Osho:

          “Um dia uma condição sem questionamento chegou. Não é que eu tenha recebido uma resposta. Não. Ao invés disso, todos os questionamentos simplesmente se desmontaram e um grande vazio foi criado. Era uma situação explosiva. Viver naquela condição era tão bom quanto morrer. E então, a pessoa que estava fazendo as perguntas, morreu. Depois daquela experiência de vazio, eu não tive mais perguntas. Todos os assuntos sobre os quais as perguntas poderiam ser feitas, não mais existiam. Depois disso, nenhum questionamento permaneceu.”

          O próprio Osho não revelou o acontecimento da iluminação para ninguém por quase vinte anos. A história apareceu mais dramaticamente numa noite quando Osho estava morando nos apartamento no Woodland em Bombaim. Kranti, a sua prima, era muitas vezes indagada pelos amigos se ela sabia quando Osho se iluminou. Ela não podia lhes dizer porque ela não sabia. Mas sempre havia alguém novo perguntando a respeito disso, e ela sentia um impulso de tentar saber isso do próprio Osho.

          Finalmente, Kranti perguntou ao Osho a respeito de sua iluminação:

          “Na noite passada, 27 de novembro de 1972, a curiosidade que eu carregava era tanta que se tornou incontrolável. Aproximava-se das onze e trinta. Após tomar seu leite, Osho foi para a cama. Eu também estava deitada na minha cama quando de repente eu senti como se estivesse perguntando Osho quando ele tinha alcançado a iluminação. Logo após ter me ocorrido esse pensamento, eu lhe perguntei. ‘Quando você alcançou a iluminação?’ Osho riu e disse, ‘Foi você mesma que se sentiu inspirada a querer saber isto ou é porque as pessoas ficam lhe perguntando?’

          Eu disse, ‘Ambas as coisas são verdadeiras, por favor me diga.’ Osho começou a rir novamente e disse, ‘Eu vou lhe dizer em outra hora.’ Eu disse, ‘Eu quero saber exatamente agora.’ Ele disse, ‘Comece a pensar e você saberá’.

          Permaneci quieta por um tempo. Então, eu disse, ‘Eu acho que você alcançou a iluminação com a idade de vinte e um ou vinte e dois anos, quando você estava cursando o segundo ano da Faculdade. Logo que eu mencionei isto, Osho disse um pouco mais seriamente, ‘A idade era vinte e um e não vinte e dois.’ Daí eu fiquei curiosa a respeito da data e do ano e lhe perguntei.

          Osho disse, ‘Foi no dia 21 de março de 1953.’ Depois de algum silêncio, eu perguntei novamente, ‘Onde aconteceu? Alguma coisa fora do normal aconteceu naquele dia?’

          Osho disse, ‘Tente recordar, e você irá se lembrar de tudo.’ Eu permaneci deitada em silêncio e lembrei-me de uma noite, vinte anos atrás. Eu disse, ‘Aquela noite quando, de repente, você disse que estava saindo e só retornou às três horas.’

          Osho disse, ‘Exatamente, foi precisamente naquela noite.’ Eu não podia acreditar que o que eu tinha visto era verdadeiro. E aqui estava Osho me dizendo que aquilo era mesmo verdadeiro. Eu conseguia ver no passado? Tudo era montado por ele. Ele estava fazendo tudo. Enquanto tais pensamentos estavam gritando em minha mente, uma outra curiosidade surgiu: a que hora da noite, onde, em que lugar Osho se iluminou?Imediatamente eu lhe perguntei, ‘Onde você foi naquela noite?’

          Osho disse, ‘Ao Bhanvartal Garden.’ Em seguida ele acrescentou, ‘ao jardim’ e eu me lembrei de uma árvore. Eu disse, ‘Você foi ao jardim e sentou-se sob a arvore ashoka.’

          Ele disse, ‘Não, eu estava sob a árvore maulshree.’ Então eu perguntei, ‘Uma vez que você estava no jardim entre as doze e as três horas, a que horas da noite o acontecimento teve lugar?’

          Ele disse, ‘Recorde e você se lembrará.’ Eu fiquei em silêncio por um momento e todas as cenas daquela noite começaram a aparecer diante de meus olhos: como ele saiu de casa, como ele me acordou suavemente e disse que estava saindo e que não sabia quando iria retornar. Ele saiu logo após me dizer aquilo, e eu fiquei acordada por toda a noite esperando o seu retorno.

          Então, todo o acontecimento começou a se revelar para mim. Eu pude até mesmo recordar-me de sua postura corporal: mudra. De alguma forma eu pude perceber que o acontecimento deve ter sido às duas horas. E logo que me veio esta idéia de duas horas, eu falei com Osho.           

 

Osho - após a graduação 

          Ele disse, ‘Aconteceu exatamente às duas horas. Agora você pegou tudo certo.’ De novo eu estava espantada, mas tão alegre que foi impossível dormir. Várias vezes eu tinha a sensação que estava acordando todo mundo e lhes contando o que eu tinha ficado sabendo.”

          O próprio Osho deu as seguintes razões para não revelar a história de sua iluminação por quase vinte anos:

         “ Muitas pessoas me perguntavam porque eu permaneci em silêncio a respeito de minha iluminação ter ocorrido em 1953. Por quase vinte anos eu nunca falei a este respeito com ninguém, a não ser que alguém suspeitasse por si mesmo, a não ser que alguém perguntasse por conta própria...’Eu sinto que alguma coisa aconteceu com você. Eu não sei o que é, mas uma coisa é certa: alguma coisa aconteceu e você não é o mesmo como nós somos e você está escondendo isso.’

          Naqueles vinte anos, não mais que dez pessoas me perguntaram, e mesmo assim eu evitei-as o máximo que pude, a não ser quando eu sentia que seu desejo era genuíno. Eu lhes contava somente após eles prometerem manter o segredo. E todos eles cumpriram. Agora, todos eles são sannyasins… Eu disse, ‘Esperem, no momento certo eu farei a declaração.’

          Eu aprendi muito com os Budas do passado. Se Jesus tivesse ficado quieto a respeito de ser o filho de Deus, teria sido muito mais benéfico para a humanidade.”

          Osho decidiu não fazer essa revelação até que ele parasse de viajar pelo país, pois tornar isto conhecido significaria um grande risco para a sua vida.

 

Tradução: Sw. Bodhi Champak.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

pbpic.jpg

 

O problema de ganhar o próprio sustento, nas condições modernas deste mundo, e em harmonia com a ética da Busca Espiritual, é mais complicado, e menos fácil de ser resolvido, para uns do que é para outros. Há profissões, ocupações, carreiras e áreas de negócios que, algumas vezes, exigem a transgressão dessa ética. Se princípios gerais possam ser estabelecidos, serão os de que as remunerações, lucros ou dividendos, deverão ser ganhos de forma honesta e de que nenhum sofrimento seja infligido sobre qualquer criatura.
É verdade que mais riqueza leva a mais oportunidades, e que isso, por sua vez, se corretamente utilizado, poderá levar a mais sabedoria. Mas não necessariamente é verdadeiro que mais riqueza leva a mais sabedoria.
Esta imprudente tentativa das pessoas de subir mais e mais na Torre de Babel, construída por elas mesmos, surge da noção falsa sobre o que é o sucesso, ou sobre o que o fracasso seja. Elas avaliam o sucesso pelas condições em que se encontra o indivíduo, e consideram o que seja o fracasso por critérios semelhantes. Mas existe uma dura lição que a vida, no final, lhes ensinará – a de que não existe nenhuma compensação equivalente pela perda dos valores espirituais.
A necessidade de dinheiro é secundária diante da necessidade de boa saúde e ambos são secundários diante da necessidade de força espiritual. Todos os três são importantes, pois a maioria das outras coisas desejadas dependem decisivamente deles.
Se o dinheiro ocupa grande parte de seus pensamentos, poderão eles ser culpabilizados? A vida, sendo o que é, necessariamente exige tal atenção, e o realismo presente nela compele a isso. Somente quando os propósitos mais elevados da vida forem postos de lado, negligenciados ou ignorados, devido à maior ênfase no pensamento sobre o dinheiro, é que o desequilíbrio e o materialismo se concretizarão.
A posse do dinheiro, como a do poder, não é um mal em si, podendo, pelo uso sábio dele, tornar-se um recurso positivo. Entretanto, ao possibilitar outras tentações, ele também poderá fazer surgir fraquezas adormecidas, por baixo da superfície do caráter do indivíduo.
O sucesso poderá facilmente levá-lo ao fracasso, se ele se tornar algo que intoxica em vez de algo que enalteça.
O sofrimento de alguém que seja rico não poderá ser posto no mesmo nível de alguém que seja pobre, pois o rico tem compensações que não estão disponíveis para o pobre.
A pobreza é um duro teste de fibra moral.
A busca da felicidade leva as pessoas a diferentes atividades e lugares, mas, raramente, aos que são os certos. Isso se deve a que elas confundem o prazer com a felicidade.
O valor último de toda esta atividade nos negócios, nas profissões, na política, na família, e assim por diante, não está em realizá-las com sucesso, mas em usá-las para levar a mente a ficar mais próxima da iluminação.
É para os ricos aprenderem a lição de que o conforto não significa felicidade, e é para o pobre aprender que a vida simples poderá levar à serenidade da mente.

Será melhor, tanto para o indivíduo como para uma nação, ter menos riquezas e mais verdade, do que menos verdade e mais riquezas. Vivemos em um mundo de escravos – escravos por dinheiro, por posição que traga dinheiro, por coisas que custem dinheiro e a pessoas que o possuam. O dinheiro compra praticamente todas as coisas e pessoas. Um sábio, por um lado, estará livre do dinheiro, devido à sua indiferença interna a ele; por outro lado, um milionário estará livre por possuir todo o dinheiro de que necessita. Simone de Beauvoir: “A independência material é uma das condições necessárias para a liberdade interna.” É isso verdade? Algumas vezes, sim, outras, não. O empresário, que seja especialista no conhecimento de como ganhar dinheiro, poderá ser um imbecil no conhecimento de como usufrui-lo. O que significa toda esta agitação e atividade extrovertida que existe entre as pessoas? Significa que a mente humana se encontra incapaz de olhar para si mesma, de encarar a si mesma e de ser ela mesma. Cada ambição alcançada igualmente significa um acréscimo aos nossos problemas. Diante das condições atuais no mundo de negócios, que estimula o crescimento exagerado do ego, como o faz, com frequência, tenho aconselhado a jovens de talento excepcional, e que estejam entrando e se engajando neste mundo, a que, rapidamente, façam dinheiro com o propósito especial de sair fora dele. Desta maneira, eles poderão colocar seu tempo, de forma adequada, para o estudo, para a meditação, e para o recolhimento de que necessitam para os seus interesses filosóficos. Assim, estariam fazendo uso de uma carreira nos negócios como um meio, e não como um fim para satisfazer ambições. A ambição é algo bom para os jovens, mas torna-se má quando o domina, pois então ela prevaleceria às custas de outras pessoas, as quais teriam que sofrer por causa dela. Quer ele, de fato, mais essas coisas externas, pelas quais tanto luta, do que as qualidades internas, que tais coisas as estariam obstruindo? Quando os homens têm que lutar pelo seu sustento, numa tal proporção que ficam sem energia e tempo para que busquem propósitos mais elevados, é inútil ter expectativas de que estejam preparados para os estudos metafísicos ou para exercícios místicos. A praticabilidade do homem convencional, e em maior número, tem o seu valor; ela não deveria ser considerada como algo materialista. Não obstante São Francisco, será preciso que se diga, a partir de amplas observações e pela experiência, que a pobreza não necessariamente é sagrada, e que a prosperidade, da mesma forma, seja má.


(Paul Brunton  – Notebook 9 – Cap. 2)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Pergunta: De tudo que haveis dito, vejo que nada tendes de oferecer a um faminto que busca alimento; quero dizer alimento, não espiritual; vós tendes, talvez pelo hábito da compaixão, a simpatia para com os pobres, porém não haveis modificado o coração do homem que se acha imerso nas riquezas. Há algumas pessoas ricas ao redor de vós, seguramente, obrigados pelos sistemas, elas reduzem milhares de outras pessoas à pobreza e a ruína da saúde, e bem assim a degradação do coração e da mente, para por esse modo acumularem essas riquezas. Pessoas como estas podem sentir “simpatia pelos pobres”, e dar suas migalhas aos famintos, porém por esse processo somente aumentam sua vaidade e fazem exibição de sua importância pessoal a custa do respeito por si mesmos inerente ao homem.
 
Falais de exploração com aborrecimento e, no entanto, tolerais a exploração. Como podeis falar de uma Realidade última pela qual, dizeis, pautais vossa conduta e, apesar disso, sorris aos que esmagam e aos que são esmagados, com igual compostura, e viveis em Paz?
 
Krishnamurti: Um sistema foi estabelecido durante muitos séculos, em virtude do qual o indivíduo tem descambado, em que o seu egoísmo tem sido o senhor único, acobertado por uma grande quantidade de ideais, tais como o desejo de auxiliar, o de servir; de fato, porém, ele só tem expressado o interesse que nutre por si mesmo. Muitos anos serão necessários para modificar este sistema; se, porém, as pessoas não tiverem limpado os seus próprios corações do egoísmo, criarão outro sistema, o qual será, ainda baseado no egoísmo. Pela ideia de que não deve haver egoísmo no trabalho cooperativo, é com este desejo que devemos alterar as condições sociais. Sei que isto levará tempo, não podemos alterar num único dia, seja o que for que tenha levado séculos a firmar-se. Em vossa busca pela Verdade, sede um perigo para tudo quanto esteja baseado no egoísmo, na exploração, quer seja ela espiritual ou econômica.
 
Não posso alimentar a todas as pessoas famintas do mundo; posso, porém, mostrar-vos a maneira pela qual podeis compreender este problema, de modo a, como indivíduo, poderdes sair a trabalhar coletivamente para destruir esse sistema baseado no egoísmo, e não mais serdes indivíduos que desejam expressar seu egoísmo pelo trabalho coletivo. Por favor, compreendei esta distinção. No trabalho coletivo, como é natural, tem que haver autoridade; não pode havê-la entretanto, na realização da Verdade.
 
Para isto fazerdes, tendes que possuir mente clara e não estar sobrecarregados por ideais baseados num egoísmo sutil. Já expliquei cuidadosamente como encaro tais ideais. Os ideais, desde que se constituam em motivos para vos conduzir a uma vida perfeita, são baseados sobre o egoísmo, sobre a presunção de vossa própria importância.
 
Para mim, o que é de importância é a busca pela Verdade e a concentração dessa energia que produz a paz, que não se altera, que não se corrompe, que não está ao mando, seja do rico, seja do pobre. Se me disserdes que alguns de vossos amigos ricos não compreendem isto de que vos falo, deve ser porque tal não se preocupam. Vós, porém, desejais que eu julgue, que eu indague quem busca e quem não busca a Verdade. Falo contra o egoísmo, seja ele do rico, seja do pobre. Não tomeis em consideração a riqueza ou a pobreza; tomai em consideração a vós mesmos, que sois ricos e pobres e que pelo fato de desejardes qualquer coisa que não tendes, vos apegais a algo que possuis e tendes medo de perder. Por favor, tomais em conta a vós próprios e não ao vosso próximo: isto é, averiguai se sois egoístas, se estais explorando os outros, se ansiais por títulos, por distinções, pelos graus, pelas vaidades e pelos bens. Libertai a vós mesmos de todas essas coisas; não tenteis enganar-vos dizendo: “Estou executando o trabalho do mundo, estou trabalhando para ter mais dinheiro afim de o dar aos outros. Olhai para vós mesmos e, no processo de destruir o vosso próprio egoísmo, vosso próprio apego, vossa própria importância pessoal, vossas vaidades, chegareis a banir as coisas que acrescentam e ampliam a vaidade dos homens.
 
Sei ser isto um grande problema, porém somente o podereis resolver de maneira muito simples. Essa maneira simples está em vós mesmos. Podeis a vós próprios modificar, agora, e assim ajudareis a derrubar esta civilização baseada na exploração. Não se trata de simpatia, de compaixão ou de sentimentalidade, é uma questão de senso comum vulgar. Pelo fato de pensardes que os bens, as vaidades, os títulos, os uniformes, o mando, a pompa, o poder, são as maiores conquistas do mundo, é que criais estes males ao redor de vós. Ainda que a vós próprios tenhais por filantropos e façais a tentativa de organizar o bem estar do mundo, vossas boas obras estarão rodeadas pelo ego e seus interesses. Eu pretendo mostrar-vos que, no trabalho que é coletivo, o egoísmo do indivíduo somente pode produzir o caos, a confusão e o interesse entorpecente. Se não compreenderdes, haveis de produzir a destruição no trabalho coletivo, pela importância pessoal e o interesse centralizado em vós mesmos.
 
Tende, portanto, em vista, a vós próprios, limpai vossas mentes e vossos corações deste desejo corrupto de posses, de poder e bem assim de todos os temores. Por favor, compreendei isto, que pela mudança de sistema não vos é dado esperar alimentar o mundo inteiro, a não ser que o egoísmo seja em absoluto desarraigado do trabalho coletivo para o todo. Para este não podereis trazer vossas estranhas ideias de egoísmo, todas belamente cobertas de filantropia, retidão e serviço aos homens. Na busca da Verdade, que constitui o verdadeiro serviço do homem, não pode haver auto-decepções e hipocrisias. Na busca da Verdade, a preocupação imediata do homem, não é a do egoísmo do seu vizinho, porém, a de como se libertar de sua própria autoconsciência, de seu próprio egoísmo.    
 

Krishnamurti, 3 de agosto de 1931  
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

 

Uma visão Noética do " Clube da Luta "
 
Tyler Durden. Roda de Conversa

 

Aviso! Se você está lendo isso, então isto é para você! Cada segundo perdido lendo este texto inútil é outro segundo a menos da sua vida. Você não tem outras coisas para fazer? A sua vida é tão vazia que você honestamente não consegue pensar numa maneira melhor de vivê-la? Ou você fica tão impressionado com a autoridade daqueles que a exercem sobre você?
 A sua vida é tão vazia a ponto de você desperdiçá-la rolando a barra do feed de notícias do Facebook? Ela é tão vazia que você tenta preenchê-la mostrando uma carcaça oca de felicidade no Instagram/Snapchat? 
Como o ato de abrir a geladeira na madrugada, você aperta F5 repetidamente, na esperança de encontrar algo novo. 
O seu trabalho é tão insuportável que você começa a semana já pensando no seu fim? Você faz de tudo para gastar o tempo enquanto está trabalhando? Assuntos inúteis, polêmicas e fofocas no Whatsapp são a rota de fuga.
44 horas em um emprego que você odeia. 10 horas em um trânsito doente, egoísta e selvagem. Algumas poucas horas de um sono ansioso e frágil.
E o que sobra, você gasta comprando coisas que não precisa para impressionar pessoas que você não gosta ou investe em embriaguez para afastar a realidade de si mesmo.
Você vive em uma bolha de superficialidades, sem nenhum poder de ação, apenas reagindo às coisas que aparecem. Você acredita que é especial, mais inteligente, mais esperto. Vive aguardando o momento em que sua sorte irá virar e a felicidade cairá dos céus.
Enquanto isso não acontece, você prefere queimar cada minúscula parte de sua energia vital em busca de um alívio, mentindo para si mesmo, afastando a sobriedade e se distraindo.
É só o que você consegue fazer. Essa é sua vida e ela está acabando a cada minuto.
Você lê tudo o que deveria ler? Você pensa tudo o que deveria pensar? Compra tudo o que lhe dizem pra comprar? Saia do seu apartamento. Encontre alguém para se relacionar. Pare de comprar tanto e se masturbar tanto. Peça demissão. Comece a brigar. Prove que está vivo. Se você não fizer valer pelo seu lado humano, você se tornará apenas mais um número. Você foi avisado.
 
As palavras de Tyler saindo do meu teclado.
 
Você conhece Tyler Durden? Dizem que é um mito, nasceu num hospital psiquiátrico e dorme apenas uma hora por noite.
 
Eu o conheci em um lugar, uma reunião... Mas não posso falar nada sobre. Existem regras lá e as duas primeiras não me permit...
 
Bom, se você sabe do que estou falando, então já somos companheiros e podemos continuar. Se ainda não, assista ao filme Clube da Luta (1999) e volte aqui para irmos adiante.
 
 
 
E mais uma vez, foi um excelente momento de partilha e reflexão entre os convidados – algo raro e valioso para a correria dos dias atuais.
 
Gostaria de dividir aqui o que consegui absorver deste momento. Não se trata de uma análise do filme (você encontrará centenas na web) e nem de uma conclusão oficial da roda – creio que isso não seja nem mesmo possível – mas sim uma visão pessoal de um dos participantes.
 
 
 
Em seguida fomos aprofundando e discutimos a metáfora que englobava tudo isso. Metáfora essa que carrega uma mensagem, uma crítica do diretor David Fincher e do escritor Chuck Palahniuk ao modelo de vida ideal proposto pela sociedade à qual estamos inseridos.
 
E foram alguns pontos dessa crítica que me chamaram mais atenção:
 

Um modelo vazio baseado em ego e em consumo.

 
O nosso amigo, o narrador, aquele que não é nomeado leva uma vida digna para os padrões atuais. Um belo apartamento de paredes de concreto, móveis, utensílios e coleções bacanas, roupas de marca e um emprego relevante em uma grande companhia.
 
Ele era muito cuidadoso com os seus pertences e estava próximo de se sentir completo, segundo ele próprio.
 
Esta é a matriz a qual somos induzidos a sonhar. Esta parece ser a vida ideal. Perfeito, se isso, sendo tudo o que nossa vida representa, não fosse superficial demais, raso demais, pouco demais.
 
Somos burrinhos atrás da cenoura. No lado da produção perseguimos metas e mais metas. Segundo os nossos superiores, estamos sempre próximos de conquistar uma grande relevância, de nos tornar referência e alcançar o sucesso. Dessa maneira, nos entregamos, vestimos a camisa das companhias, e produzirmos cada vez mais.

o burro e a cenoura
Falta poucoo!!
Mas alguém precisa consumir tudo o que é produzido. 

No lado do consumo, perseguimos mais do que nunca, e não importa o quanto obtemos, faltará algo. A propaganda cria a necessidade. E um novo sentimento de ausência está sempre emergindo.
 
A verdade é que o nosso amigo nunca se sentiria completo. E nós também não.
 
Tanto de um lado como de outro, a alegria mora no desejo e o desejo mora na falta. Somos movidos pela insatisfação e a ilusão de que num futuro próximo tudo será melhor.
 
Essa eterna busca pelo pedacinho que está faltando se torna uma obsessão. Uma obsessão tão grande que qualquer experiência que não esteja alinhada a esse tormento se torna uma experiência secundária e descartável.
 
Uma obsessão tão grande que às vezes nem tem cara de obsessão, as vezes parece que perseguir é apenas a única possibilidade.
 
Assim, avaliamos cada pessoa, cada experiência, cada lugar nesses moldes. E toda a complexidade de uma vida começa a se resumir no valor de produção e no valor de consumo.
 
E confundimo-nos com os troféus que somos capazes de exibir. A nossa identidade, o nosso eu que deveria ser infinito, passa a ser avaliado e medido.
 
Ego.
 
Nesse sentido, encontramos uma relação com o filme da primeira roda: Into the wild. Nele, o jovem Chris enxerga a relação com sua família deteriorada, devido ao forte ego de seus pais, que são reflexos de uma sociedade doente e mentirosa. Assim, ele deixa tudo para trás e decide partir para uma viagem em busca de si mesmo, imerso na natureza.
 
Enquanto em Clube da Luta, o nosso amigo é a própria sociedade doente, que se autoengana e autoflagela, vivendo para buscar troféus como um zumbi.
 
                                     

A promessa de um sentido e os fenômenos de massa.

 
Atolado em vazio existencial, o nosso amigo, em uma das centenas de vôos que fazia a trabalho, sonhava com a queda de seu avião, quando conhece uma figura peculiar e de forte presença: Tyler Durden.
 
Tyler oferece um ângulo novo. Ele propõe o despertar através da destruição e da desordem. Apenas no fundo do poço é que se alcança a liberdade, ele diz querendo aniquilar tudo o que nos prende aos padrões vulgares e já enraizados, baseados em ego e consumo.
 
E assim nasce o Clube da Luta. E com ele um novo sentido para a vida. E todas as coisas supérfluas passam a ser realmente supérfluas. A cor da gravata do chefe? O nosso amigo não sabia mais e também não queria saber. Depois de uma noite no Clube da Luta, o volume do mundo fica mais baixo.
 
Um novo sentido, não só para o nosso amigo, mas para todos que, assim como ele, também estavam atrás de uma vida plena, afogados na perseguição de cenouras. E isso era muita gente.

As duas primeiras regras do Clube proíbem que se fale a respeito, mas isso não impediu o seu crescimento exponencial. E aqui temos uma mensagem muito forte que vem pra reafirmar o fato de que nosso amigo não está sozinho: estamos doentes enquanto comunidade.
 
Este foi um ponto significativo na Roda, porque conseguimos enxergar fenômenos semelhantes.
 
Jovens europeus de classe média se juntam ao Estado Islâmico em busca de um novo sentido. Jovens que buscam esse sentido em facções e torcidas organizadas. Jovens que são recrutados pelo crime. Pessoas que aderem a religiões, militâncias políticas entre outras coisas pra preencher esse vazio.
 
O que notamos tanto na ficção quanto na realidade é semelhante ao que Freud diz em A Psicologia das Massas E Análise do Eu:

O sujeito massificado é exaltado, tem suas emoções intensificadas e pode entregar-se às mais diversas paixões. Ele se torna um inconteste, impulsivo e, por muitas vezes, contraditório. Ademais, sua singularidade parece desvanecer, fazendo com que ele pense e se comporte tal qual os demais membros do grupo. Deste modo, ele tende a ser conduzido, com maior ou menor facilidade, em conformidade com os padrões estabelecidos pela massa
 
Também percebemos em como, na maioria dos casos, a massa toma vida própria, cria uma identidade e vai além do controle de seu criador. 

Da mesma forma que o nosso amigo não conseguiu parar o que se tornou “O Projeto Destruição”, os idealizadores das torcidas organizadas não conseguiriam parar também a violência que encontramos nos estádios hoje.

Torcidas organizadas, projeto destruição
Peraí rapidinho gente, vamos só torcer aqui...

A Busca pelo Equilíbro

 
Por fim, encontramos uma nova semelhança ao Into the Wild, filme da primeira roda: quando Chris se vê preso naquele sistema pobre em valores, ele decide radicalizar-se, abandonar tudo e ter uma experiência profunda na natureza, fugindo de uma obsessão, porém caindo em outra.
 
Da mesma forma, o nosso amigo se radicalizou, abandonou sua sanidade e criou um alter-ego para ajudá-lo em uma nova obsessão: chegar ao fundo do poço e se libertar.
 
Ambos foram de um extremo ao outro. E mais uma vez a vida imita a arte. É comum ouvirmos falar de pessoas que largaram uma vida estável para viver nas ruas ou pessoas que perderam a sanidade sem nenhum motivo aparente. 

Esses também podem ser casos em que se troca uma extremidade por outra.
 
Contudo, acreditamos que entre esses dois extremos, existe um equilibro, que é difícil e muito improvável de se alcançar.


Os extremos da vida
Ilustração profissional 1: o equilíbrio utópico mora ao lado.


Mas utopia não é destino, é direção.
Ora um pouco acima, ora um pouco abaixo, nós oscilamos e devemos trabalhar para que essa oscilação tenha uma amplitude cada vez menor, para assim estarmos todo dia um pouquinho mais próximos desse equilíbrio.

Em busca do equilibrio
Ilustração profissional 2: reduzir a amplitude e caminhar

Fazemos isso através do autoconhecimento, dos questionamentos e das provocações que a vida nos oferece.
 
Artigo  republicado do Site : oespaco.net

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

 

Diálogo entre Nisargadatta Maharaj e um visitante  

 
 
 
Pergunta: Estou muito apegado a minha família e minhas posses. Como posso dominar este apego?
 
Maharaj: Este apego nasce junto com o sentido de ‘eu’ e ‘meu’. Ache o verdadeiro significado destas palavras e se libertará de toda escravidão. Você tem uma mente que está estendida no tempo. Uma após outra, ocorrem-lhe todas as coisas, e a recordação permanece. Não há nada de errado nisto. O problema surge apenas quando a recordação das dores e dos prazeres passados – que são essenciais para toda vida orgânica – permanece como um reflexo, dominando o comportamento. Este reflexo toma a forma do ‘eu’ e usa o corpo e a mente para seus propósitos, os quais, invariavelmente, consistem em buscar o prazer ou fugir da dor. Quando reconhecer o ‘eu’ tal como é, um feixe de temores e desejos, e o sentido do ‘meu’ como algo que abrange todas as coisas e pessoas necessárias para o propósito de evitar a dor e assegurar o prazer, você verá que ‘eu’ e ‘meu’ são ideias falsas, não fundamentadas na realidade. Criados pela mente, governam seu criador enquanto este os toma como verdadeiros; quando questionados, dissolvem-se.
 
O ‘eu’ e o ‘meu’, tendo nenhuma existência neles mesmos, necessitam do suporte que é encontrado no corpo. O corpo se converte em um ponto de referência. Quando você fala de ‘meu’ esposo e de ‘meus’ filhos, quer dizer esposo do corpo e filhos do corpo. Abandone a ideia de ser o corpo e encare a pergunta: Quem sou eu? Imediatamente será posto em marcha o processo que trará de volta a realidade, ou melhor, que levará a mente à realidade. Só não deve ter medo.
 
P: De que devo ter medo?
 
M: Para que a realidade seja, as ideias de ‘eu’ e ‘meu’ deverão desaparecer. Elas desaparecerão se você permitir. Então seu estado normal e natural reaparece; nele você não é nem o corpo nem a mente, nem o ‘eu’ nem o ‘meu’, mas está num estado totalmente diferente de ser. É a pura Consciência de ser, sem ser isso ou aquilo, sem qualquer autoidentificação com nada em particular ou em geral. Nesta pura luz da consciência não há nada, nem sequer a ideia de nada. Há apenas luz.
 
P: Há pessoas a quem amo. Eu devo abandoná-las?
 
M: Apenas desista de possui-las. O resto depende delas. Elas podem perder o interesse em você ou não.
 
P: Como poderiam? Não me pertencem?
 
M: Pertencem ao seu corpo, não a você. Ou melhor, não há ninguém que não pertença a você.
 
P: E quanto às minhas posses?
 
M: Quando o ‘meu’ não existe mais, onde estão suas posses?
 
P: Por favor, diga-me, devo perder tudo ao perder o ‘eu’?
 
M: Pode ser que sim ou que não. Para você, será tudo a mesma coisa. Sua perda será o ganho de outro. Você não vai se importar.
 
P: Se não me importar, perderei tudo!
 
M: Uma vez sem nada, você não tem problemas.
 
P: Permanecerei com o problema da sobrevivência.
 
M: É problema do corpo e o resolverá comendo, bebendo e dormindo. Há bastante para todos, desde que todos compartilhem.
 
P: Nossa sociedade está baseada em apropriar-se de coisas, não em compartilhar.
 
M: Por compartilhar, você a mudará.
 
P: Não sinto que queira compartilhar. De qualquer modo, estou sendo tributado além de minhas posses.
 
M: Isto não é o mesmo que compartilhar voluntariamente. A sociedade não mudará mediante a compulsão. Requer uma mudança de coração. Compreenda que nada é seu, que tudo pertence a todos. Só então a sociedade mudará.
 
P: A compreensão de um único homem não levará o mundo mais longe.
 
M: O mundo em que você vive será afetado profundamente. Será um mundo sadio e feliz, que irradiará e comunicará, aumentará e se estenderá. O poder do coração verdadeiro é imenso.
 
P: Por favor, fale-nos mais.
 
M: Falar não é meu passatempo predileto. Às vezes falo, outras não. Meu falar, ou não falar, é uma parte de uma dada situação e não depende de mim. Quando há uma situação em que devo falar, ouço-me falando. Em alguma outra situação, pode ser que não me ouça falando. Para mim, tudo é igual. Fale ou não, a luz e o amor de ser o que sou não são afetados, nem estão sob meu controle. Eles são e sei que são. Há uma Consciência alegre, mas não alguém que esteja alegre. Certamente, há um sentido de identidade, mas é a identidade de um vestígio de memória, como a identidade de uma sequência de imagens na tela sempre presente. Sem a luz e a tela não pode haver imagem. Conhecer a imagem como o jogo da luz sobre a tela libera da ideia de que a imagem é real. Tudo o que deve fazer é compreender que você ama o self e o self o ama, e que o sentido ‘eu sou’ é a conexão entre ambos, um sinal de identidade, apesar da aparente diversidade. Olhe para o ‘eu sou’ como um sinal de amor entre o interno e o externo, o real e o aparente. Do mesmo modo que em um sonho tudo é diferente, exceto o sentido de ‘eu’ que lhe permite dizer ‘eu sonhei’, assim o sentido de ‘eu sou’ lhe permite dizer ‘Eu sou meu Ser real novamente. Não faço nada, nem nada fazem a mim. Eu sou o que sou e nada pode afetar-me. Parece que eu dependo de tudo, mas, de fato, tudo depende de mim’.
 
P: Como posso dizer que você não faz nada? Não está falando para mim?
 
M: Não tenho o sentimento de que estou falando. A conversa está acontecendo, isto é tudo.
 
P: Eu falo.
 
M: Você fala? Você se ouve falando e diz: Eu falo.
 
P: Todos dizem: ‘Eu trabalho, eu chego, eu vou’.
 
M: Não tenho objeção às convenções de sua linguagem, mas elas distorcem e destroem a realidade. Um modo mais exato de dizer seria: ‘Há conversa, trabalho, chegadas e partidas’. Para que algo aconteça, todo o universo deve coincidir. É incorreto crer que algo em particular possa causar um evento. Cada causa é universal. Seu próprio corpo não existiria sem o universo inteiro contribuindo para sua criação e sobrevivência. Sou totalmente consciente de que as coisas acontecem como acontecem porque o mundo é como é. Para afetar o curso dos eventos, devo introduzir um fator novo no mundo, e tal fator só pode ser eu mesmo, o poder do amor e da compreensão enfocados em mim.
 
Quando o corpo nasce, ocorre-lhe todo tipo de coisas e você toma parte nelas porque toma a si mesmo pelo corpo. Você é como o homem no cinema, rindo e chorando com as imagens, embora saiba perfeitamente bem que está todo o tempo sentado em sua poltrona, e que o filme é só o jogo de luz. Basta desviar a atenção da tela para si mesmo para romper o encanto. Quando o corpo morre, o tipo de vida que você leva agora – uma sucessão de fatos físicos e mentais – acaba. Pode mesmo acabar agora – sem esperar a morte do corpo –, basta desviar a atenção para o Eu e mantê-la lá. Tudo acontece como se houvesse um poder misterioso que cria e move todas as coisas. Compreenda que você não é o que move, só o observador, e você estará em paz.
 
P: Este poder está separado de mim?
 
M: Claro que não. Mas você deve começar sendo o observador desapaixonado. Só então compreenderá seu pleno ser como o amante e o ator universais. Enquanto estiver enredado nas tribulações de uma personalidade particular, não pode ver nada além dela. Mas, finalmente, você chegará a ver que não é nem o particular nem o universal, que você está além de ambos. Como a minúscula ponta do lápis que pode traçar inúmeras imagens, assim também o ponto sem dimensão da Consciência traça os conteúdos do vasto universo. Encontre esse ponto e seja livre.
 
P: De que criei este mundo?
 
M: De suas próprias recordações. Enquanto ignorar-se a si mesmo como criador, seu mundo será limitado e repetitivo. Uma vez que você vá além da autoidentificação com o passado, é livre para criar um mundo de harmonia e beleza. Ou você simplesmente permanece – além do ser e do não ser.
 
P: O que me restará se abandono minhas recordações?
 
M: Não restará nada.
 
P: Tenho medo.
 
M: Você terá medo até que experimente a liberdade e suas bênçãos. Certamente, algumas recordações são necessárias para identificar e guiar o corpo, e tais recordações permanecem, mas não resta apego em relação ao corpo como tal; ele já não é mais a base do desejo e do temor. Tudo isto não é muito difícil de entender e praticar, mas você deve estar interessado. Sem interesse, nada pode ser feito.
 
Tendo visto que você é um feixe de recordações unido pelo apego, saia e olhe-o de fora. Você pode perceber pela primeira vez algo que não é memória. Você cessa de ser o Sr. Fulano de Tal, ocupado com seus próprios assuntos. Finalmente, você está em paz. Você compreende que nunca houve nada errado com o mundo – só você estava enganado e, agora, tudo acabou. Nunca mais você será pego nas malhas do desejo nascido da ignorância.
 
Divulgado originalmente pelo blog Editora Advaita
 
 
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

 

1016458_456213191170813_1819378242_n.jpg

    Esses três trechos estilo choque-de-realidadeabaixo são do livro “I Am That“, uma das grandes compilações de ensinamentos do mestre indiano Sri Nisargadatta Maharaj (1897-1981), que viveu e ensinou em Mumbai, na Índia, no século passado. Todas elas carregam seu estilo forte e de fala assertiva, mas nenhuma força e assertividade é maior do que o significado que as sentenças trazem: Sri Nisargadatta traça o perfil da vida do ser humano como algo iludido, perdido, com ação geralmente inútil e destino lamentável. Num dos trechos diz que o ser humano é “ignorante de Si mesmo e de sua verdadeira natureza“, e que “persegue objetivos falsos e está sempre frustrado“. Logo então fecha o mapa dizendo que “sua vida e morte são insignificantes e dolorosas, e não parece haver jeito de sair”.

A saída segundo sua instrução é o auto-conhecimento, ou o contato com a verdadeira natureza do Ser. Para ele, o único problema humano é a percepção equivocada da própria identidade. “O aparato mente-corpo que está funcionando acabou ofuscando sua essência, mas você não é esse aparato”, ensina Maharaj, num trecho que não faz parte dos selecionados abaixo. Se não é o aparato mente e corpo, o que é então? Maharaj diz que temos medo de quem somos: “Seu destino é o todo, mas você tem medo de perder sua identidade. Mas isso é infantilidade, é se apegar aos brinquedos, aos desejos e medos, às opiniões e idéias. Entregue tudo e esteja pronto para o real se apresentar”.

Seguem abaixo os três trechos traduzidos de “I Am That“, que é por sua vez uma compilação de ensinamentos originais de Sri Nisargadatta falados em Marathi, sua língua nata indiana, e traduzidos para o inglês por Maurice Frydman, publicados pela primeira vez em 1973.





01-  Vejo o que você também poderia ver, aqui e agora, mas por causa do foco errado da sua atenção você não dá atenção ao Ser. Sua mente está toda com as coisas, pessoas e idéias, nunca com seu Ser. Coloque seu Ser em foco, torne-se consciente de sua própria existência.
— Nisargadatta Maharaj

 

 

02-  Quão pouco o homem sabe de seu Ser (o substrato único, imortal e sem forma de tudo que existe), como ele toma as mais absurdas crenças sobre si mesmo como a divina verdade. É dito a ele que é o corpo, que nasceu, que morrerá, que tem pais, tarefas; ele aprende a gostar do que os outros gostam e a temer o que os outros temem. Totalmente uma criatura da hereditariedade e da sociedade, vive pela memória e age por hábitos. Ignorante de Si mesmo e de sua verdadeira natureza, ele persegue objetivos falsos e está sempre frustrado. Sua vida e morte são insignificantes e dolorosas, e não parece haver jeito de sair.
— Nisargadatta Maharaj

 

03-  Sem auto-conhecimento tudo é problema. Se você quer viver sanamente, criativamente, e feliz, e ter riquezas infinitas para compartilhar, busque pelo que você é. Sem isso você será consumido por desejos e medos, repetindo-os sem sentido num sofrimento sem fim. A maioria das pessoas não sabe que pode haver um fim para a dor. Mas assim que elas ouvem a boa notícia, obviamente ir além de todo conflito e esforço é a tarefa mais urgente que pode existir. Você sabe que pode se libertar e agora só depende de você.”
—  Nisargadatta Maharaj 

 

 

 Divulgado por  Dharmalog.com

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

A maior parte da violência que os seres humanos infligiram a si mesmos não foi obra de criminosos nem de indivíduos mentalmente perturbados, mas de cidadãos normais, respeitáveis, a serviço do ego coletivo. Alguém poderia até dizer que, neste planeta, "Normal" equivale a louco. O que se encontra na raiz da insanidade? A completa identificação com o pensamento e a emoção, isto é, o ego.

(...)

Sempre que confundimos o ego que detectamos em alguém com sua identidade, isso é obra de nosso próprio ego, que usa essa interpretação errônea para se fortalecer mostrando que está certo e que, portanto, é superior. Ele também faz isso reagindo com condenação, indignação e, geralmente, raiva em relação ao inimigo percebido. Tudo isso lhe proporciona imensa satisfação. Fortalece a sensação de separação entre nós e o outro, cuja "alteridade", isto é, a natureza ou condição que é outro, do que é distinto, aumenta a tal ponto que já não conseguimos sentir sua humanidade nem suas raízes na Vida Única que compartilhamos com cada ser humano, a divindade que temos em comum.

(...)

Em outras palavras, só vemos aquilo que queremos ver e, assim, interpretamos tudo errado.

(...)

Reconheça o ego pelo que ele é: um distúrbio coletivo, a insanidade da mente humana. Quando o identificamos pelo que ele é, deixamos de interpretá-lo erroneamente como a identidade de uma pessoa. E temos mais facilidade em não adotar uma atitude reativa em relação a ele. Já não o tomamos como algo pessoal. Não existe queixa, culpa, acusação nem ação equivocada. Ninguém está errado. É apenas o ego em alguém, só isso. A compaixão surge quando compreendemos que todas as pessoas sofrem do mesmo distúrbio mental, algumas delas de forma mais aguda do que outras. Assim, paramos de nutrir o conflito que faz parte de todos os relacionamentos egóicos. E o que o alimenta? A atitude reativa: com ela, o ego prospera.

(...)

Tudo o que devemos saber e observar em nós mesmos é isto: sempre que nos sentirmos superiores ou inferiores a alguém, isso é o ego em ação.
 
Eckhart Tolle  em  Um Novo Mundo - o despertar de uma nova consciência

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:


A palavra "eu" incorpora o maior erro e a verdade mais profunda, dependendo de como é utilizada. No uso convencional, não só é um dos termos empregados com maior frequência (juntamente com as palavras correlatas "mim", "meu", "comigo", etc.) como é um dos mais enganosos. Na sua aplicação cotidiana normal, "eu" contém o erro primordial, uma percepção equivocada de quem a pessoa é, um sentido ilusório da identidade. Isso é o ego. E o que Albert Einstein, que possuía um admirável entendimento não só da realidade do espaço e do tempo como da natureza humana, chamou de "ilusão de óptica da consciência". Essa identidade ilusória se torna então a base de todas as interpretações - ou melhor, das más interpretações - posteriores da realidade, de todos os processos de pensamento, das interações e dos relacionamentos. A realidade do indivíduo passa a ser um reflexo da ilusão original.

O lado bom disso é que, se formos capazes de reconhecer a ilusão como tal, ela se dissolverá. A identificação da ilusão é seu fim. Sua sobrevivência depende do nosso erro em considerá-la a realidade. Quando compreendemos quem não somos, a realidade do que somos aparece por si mesma. Isso é o que acontecerá enquanto você estiver lendo devagar e cuidadosamente este capítulo e o próximo, que tratam do mecanismo do falso eu a que chamamos ego. Assim, qual é a natureza dessa identidade ilusória?

Aquilo a que costumamos nos referir quando dizemos "eu" não é quem nós somos. Por um ato monstruoso de reducionismo, a profundidade infinita de quem somos confundiu-se com um som produzido pelas cordas vocais ou pelo pensamento do "eu" na nossa mente e com qualquer outra coisa com que o "eu" esteja identificado. Portanto, a que se referem o "eu" comum e os termos relacionados "mim", "meu" ou "comigo"?

Quando uma criança aprende que uma sequencia de sons produzidos pelas cordas vocais dos pais é seu nome, ela começa a fazer com que uma palavra, que na sua mente se torna um pensamento, corresponda a quem ela é. Nessa fase, algumas crianças se referem a si mesmas na terceira pessoa. "João está com fome." Pouco tempo depois, aprendem a palavra mágica "eu" e a equiparam ao seu nome, ao qual já atribuíram o significado de quem elas são. Então outros pensamentos aparecem e se fundem com a percepção original do "eu". O passo seguinte são pensamentos de "mim" e "meu" para designar as coisas que, de alguma forma, são parte do "eu". Isso é a identificação com objetos, o que significa conferir às coisas - em última análise, pensamentos que representam coisas - uma percepção do "eu", extraindo assim uma identidade delas. Quando algo que a criança chama de "meu brinquedo" se quebra ou é tirado dela, surge um intenso sofrimento. Não porque o objeto tenha um valor intrínseco - a criança logo perde o interesse por ele e o substitui por outro item qualquer -, e sim por causa do pensamento "meu". O brinquedo torna-se parte do desenvolvimento da percepção da identidade, do "eu".

Desse modo, à medida que a criança cresce, o pensamento original do "eu" atrai outros pensamentos para si mesmo e passa a se identificar com diversos elementos, como nacionalidade, gênero, raça, religião, profissão, bens materiais, o corpo percebido pelos sentidos, etc. Outras coisas com as quais o "eu" se identifica são papéis - mãe, pai, marido, esposa, e assim por diante -, opiniões e conhecimento acumulados, o gostar e o não gostar, além de fatos que aconteceram no passado e cuja lembrança são pensamentos que posteriormente definem a percepção da identidade como "eu e minha história". Esses são apenas alguns dos aspectos dos quais as pessoas extraem sua percepção de quem elas são. No fim das contas, eles não passam de pensamentos reunidos de maneira precária por conterem todo o sentido da identidade egóica. Essa construção mental é aquilo a que em geral alguém se refere quando diz "eu". Para ser mais preciso: na maior parte do tempo, não é a pessoa que está falando quando pronuncia ou pensa "eu", mas algum aspecto dessa construção mental, a identidade egóica. Após o processo do despertar, a palavra "eu" ainda é usada, no entanto ela passa a vir de um lugar muito mais profundo dentro de nós.

Quase todas as pessoas ainda estão identificadas com o fluxo incessante da mente, do pensamento compulsivo, em sua maior parte repetitivo e sem importância. Não existe nenhum "eu" fora dos seus processos de pensamento e das emoções que os acompanham. E é esse o significado de ser espiritualmente inconsciente. Quando informadas de que existe uma voz na sua cabeça que nunca para de falar, as pessoas costumam ter duas reações: ou perguntam "que voz?" ou a negam com raiva - e isso, sem dúvida, /a própria voz, aquele que pensa, a mente não observada. Podemos considerá-la quase uma entidade que se apossou das pessoas.

Há quem nunca se esqueça da primeira vez em que conseguiu romper a identificação com seus pensamentos, momento em que foi capaz de sentir brevemente a mudança de identidade, deixando de ser o conteúdo da sua mente para se tornar a consciência lá no fundo. No caso de outros indivíduos, isso acontece de uma maneira tão sutil que eles mal percebem ou apenas notam uma abundância de alegria ou paz interior sem saberem o que originou esses sentimentos.

 

Eckhart Tolle -  extraido de " O Despertar de uma nova Consciência" 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

pbpic.jpg

[...]  Se podeis imaginar a Supermente como um grande oceano com miríades de braços, cada um representando uma mente humana individual, estais a caminho de compreender a origem dos fenômenos ocultos e o princípio da telepatia. Muito ouvimos falar de poderes ocultos. Há pessoas que supõem que o desenvolvimento desses poderes ou é um complemento necessário da busca ou é em si desejável. Os poderes ocultos nada têm a ver com nossa busca. Na busca do Super-eu não devemos deter-nos na rota. Todos os poderes ocultos são inerentes ao plano da mente.  São fenômenos dentro da região da Supermente planetária. Se obtiverdes acesso às regiões da Supermente, obtereis acesso aos poderes ocultos.

  Mas a Supermente não é o Super-eu. É um plano inferior. Se pretendeis permanecer dentro da região da Supermente, nunca atingireis o Super-eu. Que quereis? Quereis o reino do céu? Então deveis prosseguir. Deveis pôr de lado a Supermente e com ela os poderes ocultos. Aprendei a penetrar naquela porta estreita onde tudo é deixado atrás: posses materiais e posses mentais.

    Se vos apegais a poderes ocultos, nunca podereis atravessar a porta que leva ao reino do céu. Esses poderes não interessam à nossa busca do Super-eu. Algumas pessoas desperdiçam seu tempo e energia na perquirição destes poderes; porém são pouquíssimas que conseguem obtê-los. No entanto, se o conseguem, farão alto em sua busca espiritual. E ficarão marcando passo até desistirem de sua perquirição de fenômenos ocultos. É fácil compreender quantos cultos surgem acompanhando líderes já detidos em vários pontos ao longo do caminho de sua busca da verdade.

   Sim, é perfeitamente possível curar. O poder da Supermente é tal que pode salvar-nos das garras da morte, onde os médicos desistiram desesperados. Mais de uma vez vi este poder salutarmente exercido. Mas o segredo é que ele operou através de um canal humano que deliberada e egoisticamente não se pôs a curar, e consequentemente a cura foi certa e permanente.

 

A cura mental só se justifica quando cria uma visão superior no paciente, quando lhe dá a compreensão de que ele não é o corpo, mas algo não material.

 

 Jesus prometeu que todas as demais coisas vos seriam acrescentadas, se buscásseis o reino do céu. Vede assim que existe um caminho superior para obter demonstrações, um caminho superior que requer que busqueis o reino do céu. E se quereis encontrar esse reino, tendes de renunciar a vosso ego pessoal, e se renunciai a vosso ego pessoal, renunciai ao desejo de coisas materiais. Tereis certas necessidades materiais, mas então as confiareis a vosso Pai no céu e Ele cuidará delas. Mas se concebeis que sois mais sábio que vosso Pai e tentai ditar ao Pai por meio da concentração mental, então ele vos deixa a sós, para que descubrais as coisas por meio de vossas próprias experiências.

 

  Tendes o caminho de Jesus e tendes o caminho desses cultos; são dois caminhos diferentes. E ainda que os cultos usem o nome de Jesus e pretendam que O estão seguindo, não são a mesma coisa. Os caminhos são diferentes. Certas demonstrações materiais são possíveis através de ambos os caminhos, mas outras não o são por nenhum. A última palavra pertence a Deus e não a nós. Mas o primeiro é o caminho da submissão da vontade do eu pessoal, e, portanto, sempre traz a paz e fortaleza internas para enfrentarmos as dificuldades, quer isso importe ou não em atrair boa fortuna ou saúde. O segundo é o caminho do uso do eu pessoal para satisfazer desejos pessoais; e sempre traz inquietude e incertezas mentais com as quais enfrentamos as dificuldades. O primeiro caminho é divino e certo; o segundo é egoísta e errado.

 

  Quanto ao fato de que estes postulados se baseiam no princípio de que o pensamento concentrado tende a tornar-se criador no plano objetivo, é exato. Não obstante, tal ensinamento não é certo para o pensamento de noventa e cinco por cento das pessoas que o estudam, simplesmente porque os seus pensamentos não são suficientemente poderosos para tornarem-se rapidamente criadores. Esta doutrina é certa somente para o adepto, cujos pensamentos estão cheios do poder criador da mente cósmica. Dai, só os seguidores desses cultos que hajam praticado a yoga até um grau bastante adiantado e atraído este poder universal, podem começar a materializar seus pensamento.

(...)

O adepto dotado de poderes ocultos os encara como poderes do sonho. Para ele, estes poderes não têm grande importância, porque para exercê-los ele tem de descer de sua mais elevada consciência. É para ele uma forma de autosacrifício o emprego da cura ou poderes ocultos, porque não pertencem ao plano do espírito eterno; pertencem ao plano da mente, que é inferior.

 

Vaidade é a primeira das armadilhas à espera da pessoa com poderes ocultos semidesenvolvidos. O sobrenatural é meramente o natural mal compreendido. Cada mente finita é apenas um remoinho, um vórtice, na Supermente infinita. Em realidade não tem nenhuma existência separada e distinta, em substância, mas assemelha-se à cava de uma onda no oceano, do qual difere apenas na forma. Em tempo algum esteve separada da Supermente.

 

  Portanto, não cometais o erro comum de esperar maravilhas ocultas de um adepto, ou ficareis decepcionados. Ele utilizará estes poderes ocultos sempre que achar conveniente, porém não de outra maneira. Há uma coisa que devemos lembrar-nos: o homem que encontrou o espírito divino também encontrou a fonte de todos os poderes, inclusos os ocultos. Os próprios poderes mágicos são expressões menores dos poderes superiores do Super-eu, porque, finalmente, existe apenas um poder e uma força em todo o Universo, como existe apenas uma mente. À medida que esta força desce e se condensa, ela se divide em forças inferiores, e estas ainda em expressões mais tênues e nas várias forças e energias que conhecemos.

Um adepto pode, por exemplo, não ter desenvolvido o poder de curar. Ele pode ter trabalhado pelo poder do Super-eu, que é o maior do mundo. Com esse poder ele pode obrar os maiores milagres, muito maiores do que os executados por um ocultista. O maior milagre que um adepto pode efetuar é ajudar os outros a uma mudança de consciência,pois isso os auxilia a despertar-se da ilusão para a verdade. Não obstante,  é tal o poder do Super-eu, que está na base de todas as coisas, que ele pode a todos os momentos operar,  e opera, os mais surpreendentes milagres, através do instrumento do Super-eu, por certo. Aqueles que têm aparecido neste mundo e operado maravilhas e milagres, geralmente não foram adeptos no melhor sentido. Não encontraram a vida eterna. Se desejam tornar-se verdadeiros adeptos, se desejam tornar-se tal qual foi Jesus, então só lhes resta um passo a dar, o qual consiste em renunciarem a seus poderes e colocarem-se no caminho mais elevado.


Tais poderes se tornam uma pedra de tropeço quando começam a procurar algo superior. Seus poderes são ainda mentais, e para procurar o plano do espírito, os buscadores devem transcender o plano da mente. Ganho o espírito, tais homens, se transcenderem a mente e renunciarem aos poderes, terão mais tarde estes poderes restituídos.  O Super-eu então os utiliza para realizar feitos milagrosos, de sorte que não haja mais nenhum motivo egoísta. Os poderes serão utilizados apenas como uma expressão da vontade do Super-eu, não do eu pessoal, que causa todas as diferenças no mundo.

Há um grande mistério relacionado com a consciência espiritual, um mistério que os ocidentais acham muito difícil de compreender, e esse jaz na submissão do ego, ou, como referiu Jesus, na “perda de sua própria vida”. Quando submeteis vosso ego e atingis a verdade, não mais atuais, mas atuam em vós; não mais falais, mas falam por vós. Isto significa que o Super-eu encontrou neste mundo material um foco e um canal que antes não teve. Este é o milagre. Está na base de todas as coisas; interpenetra todo o espaço.

O observador de fora via milagres efetuados por Jesus, e ainda assim cuidava que Jesus deliberadamente queria que acontecesse determinada coisa. Jesus nada queria, mas deixava-Se ser intermediário do querer. O Super-eu, que é o único espírito presente tanto nos outros quanto em Jesus, sabendo perfeitamente o que deve ser feito, o que deve ser servido, quis naqueles momentos que estes milagres fossem feitos, e os fez.

Segui o caminho que Jesus nos ensinou, que é o da submissão do ego. Vosso Pai sabe o de que necessitais. Ele vos pôs neste mundo. Se o sabeis, seguramente Ele também o sabe. Segui esta busca sem receio, pois nada tendes a temer. Confiaste toda a vossa vida a Deus. Fizeste isto, não por ato de fé apenas, mas também por comunhão consciente. O fardo que a maioria dos mortais carrega sobre suas mentes e dentro de seus corações, foi alijado de vós. Daqui em diante viveis como um homem ou mulher inspirado, atento aos ditames do Cristo Interno.


Confiai no Super-eu. Submetei-vos a ele e achareis alívio. Tereis perdido vosso eu enfardado, e o que quer que venha, mesmo a morte, vós o aceitarei. Pois conhecer vosso Super-eu é a razão interna de vossa existência. Pelo sofrimento até coisas belas vos serão mostradas. Algo do espírito eterno virá até vós.

 

 Paul Brunton  em  “A realidade interna”   Editora Pensamento.

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Eu confio que vocês todos são leões.
 
Toda ignorância começou com os pastores. Pastores são para ovelhas. Eu confio que vocês são leões. Leões não são para serem arrebanhados; aonde eles andam é sua própria trilha. Não há rebanho de leões; há somente rebanho de ovelhas. Vocês são todos leões – então vá pelo seu caminho. Não andem em caminhos batidos feito ovelhas; um após o outro. Não sigam nenhum caminho. Leões, não seguem um ao outro como as ovelhas.
 
A maioria das pessoas são ovelhas, seguem pastores pelo mundo todo. A religião começou com pastores e as pessoas os seguem como ovelhas. Mas aonde vocês forem serão leões, e não há caminhos para leões. Onde o leão andar, é o caminho. Para o leão o não-caminho, é o único caminho. Então não se coloque no meio de ovelhas precisando de um pastor. O seu caminho é o não-caminho – isso é saber quem você é. Isto é não seguir como uma ovelha. Este é um novo caminho, decididamente desconhecido. Uma vez conhecido, isto é bem conhecido. Aquele que sabe completou o propósito do esforço de toda vida humana. Ele é feliz e em paz. Ele aproveita ambos: aqui e depois.
 
Por favor, não se torne uma ovelha. Não siga ninguém. Não olhe aqui e ali. Não olhe para nenhum lugar. Pare de procurar. Pare toda sua imaginação pelo futuro e conceitualização do passado. Mantenha seu ser neste momento, que é um não-momento. Descubra de onde esse momento vem, de onde o tempo vem, de onde o pensamento surge, e você verá que você sempre esteve em casa. Você não precisa de mais nada!
 
Papaji
 Divulgado por Pensar compulsivo
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Sua meditação tem o propósito de chegar ao significado real, ao significado interior da declaração "Eu e o Pai somos um". Mas, como principiante, você não pode manter isso por muito tempo. Você perde rapidamente o fim da meada e se surpreende pensando que está perdendo sua entrevista no escritório, ou que vai perder o ônibus ou o trem. A primeira coisa que percebe é que seus pensamentos estão vagando. 
 
Nesse ponto, traga suavemente de volta seu pensamento para "Eu e meu Pai somos um". Não fique impaciente, não se condene e não pense que não há esperança para você. Não dê atenção a esses passeios da mente, mas suavemente traga seu pensamento ou atenção de volta e comece novamente, refletindo sobre esta ideia, ou até mesmo poderá surgir, nessa ocasião, outra ideia, provavelmente bem melhor para o momento. Quantas vezes seu pensamento fugir da ideia, retorne a ela novamente, sem impaciência, sem crítica ou autojulgamento. 
 
Nesse estado inicial, não só os seus pensamentos vagam, mas se mantêm viajando para dentro e para fora — toda espécie de pensamentos indesejáveis. Você pode pensar que eles são seus pensamentos. Mas não são. Eles estão apenas tocando em você, procurando perturbá-lo, distraí-lo; portanto, não os combata, não tente parar de pensar no que está pensando porque você não terá êxito, e saber disso pode poupar-lhe uma enorme quantidade de problemas. Você nunca terá êxito parando de pensar; portanto, deixe que esses pensamentos entrem e saiam e faça o que desejam fazer. Não se preocupe com eles. Apenas retorne ao seu centro, para o assunto específico de sua meditação. 
 
Chegará um momento, à medida que você avançar nesta prática, quando não surgirão pensamentos estranhos, porque você os terá eliminado por desatenção, você terá se tornado tão sem receptividade para eles, não os combatendo, que eles não retomarão. Mas se você os combater, eles estarão lá para sempre, porque seu combate contra eles é exatamente o que os mantém vivos. "Concilia-te depressa com teu adversário, enquanto estás no caminho com ele." Todos esses pensamentos errados que sempre surgem não são perigosos nem nocivos; ninguém saberá deles; e eles não lhe causarão nenhum mal. Deixe que venham; deixe que se vão; mas não lhes dê atenção
 
Lembre-se sempre de que você está em meditação apenas com um propósito — compreender Deus (sua real natureza). E, assim, você reflete sobre essas verdades das escrituras: "Eu e meu Pai somos um"... "Meu reino não é deste mundo"... "Conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti". Escolha uma que lhe seja própria, ou você pode chegar a um ponto onde alguma coisa de que necessite para esse determinado dia virá virá a você, e você refletirá sobre ela. 
 
O que eu estou salientando é que você leve um pensamento central ou uma citação inspiradora para a meditação, não com o propósito de repeti-lo (o que seria um condicionamento), mas para descobrir seu significado real ou interior, de modo que nunca o entregue ou pense nele como uma citação. 
Posso lembrar-me por quantos meses vivi com esta declaração: "Não pela força, nem pela violência, mas pelo meu espírito". Finalmente, cheguei ao lugar onde isso traduziu-se para mim nestas palavras: "Não pela força física, nem pela violência mental, mas pelo Meu Espírito — pela realidade de meu próprio Ser." Pratiquei isto durante oito meses, cinco, seis, oito vezes por dia, antes de chegar ao lugar onde houvesse um segundo de paz e sossego dentro de mim.
 
Mas você jamais terá de passar pelos vários estágios do desenvolvimento de quem quer que seja. Você nunca terá de dirigir Fords modelo T. Você nunca terá de iluminar sua casa com lampiões de querosene. Você nunca terá de passar por aqueles dias atribulados em que teve de se submeter a tratamentos mentais, preocupando-se com as influências maléficas que estão agindo sobre você. Você pode começar com o mais alto ponto de desenvolvimento alcançado até este momento; você pode começar no mais alto nível revelado à Consciência, porque todas as pessoas que passaram por estas coisas aplainaram o caminho para você. 
 
Assim é com a meditação. Você constatará muito cedo que as ideias ou citações originais virão à você — uso a palavra originais no sentido de que essas ideias não foram dadas a você por qualquer pessoa, mas que elas lhe ocorreram diretamente — e você consegue ficar em paz por um minuto, dois, três, ou quatro.

Joel S. Goldsmith em, O Suprimento Invisível   
 
 
Divulgado por pensar compulsivo2
  
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Dê às boas vindas à verdade em qualquer horizonte em que ele apareça, procure-a nas quatro direções, sem deixar de ir a nenhuma. Em suma, não se torne fanático e de mente estreita. 
 
Em qualquer lugar onde você encontrar a verdade, seja qual for o nome com que seja rotulada, aceite-a. 
 
Em seus esforços por uma vida melhor, aceite de boa vontade a ajuda que lhe vem de qualquer forma correta. 
 
Seja sempre receptivo às ideias e práticas que possam enriquecer as que já conhece. 
 
Nenhum caminho único leva, por si só, à verdade total. 
 
Não existe um grupo que tenha o monopólio da verdade, pois seu reconhecimento é uma experiência universal. Recusemo-nos a ouvir os que insistem em viajar por um único caminho, e apenas por ele. 
 
A verdade não está confinada a nenhuma seita, mas seus fragmentos podem ser encontrados espalhados por aqui e ali. 
 
Podemos aprender de tudo e de todos, de todos os acontecimentos e ocorrências, algo novo ou uma confirmação do que é velho, algo afirmativo ou algo negativo. 
 
Quando o instrutor de um ensinamento, um livro ou um exercício é usado como expressão indireta do movimento do próprio Eu Superior para libertar a graça, então é uma completa cegueira condená-lo como falso. 
 
Por que limitar a ajuda que você está querendo receber a uma única direção? Todos os homens são seus instrutores. A verdade, sendo infinita, possui um infinito número de aspectos. Cada guia espiritual tem a tendência de enfatizar apenas alguns e a negligenciar os outros. 
 
A inspiração manifestou-se em muitas terras e em diferentes formas, através de séculos distantes e de vários tipos de canais. Por que limitar a cultura a uma contribuição, uma terra, uma forma, um século ou a um só canal? Isso se aplica não só à cultura intelectual e artística, mas também ao seu aspecto religioso. Podemos ir ainda mais adiante nessa questão, e aplicar a mesma ideia aos gurus. Devemos ficar sempre atracados a um único guru? Não podemos, também, respeitar, apreciar, honrar, venerar outros gurus, e deles receber luz? 
 
"Estude tudo, mas não se vincule a nada", é o melhor conselho. Mas que pena! Os entusiastas ingênuos raramente o ouvem. 
 
Guarde com teimosia seu território e empunhe a bandeira da independência na busca da verdade, do não-compromisso no relacionamento com os instrutores da verdade. Humilde e alegremente, aceite todo o bem que possa encontrar em seus ensinamentos, mas não faça isso sob um contrato ou voto que o obrigue a tornar-se discípulo. Nesse assunto seja cético, pegando o melhor de cada fonte disponível e não excluindo nenhuma que tenha algo de útil a oferecer.

Aprenda algumas das verdades básicas que cada sistema contém sem se identificar com o próprio sistema. Mantenha a mente aberta e livre para adquirir ideias e práticas valiosas de outras culturas, e evite a atitude fechada, sectária. 
 
Libertar-se da estreiteza autoritária, convencional e sectária é olhar cada livro inspirado como uma bíblia. 
 
Essa posição isolada, fora de grupos e rótulos, oferece esta vantagem: o indivíduo é capaz de aproveitar de tudo, aceitar e reconciliar fragmentos de ensinamentos radicalmente diferentes e aparentemente contraditórios. 
 
Aceite, de todos os ensinamentos, tudo o que tenha valor para você pessoalmente, em seu atual estado mental, e descarte o resto. Esse é o caminho eclético, melhor que o caminho mais comum, que é entrar numa prisão doutrinária única e permanecer nela. Hesite muito antes de se comprometer e ingressar nesta ou naquela organização. Lembre-se de que existem vários aspectos da verdade, e de que pode valer a pena manter-se livre para aprender alguma coisa desses outros aspectos. 
 
Recomendo sempre àqueles que se sentem fortes o bastante para isso, que evitem entrar em alguma organização, que mantenha sua liberdade, enquanto ao mesmo tempo estudem as doutrinas de quaisquer que sejam as organizações que lhes interessem, de quaisquer que sejam as religiões que lhes chamem a atenção. Essa liberdade torna-os capazes de ter vista para todos os lugares, de estudar de tudo, de questionar corajosamente, de manter a amplitude de visão, a profundeza de pensamento. 
 
Só essa independência pode alcançar o novo sem perder o que tem valor no velho; todos os outros caminhos são comprometidos, limitados, cativos. 
 
Permanecendo abertos às verdades de diferentes fontes e juntando-as como mosaicos, chegamos, ao final, a algum tipo de padrão.

 
Paul Brunton em, A Busca
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Se alguma coisa é causa de alguma outra coisa, jamais é inútil, mas um velho expediente é sempre inútil. Por isso que cada novo profeta tem de lutar contra os antigos profetas. Está fazendo o mesmo trabalho que eles fizeram, mas terá que opor-se aos seus ensinamentos, porque precisa negar os velhos expedientes, já que eles se tornaram vazios e sem significação. 
 
Todos os grandes — Buda, Cristo, Mahavira — criaram, por compaixão, grandes mentiras, apenas para levar-te para fora da casa em chamas. Se puderes ser arrancado para fora de tua mente, através de qualquer expediente, isso é tudo quanto se faz necessário. Tua mente é o cárcere. Tua mente é fatal, é a escravidão. 
 
Como eu disse, esse dilema terá de acontecer. Assim é a natureza da vida. Terás que aprender a estreitar a mente. Esse estreitamento será de auxílio quando saíres para fora, mas será fatal lá dentro. Será utilitário como os outros; será suicida com a própria pessoa.
 
Precisas existir com os outros e contigo mesmo. Toda vida unilateral faz-se defeituosa. Precisas existir entre os outros com a mente condicionada, mas deves existir contigo mesmo com uma percepção inteiramente livre de condicionamento. A sociedade cria um estreitamento de percepção, mas a própria percepção significa expansão. É limitada. Ambas as coisas são necessárias, e ambas devem ser realizadas. 
 
Chamo sensata a pessoa que pode realizar ambas as necessidades. Qualquer extremo é insensato, qualquer extremo é prejudicial. Assim, vive no mundo com a mente, com o teu condicionamento, mas vive contigo mesmo sem a mente, sem treinamento. Usa tua mente como um meio, não faças dela um fim. Sai dela, no momento em que tenhas essas oportunidade. Quando estiveres sozinho, sai dela, salta fora dela. Então, festeja o momento, festeja a existência em si mesma, o Ser em si mesmo. 
 
O simples fato de ser é tão grande celebração, se souberes como saltar para fora do condicionamento. Esse "saltar para fora" vais aprender através da Meditação Dinâmica. Ela não será causada; virá ter contigo sem qualquer causa. A meditação criará uma situação na qual irás ter ao desconhecido. Aos poucos serás levado para fora de tua personalidade habitual, mecânica, robotizada. 
 
Seja corajoso. Pratica a Meditação Dinâmica vigorosamente, e tudo o mais se seguirá. Não será coisa que faças, será algo que acontece. 
 
Não podes trazer o divino, mas podes embaraçar a sua vinda. Não podes trazer o sol para a casa, mas podes fechar a porta. Negativamente, muita coisa a mente pode fazer: positivamente, nada. Tudo quanto é positivo é uma dádiva, é uma benção. Tudo quanto é positivo vem ter contigo, enquanto tudo quanto é negativo é trabalho teu. 
 
A meditação (e todos os expedientes da meditação) pode fazer uma coisa: afastar-te de todos os teus obstáculos negativos. Pode trazer-te para fora de teu cárcere, que é a mente. E, quando tiveres saído, rirás. Era tão fácil sair! Tudo estava ali mesmo! Apenas um passo se fazia necessário... mas andamos em círculos e perdemos sempre um passo, aquele passo que poderia levar-nos ao centro. 
 
Tu andas em círculos (pela periferia), repetindo a mesma coisa. Em algum ponto a continuidade precisa ser rompida. Isso é tudo quanto pode ser feito por qualquer método de meditação. Se a continuidade for rompida, se te tornas descontínuo com o teu trabalho, então, naquele exato momento, há explosão! Naquele exato momento estás centralizado, centralizado em teu ser. E então conhecerás tudo quanto sempre foi teu, tudo quanto estava apenas esperando por ti.

 
Osho em, Meditação: a arte do êxtase
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Como surgiu essa doutrina? Vimos que o pensamento chinês efetua uma guinada gradual em direção ao sujeito, passando a se preocupar com o eu e a perfeição do eu. Vimos de que modo, a partir da preparação ritual do oficiante com vista à recepção do espírito que desce, surgiu a ideia de uma purificação do coração que faria dele um lar adequado à alma. Essa purificação consistia, acima de tudo, numa "aquietação" das atividades voltadas para o exterior, dos apetites e das emoções; mas também num "retorno"; pois considerava-se que a alma se tornara, por assim dizer, cheia de lama devido aos sucessivos sedimentos da labuta e da agitação diárias, e a tarefa do "aperfeiçoamento de si mesmo" consistia em retornar através dessas camadas até que "o homem que ele tinha em mira" fosse alcançado. Por intermédio dessa "quietude", dessa completa suspensão das impressões exteriores, e mediante a convergência dos sentidos para um foco totalmente interior, surgiu uma espécie de auto-hipnose que, na China, é denominado Tso-Wang, "sentar-se com a mente vazia"; na Índia, Ioga, Dhyâna e outras denominações; no Japão, Zen. Uma técnica precisa foi criada [ou tomada de empréstimo da Ioga] para provocar esse estado de transe. A principal característica desta técnica era, tal como na Índia, a manipulação da respiração — a respiração deve ser suave e leve como a de um bebê ou, como se expressaram mais tarde os quietistas, a de uma criança no útero. Havia também estranhos exercícios para as pernas e os braços, alongamentos e posturas muito semelhantes aos âsanas associados ao ioga indiano; alguns quietistas, contudo, viam nisso um método muito físico e concreto para a realização de um fim espiritual.
 
O processo do Quietismo, portanto, consistia numa viagem de retorno, através das sucessivas camadas da consciência, ao ponto em que a Consciência Pura era alcançada, onde as "coisas percebidas" não eram mais vistas, mas "aquilo por meio do qual percebemos". Pois nunca ter conhecido "Aquilo por meio do qual conhecemos" significa jogar fora um tesouro que nos pertence. No "caminho de volta", chega-se logo a um  ponto onde a linguagem, criada para atender às exigências da consciência superior comum, não mais se aplica. O inciado que alcançou esse ponto aprendeu, como se expressavam os quietistas em sua linguagem secreta, "a entrar na gaiola sem provocar o canto dos pássaros".
 
Aqui surge uma questão, a qual, na verdade, os quietistas foram intimados a responder em diversas partes do mundo e em diferentes períodos da história. Admitindo-se que a consciência possa realmente ser modificada através da ioga, do auto-hipnotismo, do zen, da quietude ou de qualquer outra denominação que se escolha dar a isso, que evidências existem de que a nova consciência possua alguma vantagem em relação a velha? O quietista, seja chinês, indiano, alemão ou espanhol, sempre veio com a mesma resposta: através dessas práticas, obtêm-se três coisas — verdade, felicidade e poder.
 
Do ponto de vista teórico, sem dúvida não há razões que nos levem a acreditar que as afirmações do Tao sejam mais verdadeiras do que as do conhecimento comum; na verdade, seria como ter motivos para acreditar que a música que ouvimos quando o rádio está sintonizado em 360 é de algum modo "mais verdadeira" do que a música que ouvimos quando o mesmo rádio está sintonizado em 1600. Na prática efetiva, contudo, as visões dos quietistas não se mostram, para o quietista, meramente como alternativas mais ou menos agradáveis à existência cotidiana. Elas se fazem acompanhar por uma sensação de finalidade, por um sentimento de que "todos os problemas que todas as escolas de filósofos sob o Céu não podem resolver deste modo ou daquele têm sido resolvidos deste modo ou daquele". Além disso, o estado alcançado pelo quietista não é meramente agradável e indolor. Ele é "alegria absoluta", que transcende completamente qualquer forma de prazer mundano. E, por fim, ele fornece Siddhi, como dizem os indianos, , como dizem os chineses, um poder sobre o mundo exterior jamais imaginado por aqueles que se opõem à matéria ao mesmo tempo que continuam escravizados a ela. Este aspecto do Quietismo tampouco se restringe, como se supõem às vezes, às suas ramificações orientais. "Sem trabalho sujeitarás as pessoas e as coisas estarão sujeitas a ti, se esqueceres delas e de ti mesmo", diz São João da Cruz em Aforismos. É esta última alegação do Quietismo — a crença de que o praticante torna-se dotado não só de um poder sobre as coisas vivas (que chamaríamos de hipnotismo), mas também de um poder de mover e transformar a matéria — que o mundo esteve menos disposto a aceitar. "Tente e descubra por si mesmo", é a resposta habitual do quietista ao desafio "mostre-nos e acreditaremos". 
 
Sabemos que muitas e diferentes escolas do Quietismo existiram na China nos séculos IV e III a.C. De sua literatura, resta apenas uma pequena parte. A mais antiga é a que chamarei de a Escola de Ch'i. Sua doutrina chamava-se hsin shu, "A arte da Mente". Por "mente" não se compreende o cérebro ou o coração, mas "uma mente dentro da mente" que tem com a política humana a mesma relação que o sol tem com o céu. Ela é o governante do corpo, cujas partes componentes são os seus ministros. Ela deve permanecer serena e impassível como um monarca em seu trono. Ela é uma divindade, que somente se alojará onde tido estiver adornado e limpo. O local que o homem prepara para ela é chamado de seu templo (kung). "Escancare os portões, ponha o eu de lado, aguarde em silêncio e o brilho do espírito entrará e fará seu lar". E um pouco mais adiante: "Somente onde tudo estiver limpo o espírito habitará. Todos os homens desejam conhecer, mas não investigam aquilo pelo qual se conhece".  E de novo: "O que o homem deseja conhecer é aquilo (isto é, o mundo exterior). Mas seu modo de conhecer é isto (ou seja, ele próprio). Como pode conhecer aquilo? Somente através da perfeição disto."
 
Intimamente associada à "arte da mente" está a arte de nutrir o Ch'i, (respiração) o espírito da vida. O medo, a mesquinhez, a maldade — todas essas qualidades que poluem o "templo da mente" — devem-se a uma redução do espírito da vida. Os corajosos, os magnânimos, os que têm força de vontade são aqueles cujo ch'i difunde-se por todo o corpo, até pelos próprios dedos dos pés e pela ponta dos dedos. Deve-se armazenar no interior uma grande fonte de energia, "uma nascente que nunca seca", fornecendo força e firmeza a cada tendão e junta. "Armazene-a dentro; faça dela uma fonte, semelhante a um rio, constante e plano. Transforme-a num verdadeiro tanque do ch'i
 
Enquanto a lagoa não secar. os Quatro membros nunca enfraquecerão;
E enquanto o poço não esvaziar, o tráfego das Nove Aberturas nunca cessará.
Desse modo serás capaz de explorar o Céu e a Terra, 
Alcançar os Quatro Oceanos que limitam o mundo;
Dento não terás pensamentos confusos,
Fora, não sofrerás nenhum mal ou flagelo.
No interior, a mente estará sã;
E sadio estará também o corpo físico. 
 
Tudo isso é obra da respiração vital que está dentro da "mente". Pois ela pode "ir e vir onde quiser. Ser tão pequena que nada pode penetrá-la; tão ampla que nada existe além dela. Somente a perde aquele que, mediante a perturbação, lhe cause dano."
 
Qual a natureza das perturbações que causam a perda dessa "mente dentro da mente"? Elas são definidas como "mágoa e alegria, deleite e raiva, desejo e avidez de lucro. Repudie tudo isso e sua mente (neste contexto particular, 'coração' seria mais apropriado) retornará à sua pureza. Pois de tal modo é a mente que apenas a paz e a quietude podem lhe fazer o bem. Não se irrite, não se deixe perturbar  e o Acordo (harmonia entre a mente e o universo, que fornece o poder sobre as coisas exteriores) virá sem ser procurado. Ele está ao nosso alcance, na verdade está bem ao nosso lado; todavia, é intangível, algo que, para ser alcançado, não pode ser pego. Parece tão distante quanto os mais longínquos limites do Infinito. Contudo, ele não está distante; usamos diariamente seu poder. Pois o Tao (isto é, o Caminho do Espírito Vital) preenche toda a nossa constituição, embora o homem não possa acompanhar o seu curso. Ele vai e, contudo, não se afasta. Ele vem e, contudo, não está aqui. Ele é silencioso, não emite nenhum som que possa ouvir e, no entanto, descobrimos, de súbito, que ele está presente, na mente. É indistinto e escuro, não revela nenhuma forma externa e, no entanto, numa grande correnteza ele flui para dentro de nós no exato momento de nosso nascimento".
 
Divulgado por Pensar compulsivo

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

A atitude mental cultivada tem suas raízes no senso do eu consciente que é o fator oniabarcante do condicionamento.
Duas perguntas surgem com frequência nas mentes dos estudantes sérios de Yoga: se uma mente condicionada pode compreender o estado incondicionado de consciência e se uma mente condicionada pode se tornar absolutamente incondicionada. Essas não são duas questões separadas, mas inter-relacionadas e, portanto, uma surge da outra.[...] O esforço consciente da mente surge do senso do eu... por conseguinte, que, através do esforço consciente da mente, não podemos compreender o estado incondicionado da consciência. 
 
A atitude mental cultivada tem suas raízes no senso do eu consciente que é o fator oniabarcante do condicionamento. Com certeza, é o senso do eu que condiciona a mente; de fato, qualquer atividade de tal mente está dentro dos limites condicionantes deste senso do eu. Portanto, a mente não pode compreender o que é o estado incondicionado de consciência através de seus próprios esforços, conquanto sublimes possam ser. É evidente que um processo contínuo não pode nos levar a compreender o descontínuo. E o estado incondicionado de consciência é realmente um estado de descontinuidade. 
 
Se a mente condicionada não pode compreender o estado incondicionado, então, tal mente condicionada nunca poderá ser absolutamente incondicionada? Nas mentes da maioria das pessoas há uma concepção falsa com relação ao caráter do estado incondicionado da consciência. É evidente que antes de chegarmos à realização direta de tal estado, temos de ter uma clara compreensão intelectual sobre o mesmo. Percebe-se que até mesmo essa compreensão intelectual é amplamente ausente. Existe uma ideia geral de que um estado incondicionado é aquele que não é condicionado por fatores perversos ou não-desejados. Isso significa que uma mente incondicionada  por fatores bons e nobres deve ser considerada incondicionada. Estritamente falando, uma mente incondicionada é uma mente desocupada. No entanto, isso não significa que a mente é livre apenas das assim-chamadas ocupações indesejáveis. Em todas as religiões e abordagens morais, em geral, o aspirante é solicitado a manter a mente ocupada com aquilo que é considerado como pensamentos bons e que elevam. Todavia, uma mente ocupada com bons pensamentos, conquanto nobres possam ser, não é uma mente desocupada. De igual forma, uma mente incondicionada, que é moldada por supostos fatores bons, não é uma mente incondicionada. O descondicionamento deve ser absoluto, assim como a condição desocupada da mente deve ser livre de todas as ocupações, sejam elas boas ou más. 
 
[...] A mente condicionada não pode conhecer o estado incondicionado, e o estado de descondicionamento absoluto pode surgir tão-só nos momentos de meditação ou comunhão. Descondicionamento absoluto não é um condicionamento modificado.

[...]Pode algum dia a mente condicionada chegar ao descondicionamento absoluto? Pode, se a mente for libertada de todos os motivos. Não tem utilidade lutar com padrões de condicionamento, pois a causa (natureza exata) não se encontra nos padrões, mas nos motivos. Às vezes, um aspirante espiritual tenta fechar sua mente a certos fatores externos de condicionamento, mas isso não terá valor enquanto os motivos persistirem.

Rohit Mehta — Yoga: a arte da integração
Divulgdo por Persar Compulsivo 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

A vida não observada, não examinada, não vale a pena ser vivida, porque não é vida”   dizia Sócrates.  
 

É contraproducente fazer esforço para mudar, pois o que vai nos transformar é a verdade: temos de observar a verdade para compreender que nossa programação não permite que sejamos nós mesmos.
 
É preciso reconhecer todas as reações que surgem quando se olha para uma pessoa, para uma paisagem ou para si mesmo. É necessário observar como se costuma reagir ante determinadas situações.
 
Deve-se olhar com objetividade, como se fosse outra pessoa observando, tomando consciência do que acontece dentro e fora de si mesmo, com toda a atenção (como ao dirigir um carro). Isso deve ser feito sem julgamento qualitativo, porque, se dermos rótulos às coisas, não as veremos como elas são. É necessário entender as coisas, sem qualquer tipo de pré-julga­mento.
 
Precisamos compreender que, com a palavra, ou com o pensamento, temos o costume de rotular as coisas e as pessoas, e depois, como conseqüência disso, passamos a viver o personagem do rótulo, e não a pessoa em si.
 
Pôr-se em contato com a realidade é olhar para ela sem querer interpretá-la nem mudar nada, deixando que a realidade modifique a ordem das coisas, brilhando por si mesma.
 
Se não mudamos espontaneamente, é porque resistimos a isso. No momento em que descobrirmos os motivos da resistência, sem reprimi-la nem rejeitá-la, ela desaparecerá sozinha. Quando existe sensibilidade em nós, não é preciso violência para conseguir as coisas de que necessitamos, pois tudo é resolvido através do entendimento e da compreensão. E seremos até surpreendidos ao ver como as coisas se resolvem de acordo com a nossa compreensão da realidade, sem que tenhamos de lutar contra ela.
 
O reconhecimento da realidade é um convite ao crescimento pessoal e à mudança.
 
“Mudar é impossível. Permaneçam como estão. Ame a si mesmo tal como são. Não queiram mudar. Se a mudança de alguma coisa for possível, ela ocorrerá por si mesma, quando e se quiser.
 
Deixem-se a si mesmos em paz”.

Desprograme-se!

É muito importante você reconhecer que até agora foi um ioiô, subindo e descendo de acordo com os problemas, os desgostos ou depressões que enfrenta; que foi incapaz de manter um nível de estabilidade. É preciso aceitar que passa a vida à mercê de outras pessoas, de coisas ou de situações. Que está sendo manipulado ou que pode manipular os outros, as coisas e as situações. Que não é dono de si mesmo, nem consegue olhar as situações com sossego, sem pressa nem ansiedade.
 
Toda essa atitude depende apenas de nossa programação. Nós somos programados desde a infância pelas conveniências sociais, pelo que chamam de educação, ou cultura. Assim, vivemos dentro de uma programação, e damos as respostas esperadas, diante de determinadas situações, sem parar para pensar o que existe de correto na situação e se ela está de acordo com o que nós somos de verdade. Damos uma resposta habitual e mecânica.
 
Somos programados conforme um conjunto de idéias convencionais e culturais, que tomamos como verdades, quando não o são. Por exemplo, a ideia de pátria, de fronteiras e de hábitos culturais, que inclusive nos levam a conflitos bélicos, quando nada têm a ver com a realidade.
 
Quando somos produtos de nossa cultura sem questionar coisa alguma, nós nos transformamos em robôs. A cultura, a religiosidade e as diferenças raciais, nacionais ou regionais foram impressas na nossa mente, e nós as interpretamos como se fossem reais.

Fácil e Difícil

Precisamos nos libertar de nossa história e da programação a que fomos submetidos para poder responder por nós mesmos. Só o que nasce de dentro para fora é autentico e pode nos libertar. Só podemos assumir e considerar como nosso, alcançando assim a liberdade, aquilo que vem de dentro.
 
“Conta-se que existia um grande professor chamado Buso, que era casado e tinha uma filha. Todos da família eram conhecidos por sua grande sabedoria e santidade. Um dia, um homem aproximou-se do professor e perguntou: ‘A iluminação é fácil ou difícil? E Buso respondeu: ‘É tão difícil quanto chegar à Lua’. Inconformado, o homem foi falar com a mulher de Buso e lhe fez a mesma pergunta. Ela respondeu: ‘É muito fácil. Tão fácil quanto tomar um copo d’água’. O homem ficou intrigado e, para livrar-­se das dúvidas, fez a mesma pergunta à filha do professor, que lhe respondeu:’Ora, se o senhor torna as coisas difíceis, é difícil, mas se facilita tudo…
 
Difícil mesmo é a capacidade de ver, isto é, de ver com simplicidade, com sinceridade, sem nos enganar porque ver significa mudar, ficar sem nada a que se agarrar. E nós estamos acostumados a procurar apoio, a andar com muletas. Quando chegamos a ver com clareza, temos de voar. E voar significa nada temer, andar sem se agarrar a coisa alguma. Precisamos desmontar a tenda em que nos refugiamos e continuar pelo caminho que está adiante de nós, sem procurar apoio.
 
O pavor maior reside justamente na aniquilação de todo tipo de medo, já que ele sempre é o manto no qual nos envolvemos para não ver e não sermos vistos. É duro deixar tudo para trás e enfrentar a felicidade, quando não queremos ser felizes a esse preço. Neste caso, trata-se de uma felicidade que deve ser expressada por nós mesmos, sem esperar que nos seja entregue já pronta e embrulhada para presente. Embora todos digamos que procuramos pela felicidade, na verdade não queremos. Preferimos voltar ao ninho ao invés de voar, porque temos medo. E o medo é uma sensação que todos conhecemos, enquanto a felicidades é desconhecida.
 
A primeira coisa que o bom terapeuta deve entender é que as pessoas que a ele recorrem não procuram a cura, mas o alívio; elas não querem mudar, porque a mudança nos expõe e compromete.
 
É como aquele que estava mergulhado numa fossa, com sujeira até a altura do queixo, cuja única preocupação era que ninguém aparecesse para fazer chacotas, não se importando em ser ou não tirado dali. O problema, portanto, é que a grande maioria das pessoas compara a felicidade com a conquista dos objetos que desejam, quando, ao contrário, a felicidade reside precisamente na ausência dos desejos, e no fato de pessoa alguma ter poder sobre nós.

Anthony de Mello 
 
Publicado por pensar compulsivo 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

O destemor é a qualidade de todos os iluminados e de todos aqueles que seguem o Caminho da Iluminação. A vida, para eles, perdeu seus horrores e sofrimento, seu ferrão, pois eles impregnam esta existência terrestre de um novo significado, em vez de desprezá-la e maldizê-la por suas imperfeições, como fazem todos aqueles que, nos ensinamentos de Buda, tentam encontrar um pretexto para sua própria concepção negativa do mundo. Por acaso o semblante do risonho Buda, refletido um milhão de vezes pelas inúmeras imagens em todos os países budistas, é a expressão de uma atitude antagônica à vida, tal como os atuais representantes intelectuais do Budismo (especialmente no Ocidente) tentam com frequência demonstrar? 
 
Condenar a vida como algo mau, antes de ter esgotado suas possibilidades de um desenvolvimento superior, antes de ter chegado a descortinar uma compreensão de seu aspecto universal e antes de ter compreendido as qualidades supremas da consciência na obtenção da iluminação, o fruto mais nobre e a realização última de toda a existência, representa um tipo de atitude não só PRESUNÇOSA e IRRACIONAL mas também completamente TOLA. Ela só pode ser comparada à atitude de um homem ignorante que, após examinar uma fruta verde, considera-a não comestível e joga-a fora, em vez de dar a ela a oportunidade de amadurecer. 
 
Somente aquele que alcançou o estado supra-individual da Perfeita Iluminação pode renunciar à "individualidade". Aqueles, contudo, que reprimem suas atividades sensoriais e suas funções naturais da vida, antes mesmo de ter tentado utilizá-las de MODO CORRETO, não se tornarão santos mas meramente PETRIFICADOS. Uma santidade, que se apóia simplesmente em virtudes negativas, meramente na ABSTENÇÃO e FUGA, pode impressionar a multidão e pode ser considerada como uma prova de autocontrole e de força espiritual; contudo, conduzirá apenas à AUTO-ANIQUILAÇÃO ESPIRITUAL e não à iluminação. Tal é o caminho da estagnação, da morte espiritual. Trata-se da libertação do sofrimento às custas da vida e da FAGULHA potencial da Iluminação no nosso interior. 
 
A descoberta dessa FAGULHA é o começo do Caminho da Iluminação, que realiza a liberação do sofrimento e dos grilhões do estado de ego, não mediante a uma negação da vida, mas através da ajuda ao próximo durante o esforço na direção da Perfeita Iluminação. (...)

Antes de emitirmos algum juízo acerca do significado da vida e da natureza real do universo, deveríamos nos perguntar: "Afinal de contas, quem é que assume aqui o papel de juiz?" A própria mente julgadora, discriminadora, não é uma parte e um produto desse mesmo mundo que ela condena? Se considerarmos nossa mente capaz de julgamento, então já concedemos ao mundo um valor espiritual, a saber, a faculdade de produzir uma consciência que vai além das meras necessidades e limitações de uma vida transiente. Contudo, se esse é o caso, não temos razão alguma em duvidar das possibilidades ulteriores de desenvolvimento dessa consciência ou de um tipo mais profundo de consciência, que se situa na própria raiz do universo e da qual conhecemos apenas uma pequena seção superficial. 
 
Se, por outro lado, adotamos a opinião de que a consciência não é um produto do mundo, mas que o mundo é um produto da consciência, torna-se óbvio que vivemos exatamente no tipo de mundo QUE TEMOS CRIADO e que, portanto, MERECEMOS, e que o remédio não pode estar numa "FUGA" do "MUNDO" mas apenas numa MUDANÇA DA "MENTE". Tal mudança, porém, só pode ocorrer se conhecemos a natureza mais secreta dessa mente e de seu poder. Uma mente que é capaz de interpretar os raios emitidos pelos corpos celestes, a uma distância de milhões de anos-luz, não é menos maravilhosa que a natureza da própria luz. Quanto mais magnífico não é o milagre dessa luz interior que habita as profundezas de nossa consciência!

O Buda e muitos de seus numerosos discípulos forneceram-nos uma compreensão dessa consciência mais profunda (universal). Este fato, por si só, possui muito mais valor do que todas as teorias científicas e filosóficas, pois mostra à humanidade o caminho do futuro. Assim, pode existir apenas UM problema para nós: despertar, dentro de nós mesmos, essa consciência mais profunda e penetrar naquele estado que o Buda chamou de "Despertar" ou "Iluminação". Esse é o caminho para a realização do estado-de-Buda dentro de nós mesmos. 
 
Lama Anagarika Govinda
 
Publicado por Pensar compulsivo 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

(...)O desejo sempre assinala uma dependência. Num certo sentido, todos nós dependemos de alguém (do padeiro, do leiteiro, do agricultor etc., necessárias à organização de nossa vida).
 
Mas, depender de outra pessoa para nossa própria felicidade, além de ser uma coisa nefasta para nós mesmos, representa um grande perigo, pois, com isso, estamos afirmando algo contrario ávida e a realidade.
 
Portanto, depender de outra pessoa para estar alegre ou triste é remar contra a correnteza da realidade, pois a felicidade e a alegria não podem vir de fora, já que estão dentro de nós. Só nós mesmos podemos tornar reais as forças de amor e felicidade que existem dentro de nós, e apenas aquilo que conseguimos expressar, a partir dessa nossa realidade, pode nos tornar felizes. De fato, o que vem de fora pode vir a nos estimular mais ou menos, mas não nos dá uma gota sequer de felicidade.
 
(...) Não é possível caminhar quando temos necessidades emocionais, que precisamos nos sentir queridos e apreciados, que devemos pertencer a outra pessoa, a alguém que nos deseje. Não é verdade. Quando um individuo sente esse tipo de necessidade, esta sofrendo de uma enfermidade que vem de sua insegurança afetiva.
 
Tanto a enfermidade — a necessidade de sentir-se querido — como a cura que se deseja — o amor recebido — baseiam-se em falsas premissas. Não existem necessidades emocionais para conseguir a felicidade externa. Isto porque você, enquanto pessoa, é o amor e a felicidade em si mesmo, e apenas mostrando esse amor e desfrutando dele você vai ser realmente feliz, sem vontade nem desejos, pois você já tem em si mesmo todos os elementos para ser feliz.
 
A resposta do amor externo agrada e estimula, mas não nos da mais felicidade do que aquela que já temos, pois nós mesmos já contamos com toda a felicidade que somos capazes de desenvolver, Deus é a verdade, a Felicidade e a Realidade, e Ele é a Fonte, sempre disposta a nos completar à medida que, livremente, nos entregamos e nos abrimos a Ele.

VOCÊ JÁ É FELICIDADE


Despertar é a única experiência que vale a pena. Abrir bem os olhos, para ver que a infelicidade não vem da rea­lidade, mas dos desejos e das idéias equivocadas.
 
Para ser feliz não é preciso fazer coisa alguma, além de desfazer-se de falsas idéias, das ilusões e fantasias que não nos permitem ver a realidade. Uma pessoa só consegue isso se mantendo acordada e chamando as coisas por seus verdadeiros nomes.
 
Você já é felicidade, assim como é amor, mas não vê isso porque está dormindo. Esconde-se atrás das fantasias, das ilusões, e também das misérias das quais se envergo­nha. Nós todos fomos programados para ser felizes ou infelizes (dependendo de apertarem o botão do elogio ou da crítica), e isso é o que nos confunde. É preciso que reconheçamos isso, saindo dessa programação e procuran­do dar às coisas os seus nomes verdadeiros.
 
Se você insiste em não despertar, nada se pode fazer:
 
“Não deves empenhar-te em tentar fazer um porco cantar, pois estarás perdendo o teu tempo e o porco acabará SE irritando”.
 
Todo mundo sabe que o pior cego é aquele que não quer ver.
 
Se você não quer ver e despertar, continuara programado; e as pessoas adormecidas e programadas são mais fáceis de permitirem ser controladas pela sociedade.
 
Capitulo Um do livro Auto Libertação – Antony de Mello 

Publicado por  Pensar Compulsivo
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Tentar pensar no Eu que está para além do alcance do pensamento é apenas criar outro pensamento. Abandonando tal pensamento, eu fico em paz. — Ashtavakra Gita                  
                   
Quase todos nós, quando nos perguntam — "Quem é você", temos uma pequena dúvida quanto à nossa identidade. Pode haver alguns que não estejam tão seguros; não sabem realmente quem são, mas ocupam-se em descobrir uma identidade e, geralmente, não se passa muito tempo sem que também eles se liguem a algo que lhes parece ser psicologicamente satisfatório. 
 
O autor deste texto começou a vida sabendo integralmente quem era e para onde ia. Contudo, há alguns anos atrás descobriu que estava sendo vítima de um caso de identidade equivocada, que não era absolutamente o que pensava ser, e que aquilo que realmente era, sua verdadeira identidade, estava bem além do alcance de seu pensamento habitual. Consequentemente, ele teve de revisar toda sua maneira de pensar e, virtualmente, começar do princípio. 
 
Sinto que saber quem ou o que alguém é, faz-se absolutamente fundamental para o que quer que seja que esse alguém está fazendo. Sem tal conhecimento, nada tem, na verdade, muita significação, e a pessoa vive num mundo de total ilusão, como acontecia com este escritor.(...)
 
Assim, o problema que se nos apresenta é examinar, como se nunca tivéssemos dado ao caso um só pensamento (e provavelmente não demos), a ideia da identidade pessoal. Há, em primeiro lugar, a "impressão" de que somos alguma entidade, algum "eu" contido em algum "corpo", que todos possuem e sentem intuitivamente. Veremos, dentro de um momento, como essa impressão surgiu. Provavelmente, a maioria das pessoas, ao lhe perguntarem: "Quem é você?" respondem imediatamente lançando um nome, como se isso fosse o fim e não o princípio da indagação. Isso é como se alguém jamais tivesse visto um automóvel e, ao indagar o que era aquilo lhe dissessem: "Chevrolet." Assim, antes de mais nada, o nome, a verbalização, realmente bloqueia a indagação sobre a identidade de alguém.(...) 
 
Vamos, agora, continuar a indagação com um pouco mais de profundidade, passando para além de nomes e aparências. Há uma coisa que todos nós possuímos, e que é a consciência das coisas. Não se trata da minha consciência, ou da sua consciência, embora seja você, ou seja eu quem esteja aparentemente, no centro da questão. Assim como a luz possibilita às pessoas a identificação dos objetos, a consciência possibilita perceber, discriminar, compreender. Em si própria não possui identidade, mas qualquer identidade que a ela apareça associada ergue-se dentro dessa consciência. É a consciência que temos imediatamente depois de acordar de um sono profundo, quando não sabemos quem somos, o que somos e, na verdade, onde estamos.Não precisamos insistir nesse ponto. A capacidade básica de discernir, de aprender, existe em cada ser dotado de sentidos. Alguns usam mais essa capacidade do que outros, mas a luz da consciência está em todos os seres humanos e não dá, portanto, a menor indicação da identidade de alguém. Ainda assim, como já dissemos, cada um de nós traz em si essa "sensação" de personalidade. 
 
De certa forma, é um assunto complexo esse de como tal sensação de personalidade, com a consequente identidade equivocada, chegou a existir. Não é fácil, talvez nem seja sequer possível, realmente, descrever inteiramente como tal coisa aconteceu, de forma que só podemos sugerir o processo. cada um de nós deve "sentir" isso, compreender isso por si mesmo, e quando o conseguimos, descobrimos que a identidade equivocada desapareceu, miraculosamente. 
 
Através da consciência discernimos a Forma, as múltiplas imagens, de início apenas contornos vazios que posteriormente recebem conteúdo (isto é, significação funcional) pela "denominação". Assim, cada contorno, quando familiar, recebe uma etiqueta, e esse é o primeiro processo de "identificação" a que nos ligamos. Parte desse estágio inicial de identificação está em vermos constantemente presente o contorno de determinado "corpo", que acompanha todas as percepções. A não ser pelos períodos de sono, ele está sempre ali, assim como estão as várias sensações e impressões sensórias continuamente recebidas através daquele "corpo". 
 
A sensação de personalidade então chega através da identificação com a imagem sempre presente do corpo, dando origem ao pensamento do "eu" inicial. É importante notar que, conforme dissemos antes, a própria Consciência — que, se pensarmos nisso por um momento, não está associada a um determinado corpo — não demonstra ego-sensação, nem a sensação de ser parte de algum lugar ou de estar dentro de determinado período de tempo: ela está fora do espaço-tempo. Da mesma forma, o corpo físico, que em si mesmo é insensível, está naturalmente provado da sensação do ego. O estranho é que quando os dois, essa Consciência e o "corpo físico" se juntam, desse encontro emerge uma sensação de personalidade ou um falso "eu" chamado "ego". Apressamo-nos a acrescentar, todavia, que o precedente ainda descreve o mecanismo em imaginação dualística, já que, afinal, o "corpo físico" (como algo que podia existir fora da Consciência) não existe; é chamado assim, mas na verdade não passa de mera aparência, um contorno colocado naqueles termos pelo pensamento e pela linguagem. 
 
Assim, o ego que emerge de tal união de Consciência e corpo é uma entidade fantasma, é, realmente, uma construção do pensamento que permanece ativo e faz sentir sua presença apenas durante os períodos de vigília. (E, com essa identificação primordial, surge também a manifestação de todos os outros corpos e objetos — toda a aparência do mundo.) Essa construção do "eu" pelo pensamento, uma vez criada, nutre-se e mantém-se sempre pela associação com outras construções do pensamento, tais como o nome de família, senso de posse, e assim por diante. Ergue-se e baixa como o sol, no acordar e no dormir. No sono profundo não há sensação de identidade, contudo não podemos negar que existimos. 
 
Assim, percebemos por nós mesmos a natureza real do ego, e descobrimos, claramente, que se trata de um eu falso, que o ego deve ser igualado à mente, que é vista apenas como um complexo de lembranças, experiências e pensamentos baseados nessas experiências — sempre perdendo parte de seu conteúdo de memórias com o passar do tempo e sempre acrescentando-lhe algo, pois o processo de experiências continua. Dado que o pensamento, do qual a mente é construída, não pode ser tido como durável, e dado que essa carga de pensamentos, memórias, imagens, desejos, ansiedades, etc., não pode ser tida como possuindo qualquer estrutura definida e permanente, não podemos atribuir a a personalidade à mente. Assim, o ego, através do qual nós vivemos, é essencialmente vazio. Obteve uma porção de coisas, mas, essencialmente, em sua natureza original, é um Nada. 
 
Então, que somos? O eu real não é o corpo, não é o ego; deve ser, é evidente, o que restar, uma vez descartadas todas as coisas que não somos. O que permanecer, após serem descartados todos os aspectos ilusórios da nossa existência, é o eu real. Façamos isso e chegaremos, inevitavelmente, ao Vazio! Isso somos. Teremos de afastar sem piedade todas as coisas que são apenas elementos do pensamento, construções do pensamento, em justaposição mais ou menos temporária. Compreenderemos que algum padrão de pensamento sempre repetido,  tal como "eu sou o corpo", que é a identificação básica subjacente, não confere personalidade a esse corpo, forçosamente, nem esse corpo incute realidade nos padrões do pensamento. Compreenderemos que o ego teve início como padrão destacado de tais elementos do pensamento e, uma vez cristalizado, "desenvolveu-se" com vários acréscimos posteriores. Assim, posses materiais, educação, meio, atuam como verdadeiros "construtores do corpo" para aquele ego, formando uma "personalidade". Essa personalidade parece ter vida própria, sem saber de onde ela vem. Quando, em certos momentos, faz-se vagamente consciente do Vazio, não sente tal coisa como sendo ela própria, mas como ameaça — a ameaça de morte iminente. Assim, houve uma verdadeira inversão: o ego representa um estado de morte: mata o eu a cada momento de sua vida ativa. A liberação é o retorno ao Vazio. 
 
Os leitores que não estão apenas lendo este artigo, mas têm realizado alguma coisa, ativamente, à proporção que leem, compreenderão, agora, que não "conhecem" o eu, mas são o eu. "Conhecer" pressupõe objeto e sujeito e, sendo assim, não pode jamais aplicar-se ao nosso eu, que, como vimos, não é coisa de espaço e tempo. Portanto, o leitor não conhece o eu, que compreende todos os objetos e todos os sujeitos. É através do eu que o leitor percebe entidades de espaço e tempo, mas o eu, em si mesmo, só é compreendido, não conhecido. A palavra "conhecer" não se aplica, pois, em conexão com o eu. Entretanto, essa palavra tem sido habitualmente usada como tal porque, pelo menos no presente estágio de evolução da consciência, poucos compreendem tais sutilezas de distinção. Às vezes, essa compreensão do eu é chamada "Conhecimento", escrito com C maiúsculo, para diferenciá-lo daquilo que habitualmente se conhece por esse nome, mas tal uso tende a causar confusão em muitos leitores. Pela mesma razão não adotei a forma de escrever a palavra eu com maiúscula, porque considero que o intento é melhor alcançado usando a sua forma cotidiana de escrever. O uso de maiúsculas pode levar a alguns a pensar que aquilo a que nos estamos referindo é alguma coisa que está fora deles ou é apenas uma parte deles no chamado nível "espiritual" mais alto, quando, na verdade, ele é, simplesmente, sua única e integral identidade.

Dr. Robert Powell

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Estamos no facebook