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Sri Aurobindo - A Mãe sobre si mesma


Há duas coisas que não deveriam ser confundidas uma com a outra, a saber, o que se é e o que se faz, o que se é essencialmente e o que se faz no mundo exterior. Elas são muito diferentes. Sei o que sou. E o que os outros pensam e dizem ou qualquer coisa que aconteça no mundo, não altera essa verdade que permanece inabalável, inalterável, um fato. É real para si mesma e a negação ou a afirmação do mundo não aumenta nem diminui essa realidade. Mas sendo o que sou, o que faço realmente é totalmente uma questão diferente: dependerá das condições e circunstâncias onde as coisas estão e nas quais e através das quais eu deva trabalhar. Conheço a verdade que trago, mas quanto dela acha expressão no mundo, depende do próprio mundo. O que trago, o mundo deve ter a capacidade e a vontade de aceitar: de outra forma mesmo se eu trouxesse comigo a verdade mais alta e mais imperativa, ela seria, absolutamente inexistente para uma consciência que não a reconhecesse nem a recebesse: o ser com essa consciência não tiraria dela o mínimo proveito..


Você dirá que, se a verdade que eu trago é suprema e onipotente, porque ela não obriga o mundo a aceitá-la, porque ela não pode quebrar a resistência do mundo, forçar o homem a aceitar o bem que ele recusa? Mas esse não é o modo pelo qual o mundo foi criado, nem a maneira pela qual ele se move e se desenvolve. A origem da criação é liberdade: é um livre arbítrio na consciência que se projetou como o mundo objetivo. Esta liberdade é o próprio caráter de sua natureza fundamental. Se o mundo nega sua verdade suprema, seu bem mais elevado, assim o faz no deleite de sua livre escolha; e se for para voltar e reconhecer essa verdade e esse bem, deverá assim fazê-lo no mesmo deleite de livre escolha. Se ao mundo errante fosse obrigado a se corrigir e imediatamente assim o fizesse, se as coisas fossem feitas num instante, através de milagres, então, não haveria razão para se criar um mundo. Criação significa um jogo de crescimento: é uma jornada, um movimento no tempo e no espaço através de passos e estágios graduados. É um movimento para longe — longe de sua fonte — e um movimento direcionado: esse é o princípio ou plano sobre o qual ela se mantém. Neste plano não há compulsão sobre quaisquer dos elementos que compõem o mundo para renegar seu movimento natural, para obedecer a um ditame do exterior: tal compulsão quebraria o ritmo da criação.





E contudo há uma compulsão. É a pressão secreta da própria natureza da pessoa que a impulsiona para a frente através de todas vicissitudes, de volta novamente à sua fonte original. Quando se diz que a Graça Divina pode e deveria fazer tudo, isso significa nada mais e nada menos do que isso: a Graça Divina apenas acelera o processo de retorno e reconhecimento. Mas ao lado do elemento que viaja, a alma, uma colaboração consciente deve ser despertada, um consentimento inicial e uma adesão renovada constantemente. É isto que traz para fora, pelo menos ajuda a estabelecer no exterior, no plano físico, a força que já está e tem sempre estado a trabalhar dentro e nos planos mais altos e mais sutis. Esse é o esquema do jogo, o sistema de condições sob os quais o jogo é executado. A Graça trabalha e se incorpora em e através de um corpo de colaboradores conscientes e de boa vontade: estes tornam-se parte e parcela da Força que trabalha. .

A verdade que eu trago manifestar-se-á e será incorporada sobre a terra; pois, é o destino inevitável da terra e do mundo. A questão de tempo é irrelevante. Em um aspecto, a verdade que digo que será manifestada, já está totalmente manifesta, já está realizada e estabelecida: não há questão de tempo lá. Ela está em uma consciência interminável ou eternamente presente. Há um processo, um jogo de tradução entre o equilíbrio infinito e o equilíbrio no tempo que nós conhecemos aqui em baixo. A medida desse hiato é muito relativa, relativa à consciência que mede, longo ou curto de acordo com o metro que cada um traz. Mas isso não é a essência do problema: a essência é que a verdade está lá, ativa, no processo de "materialização", apenas dever-se-ia ter a visão para vê-la e a alma para saudá-la.


Do livro "O Yoga de Sri Aurobindo - partes V a VII" de Nolini Kanta Gupta, pg. 136 (livro impresso da Editora Shakti).

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