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Tentar pensar no Eu que está para além do alcance do pensamento é apenas criar outro pensamento. Abandonando tal pensamento, eu fico em paz. — Ashtavakra Gita                  
                   
Quase todos nós, quando nos perguntam — "Quem é você", temos uma pequena dúvida quanto à nossa identidade. Pode haver alguns que não estejam tão seguros; não sabem realmente quem são, mas ocupam-se em descobrir uma identidade e, geralmente, não se passa muito tempo sem que também eles se liguem a algo que lhes parece ser psicologicamente satisfatório. 
 
O autor deste texto começou a vida sabendo integralmente quem era e para onde ia. Contudo, há alguns anos atrás descobriu que estava sendo vítima de um caso de identidade equivocada, que não era absolutamente o que pensava ser, e que aquilo que realmente era, sua verdadeira identidade, estava bem além do alcance de seu pensamento habitual. Consequentemente, ele teve de revisar toda sua maneira de pensar e, virtualmente, começar do princípio. 
 
Sinto que saber quem ou o que alguém é, faz-se absolutamente fundamental para o que quer que seja que esse alguém está fazendo. Sem tal conhecimento, nada tem, na verdade, muita significação, e a pessoa vive num mundo de total ilusão, como acontecia com este escritor.(...)
 
Assim, o problema que se nos apresenta é examinar, como se nunca tivéssemos dado ao caso um só pensamento (e provavelmente não demos), a ideia da identidade pessoal. Há, em primeiro lugar, a "impressão" de que somos alguma entidade, algum "eu" contido em algum "corpo", que todos possuem e sentem intuitivamente. Veremos, dentro de um momento, como essa impressão surgiu. Provavelmente, a maioria das pessoas, ao lhe perguntarem: "Quem é você?" respondem imediatamente lançando um nome, como se isso fosse o fim e não o princípio da indagação. Isso é como se alguém jamais tivesse visto um automóvel e, ao indagar o que era aquilo lhe dissessem: "Chevrolet." Assim, antes de mais nada, o nome, a verbalização, realmente bloqueia a indagação sobre a identidade de alguém.(...) 
 
Vamos, agora, continuar a indagação com um pouco mais de profundidade, passando para além de nomes e aparências. Há uma coisa que todos nós possuímos, e que é a consciência das coisas. Não se trata da minha consciência, ou da sua consciência, embora seja você, ou seja eu quem esteja aparentemente, no centro da questão. Assim como a luz possibilita às pessoas a identificação dos objetos, a consciência possibilita perceber, discriminar, compreender. Em si própria não possui identidade, mas qualquer identidade que a ela apareça associada ergue-se dentro dessa consciência. É a consciência que temos imediatamente depois de acordar de um sono profundo, quando não sabemos quem somos, o que somos e, na verdade, onde estamos.Não precisamos insistir nesse ponto. A capacidade básica de discernir, de aprender, existe em cada ser dotado de sentidos. Alguns usam mais essa capacidade do que outros, mas a luz da consciência está em todos os seres humanos e não dá, portanto, a menor indicação da identidade de alguém. Ainda assim, como já dissemos, cada um de nós traz em si essa "sensação" de personalidade. 
 
De certa forma, é um assunto complexo esse de como tal sensação de personalidade, com a consequente identidade equivocada, chegou a existir. Não é fácil, talvez nem seja sequer possível, realmente, descrever inteiramente como tal coisa aconteceu, de forma que só podemos sugerir o processo. cada um de nós deve "sentir" isso, compreender isso por si mesmo, e quando o conseguimos, descobrimos que a identidade equivocada desapareceu, miraculosamente. 
 
Através da consciência discernimos a Forma, as múltiplas imagens, de início apenas contornos vazios que posteriormente recebem conteúdo (isto é, significação funcional) pela "denominação". Assim, cada contorno, quando familiar, recebe uma etiqueta, e esse é o primeiro processo de "identificação" a que nos ligamos. Parte desse estágio inicial de identificação está em vermos constantemente presente o contorno de determinado "corpo", que acompanha todas as percepções. A não ser pelos períodos de sono, ele está sempre ali, assim como estão as várias sensações e impressões sensórias continuamente recebidas através daquele "corpo". 
 
A sensação de personalidade então chega através da identificação com a imagem sempre presente do corpo, dando origem ao pensamento do "eu" inicial. É importante notar que, conforme dissemos antes, a própria Consciência — que, se pensarmos nisso por um momento, não está associada a um determinado corpo — não demonstra ego-sensação, nem a sensação de ser parte de algum lugar ou de estar dentro de determinado período de tempo: ela está fora do espaço-tempo. Da mesma forma, o corpo físico, que em si mesmo é insensível, está naturalmente provado da sensação do ego. O estranho é que quando os dois, essa Consciência e o "corpo físico" se juntam, desse encontro emerge uma sensação de personalidade ou um falso "eu" chamado "ego". Apressamo-nos a acrescentar, todavia, que o precedente ainda descreve o mecanismo em imaginação dualística, já que, afinal, o "corpo físico" (como algo que podia existir fora da Consciência) não existe; é chamado assim, mas na verdade não passa de mera aparência, um contorno colocado naqueles termos pelo pensamento e pela linguagem. 
 
Assim, o ego que emerge de tal união de Consciência e corpo é uma entidade fantasma, é, realmente, uma construção do pensamento que permanece ativo e faz sentir sua presença apenas durante os períodos de vigília. (E, com essa identificação primordial, surge também a manifestação de todos os outros corpos e objetos — toda a aparência do mundo.) Essa construção do "eu" pelo pensamento, uma vez criada, nutre-se e mantém-se sempre pela associação com outras construções do pensamento, tais como o nome de família, senso de posse, e assim por diante. Ergue-se e baixa como o sol, no acordar e no dormir. No sono profundo não há sensação de identidade, contudo não podemos negar que existimos. 
 
Assim, percebemos por nós mesmos a natureza real do ego, e descobrimos, claramente, que se trata de um eu falso, que o ego deve ser igualado à mente, que é vista apenas como um complexo de lembranças, experiências e pensamentos baseados nessas experiências — sempre perdendo parte de seu conteúdo de memórias com o passar do tempo e sempre acrescentando-lhe algo, pois o processo de experiências continua. Dado que o pensamento, do qual a mente é construída, não pode ser tido como durável, e dado que essa carga de pensamentos, memórias, imagens, desejos, ansiedades, etc., não pode ser tida como possuindo qualquer estrutura definida e permanente, não podemos atribuir a a personalidade à mente. Assim, o ego, através do qual nós vivemos, é essencialmente vazio. Obteve uma porção de coisas, mas, essencialmente, em sua natureza original, é um Nada. 
 
Então, que somos? O eu real não é o corpo, não é o ego; deve ser, é evidente, o que restar, uma vez descartadas todas as coisas que não somos. O que permanecer, após serem descartados todos os aspectos ilusórios da nossa existência, é o eu real. Façamos isso e chegaremos, inevitavelmente, ao Vazio! Isso somos. Teremos de afastar sem piedade todas as coisas que são apenas elementos do pensamento, construções do pensamento, em justaposição mais ou menos temporária. Compreenderemos que algum padrão de pensamento sempre repetido,  tal como "eu sou o corpo", que é a identificação básica subjacente, não confere personalidade a esse corpo, forçosamente, nem esse corpo incute realidade nos padrões do pensamento. Compreenderemos que o ego teve início como padrão destacado de tais elementos do pensamento e, uma vez cristalizado, "desenvolveu-se" com vários acréscimos posteriores. Assim, posses materiais, educação, meio, atuam como verdadeiros "construtores do corpo" para aquele ego, formando uma "personalidade". Essa personalidade parece ter vida própria, sem saber de onde ela vem. Quando, em certos momentos, faz-se vagamente consciente do Vazio, não sente tal coisa como sendo ela própria, mas como ameaça — a ameaça de morte iminente. Assim, houve uma verdadeira inversão: o ego representa um estado de morte: mata o eu a cada momento de sua vida ativa. A liberação é o retorno ao Vazio. 
 
Os leitores que não estão apenas lendo este artigo, mas têm realizado alguma coisa, ativamente, à proporção que leem, compreenderão, agora, que não "conhecem" o eu, mas são o eu. "Conhecer" pressupõe objeto e sujeito e, sendo assim, não pode jamais aplicar-se ao nosso eu, que, como vimos, não é coisa de espaço e tempo. Portanto, o leitor não conhece o eu, que compreende todos os objetos e todos os sujeitos. É através do eu que o leitor percebe entidades de espaço e tempo, mas o eu, em si mesmo, só é compreendido, não conhecido. A palavra "conhecer" não se aplica, pois, em conexão com o eu. Entretanto, essa palavra tem sido habitualmente usada como tal porque, pelo menos no presente estágio de evolução da consciência, poucos compreendem tais sutilezas de distinção. Às vezes, essa compreensão do eu é chamada "Conhecimento", escrito com C maiúsculo, para diferenciá-lo daquilo que habitualmente se conhece por esse nome, mas tal uso tende a causar confusão em muitos leitores. Pela mesma razão não adotei a forma de escrever a palavra eu com maiúscula, porque considero que o intento é melhor alcançado usando a sua forma cotidiana de escrever. O uso de maiúsculas pode levar a alguns a pensar que aquilo a que nos estamos referindo é alguma coisa que está fora deles ou é apenas uma parte deles no chamado nível "espiritual" mais alto, quando, na verdade, ele é, simplesmente, sua única e integral identidade.

Dr. Robert Powell

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