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Tratemos de averiguar o que é viver. A realidade do viver é a fadiga diária, a rotina, com as respectivas lutas e conflitos; é a dor da solidão, a aflição e sujeira da pobreza e da riqueza, a ambição, a busca de preenchimento, o êxito e a tristeza — que abarcam toda a esfera de nossa vida. Eis o que chamamos viver — ganhar e perder batalhas, e a interminável busca de prazer. 
 
Contrastando com isso ou como seu oposto há o que se chama "viver religioso" ou "vida espiritual". Mas todo oposto contém decerto a semente de seu próprio oposto e, por conseguinte, ainda que pareça diferente, na realidade não o é. Podem-se mudar as roupas externas, mas a essência íntima do que foi e do que deverá ser é a mesma. Essa dualidade é produto do pensamento, e, portanto, gera mais conflito; esse conflito é uma galeria interminável. Sabemos de tudo isso; outros nos têm dito ou nós mesmos o temos experimentado. Isso é o que se chama viver. 
 
A vida religiosa não está na outra margem do rio; está neste lado — onde se acham todas as agonias do homem. É este lado que temos de compreender, e a ação da compreensão é o ato religioso — e não cobrir-se de cinzas, cingir os quadris com uma tanga ou a cabeça com uma mitra, ocupar o trono dos poderosos ou ser transportado no dorso de um elefante. 
 
Ver inteiramente a condição do homem, seus prazeres e aflições, é de primeira importância, e não o especular sobre o que deveria ser uma vida religiosa. "O que deveria ser" é um mito; é a moralidade criada pelo pensamento e a fantasia, moralidade que devemos rejeitar — social, religiosa, profissionalmente. Essa rejeição não vem do intelecto, mas é, com efeito, um sereno abandono do padrão dessa imoral moralidade. 
 
Portanto, a questão realmente é esta: Temos possibilidade de sair desse padrão? Foi o pensamento quem criou essa medonha desordem e angústia, e ele é que está impedindo tanto a religião como a vida religiosa. O pensamento se julga capaz de sair do padrão, mas, se o faz, isso será ainda um ato de pensamento, porque o pensamento não tem realidade e, por conseguinte, só pode criar outra ilusão. 
 
Ultrapassar tal padrão não é um ato do pensamento. Isso precisa ser compreendido claramente porque, de contrário, você se verá novamente encerrado na prisão do pensamento. O "você", afinal de contas, é um feixe de memórias, de tradição e do conhecimento acumulado em milhares de dias passados. Assim, só com a terminação do sofrimento — pois o sofrimento é resultado do pensamento — pode-se sair do mundo da guerra, do ódio e da violência. Esse ato de sair é a vida religiosa. Essa vida religiosa não tem crença nenhuma, porque não tem amanhã. 
 
"Você não está exigindo o impossível, senhor? Não está querendo um milagre? Como posso sair de tudo isso sem o pensamento? O pensamento é meu próprio ser!"

Exatamente! Esse "seu próprio Ser", que é pensamento, tem de acabar. Esse egocentrismo com todas as suas atividades tem de morrer, sem esforço, naturalmente. Só nessa morte se encontra o começo da vida religiosa.

Krishnamurti em, A OUTRA MARGEM DO CAMINHO

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