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O problema de ganhar o próprio sustento, nas condições modernas deste mundo, e em harmonia com a ética da Busca Espiritual, é mais complicado, e menos fácil de ser resolvido, para uns do que é para outros. Há profissões, ocupações, carreiras e áreas de negócios que, algumas vezes, exigem a transgressão dessa ética. Se princípios gerais possam ser estabelecidos, serão os de que as remunerações, lucros ou dividendos, deverão ser ganhos de forma honesta e de que nenhum sofrimento seja infligido sobre qualquer criatura.
É verdade que mais riqueza leva a mais oportunidades, e que isso, por sua vez, se corretamente utilizado, poderá levar a mais sabedoria. Mas não necessariamente é verdadeiro que mais riqueza leva a mais sabedoria.
Esta imprudente tentativa das pessoas de subir mais e mais na Torre de Babel, construída por elas mesmos, surge da noção falsa sobre o que é o sucesso, ou sobre o que o fracasso seja. Elas avaliam o sucesso pelas condições em que se encontra o indivíduo, e consideram o que seja o fracasso por critérios semelhantes. Mas existe uma dura lição que a vida, no final, lhes ensinará – a de que não existe nenhuma compensação equivalente pela perda dos valores espirituais.
A necessidade de dinheiro é secundária diante da necessidade de boa saúde e ambos são secundários diante da necessidade de força espiritual. Todos os três são importantes, pois a maioria das outras coisas desejadas dependem decisivamente deles.
Se o dinheiro ocupa grande parte de seus pensamentos, poderão eles ser culpabilizados? A vida, sendo o que é, necessariamente exige tal atenção, e o realismo presente nela compele a isso. Somente quando os propósitos mais elevados da vida forem postos de lado, negligenciados ou ignorados, devido à maior ênfase no pensamento sobre o dinheiro, é que o desequilíbrio e o materialismo se concretizarão.
A posse do dinheiro, como a do poder, não é um mal em si, podendo, pelo uso sábio dele, tornar-se um recurso positivo. Entretanto, ao possibilitar outras tentações, ele também poderá fazer surgir fraquezas adormecidas, por baixo da superfície do caráter do indivíduo.
O sucesso poderá facilmente levá-lo ao fracasso, se ele se tornar algo que intoxica em vez de algo que enalteça.
O sofrimento de alguém que seja rico não poderá ser posto no mesmo nível de alguém que seja pobre, pois o rico tem compensações que não estão disponíveis para o pobre.
A pobreza é um duro teste de fibra moral.
A busca da felicidade leva as pessoas a diferentes atividades e lugares, mas, raramente, aos que são os certos. Isso se deve a que elas confundem o prazer com a felicidade.
O valor último de toda esta atividade nos negócios, nas profissões, na política, na família, e assim por diante, não está em realizá-las com sucesso, mas em usá-las para levar a mente a ficar mais próxima da iluminação.
É para os ricos aprenderem a lição de que o conforto não significa felicidade, e é para o pobre aprender que a vida simples poderá levar à serenidade da mente.

Será melhor, tanto para o indivíduo como para uma nação, ter menos riquezas e mais verdade, do que menos verdade e mais riquezas. Vivemos em um mundo de escravos – escravos por dinheiro, por posição que traga dinheiro, por coisas que custem dinheiro e a pessoas que o possuam. O dinheiro compra praticamente todas as coisas e pessoas. Um sábio, por um lado, estará livre do dinheiro, devido à sua indiferença interna a ele; por outro lado, um milionário estará livre por possuir todo o dinheiro de que necessita. Simone de Beauvoir: “A independência material é uma das condições necessárias para a liberdade interna.” É isso verdade? Algumas vezes, sim, outras, não. O empresário, que seja especialista no conhecimento de como ganhar dinheiro, poderá ser um imbecil no conhecimento de como usufrui-lo. O que significa toda esta agitação e atividade extrovertida que existe entre as pessoas? Significa que a mente humana se encontra incapaz de olhar para si mesma, de encarar a si mesma e de ser ela mesma. Cada ambição alcançada igualmente significa um acréscimo aos nossos problemas. Diante das condições atuais no mundo de negócios, que estimula o crescimento exagerado do ego, como o faz, com frequência, tenho aconselhado a jovens de talento excepcional, e que estejam entrando e se engajando neste mundo, a que, rapidamente, façam dinheiro com o propósito especial de sair fora dele. Desta maneira, eles poderão colocar seu tempo, de forma adequada, para o estudo, para a meditação, e para o recolhimento de que necessitam para os seus interesses filosóficos. Assim, estariam fazendo uso de uma carreira nos negócios como um meio, e não como um fim para satisfazer ambições. A ambição é algo bom para os jovens, mas torna-se má quando o domina, pois então ela prevaleceria às custas de outras pessoas, as quais teriam que sofrer por causa dela. Quer ele, de fato, mais essas coisas externas, pelas quais tanto luta, do que as qualidades internas, que tais coisas as estariam obstruindo? Quando os homens têm que lutar pelo seu sustento, numa tal proporção que ficam sem energia e tempo para que busquem propósitos mais elevados, é inútil ter expectativas de que estejam preparados para os estudos metafísicos ou para exercícios místicos. A praticabilidade do homem convencional, e em maior número, tem o seu valor; ela não deveria ser considerada como algo materialista. Não obstante São Francisco, será preciso que se diga, a partir de amplas observações e pela experiência, que a pobreza não necessariamente é sagrada, e que a prosperidade, da mesma forma, seja má.


(Paul Brunton  – Notebook 9 – Cap. 2)

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