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 Até que saibamos como transcender esse pensamento separativo, esse processo de dar enfase ao "eu", ao "meu", tanto na forma individual como coletiva, não teremos paz, as guerras continuarão, estaremos em constante conflito. O nosso problema é descobrir como acabar com esse processo separativo do pensamento. Pode o pensamento, sendo processo de verbalização e reação, destruir o eu? O pensamento não é nada mais do que reação, não é criativo. Pode tal pensamento destruir a si mesmo?... Quando penso em termos de "preciso me disciplinar", "preciso pensar de modo mais adequado", "preciso ser isso, preciso ser aquilo", o pensamento está se disciplinando, forçando-se a ser alguma coisa ou a não ser coisa alguma. E esse não é um processo de isolamento? Não é, portanto, aquela inteligência integrada que funciona como um todo, a única por meio da qual pode haver cooperação.

Como pode o pensamento, que é isolado, fragmentário e parcial, ter um fim? Como podemos tentar fazer com que isso aconteça? Nossa assim chamada disciplina o destruirá? É óbvio que não se conseguiu isso ao longo de tantos anos; do contrário, não estaríamos onde estamos. peço a você que, por favor, examine o processo disciplinador, que é apenas um processo de pensamento no qual há sujeição, repressão, controle, dominação, tudo isso afetabdo o inconsciente, que se afirma à medida que você vai envelhecendo. Depois de tentar por tanto tempo, você deve ter descoberto que a disciplina não é um processo capaz de destruir o eu. O eu não pode ser destruído por meio da disciplina, porque a disciplina é um processo que o fortalece. No entanto, todas as religiões a pregam. Todos os tipos de meditação, todas as afirmações, se baseiam na disciplina. O conhecimento destruirá o eu? A crença o destruirá? Em outras palavras, alguma das coisas que estamos fazendo, alguma das atividades a que nos entregamos, tentando chegar à raiz do eu, conseguirá destruí-lo? Tudo isso não será um enorme desperdício, já que o pensamento é um processo de isolamento, de reação? O que você faz quando tem a profunda conscientização de que o pensamento não pode acabar com ele mesmo? O que acontece? Observe-se. Quando tem plena consciência desse fato, o que acontece? Você compreende aque toda reação é condicionada e que, por meio do condicionamento, não pode haver liberdade, nem no início, nem no fim, e liberdade está no começo, não no fim.

Quando você compreende que toda reação é uma forma de condicionamento, o que dá continuidade ao eu de diferentes maneiras, o que acontece? Você precisa estar bastabte certo a respeito disso. Crença, conhecimento, disciplina, experiência, todo o processo usado para a obtenção de um resultado, a realização de uma ambição, o desejo de tornar-se alguma coisa nesta vida, ou numa vida futura, é um processo de isolamento, que traz destruição, miséria, guerras, e do qual não se pode escapar por intermédio de ação coletiva.

Você está cônscio desse fato? Qual é o estado da mente que diz "é assim", "esse é meu problema", "vejo o que disciplina e conhecimento podem fazer, o que a ambição faz?" Claro, se você vê tudo isso, um processo diferente já está em funcionamento.

 

Vemos o caminho do intelceto, mas não vemos o caminho do amor. O caminho do amor não é encontrado por meio do intelecto. O intelecto, com todas as suas ramificações, seus desejos, ambições e buscas, precisa acabar para que o amor ganhe vida. Você sabe que, quando amamos, cooperamos sem pensar em nós mesmos. Essa é a mais alta forma de inteligência, não quando se ama como alguém superior, ou quando se está em uma boa posição, porque isso nada mais é do que medo. Quando há interesses pessoais não pode haver amor; há apenas um processo de exploração, nascido do medo. Assim, o amor só pode existir quando a mente está ausente. Por isso, é preciso que se compreenda o processo total, a função da mente.

 

Apenas quando soubermos amar uns aos outros é que poderá haver cooperação, que poderá haver funcionamento inteligente, uma união para a solução de qualquer problema. Só então será possível descobrir o que é Deus, o que é a verdade. Agora estamos tentando descobrir a verdade por meio do intelceto, da imitação, e isso é idolatria. Apenas quando dissolvemos completamente a estrutura do eu, por intermédio do entendimento, é que passa a existir o que é eterno, atemporal, imensurável. Não podemos ir até ele; ele vem até nós.

 

Krishnamurti
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A percepção da atividade do pensamento compulsivo com todas as suas capacidades, sutilezas, sagacidade, sugestões, e sua extraordinária e incessante atividade desprovida de inteligência, só é possível através da observação sem escolhas.

 

O pensamento nunca é original, é sempre um resultado do coletivo, da tradição. O pensamento não consegue abordar os acontecimentos da vida, com todos os seus relacionamentos, de forma limpa, depurada, não contaminada pelas experiências do passado contidas na memória. As recordações das experiências do passado impedem a manifestação de um estado de mente abertainocente e, portanto, não preconceituada. As memórias, as recordações, formam imagens que atrapalham a visão da realidade causando assim, uma interminável fonte de conflitos. Para a manifestação de um modo de vida sóbrio, sereno, equilibrado e feliz, torna-se de extrema urgência a percepção visceral da natureza exata dos nossos conflitos: o pensamento compulsivo com todo seu processo psicológico, sua manifestação, uma vez que toda reação condicionada parte do processo do pensamento. Esta percepção do pensamento e todo seu processo tem que ser livre de qualquer tipo de julgamento ou escolha, pois toda escolha e julgamento alimentam o processo de análise, que em sua origem é pensamento. O pensamento precisa “morrer de morte natural”, de inanição causada pela falta de identificação. Quando observamos o pensamento, sem qualquer tipo de esforço, de escolha ou julgamento, não ocorre a identificação com o mesmo, e sem essa identificação, não há a manifestação de qualquer forma de reação condicionada. Todo ato compulsivo é precedido de um pensamento compulsivo e da não observação do processo do pensamento. Através da observação do processo do pensamento, torna-se possível, sem qualquer tipo de esforço, a percepção do falso e da insanidade contida em sua promessa de prazer imediato.

 

Após uma minuciosa reflexão torna-se fácil a percepção de que não somos dependentes de um determinado tipo de comportamento compulsivo, mas sim, impotentes perante a ação do processo do pensamento compulsivo. Somos impotentes perante o pensamento, uma vez que nunca podemos saber de antemão qual será o seu próximo conteúdo, sua carga e manifestação. O pensamento se manifesta independente da nossa vontade, do nosso convite, trazendo consigo o conteúdo e a energia que quiser. Querer brigar, tentar silenciá-lo a força, seja através de um método, seja através de uma droga de escolha ou através do abuso da vontade própria, só pode resultar em mais conflito aos já instalados.

 

Através da observação sem escolha da natureza exata dos nossos conflitos, que é o pensamento com todo seu processo divisor, é que podemos chegar a conhecer um estado de unidade interna, através do qual, torna-se possível a visão das coisas como realmente são e não como é traduzido pelo nosso condicionamento, de acordo com as nossas experiências do passado, com as nossas imagens, preconceitos e acumulo de conhecimento.

 

A natureza exata dos nossos conflitos – o pensamento - é uma resposta irrefletida do acúmulo das nossas experiências armazenadas na memória, tanto individual como coletiva, particular ou racial, consciente ou inconsciente, por isso que a doença é física, por afetar as células da memória. Portanto, nosso pensamento nunca está no só por hoje, no agora; ele é fruto do passado projetando-se num futuro imaginário. Não pode haver uma nova maneira de viver através da ação do pensamento condicionado, uma vez que o pensamento é uma resultante do “velho”, do “conhecido”. O pensamento é sempre resposta do passado com todos os seus condicionamentos, tradições, crenças, moral, experiências e acúmulos pessoais e coletivos. O pensamento nunca poderá renovar a si mesmo e é aí que reside a nossa verdadeira impotência. Sem a admissão da total impotência e futilidade do uso do pensamento como um meio de solucionar os nossos conflitos, torna-se impossível a ação do despertar da inteligência criativa, a qual é capaz de ver o falso no falso. O pensamento pode apenas descobrir a sua própria projeção, não pode, portanto, descobrir uma nova maneira de viver. O pensamento pode se identificar apenas com aquilo que já vivenciou; não pode se manifestar com o que não vivenciou. Não se trata aqui de nada filosófico, espiritual ou metafísico. Basta uma minuciosa reflexão para mostrar que enquanto o “eu” – com todas as suas recordações, compulsões e condicionamentos – estiver na ativa, não pode haver nunca o despertar da inteligência criativa e com ela, a manifestação de uma nova e saudável maneira de viver, repleta de equilíbrio, serenidade, sobriedade, felicidade e amor. O pensamento jamais poderá vivenciar o novo, ele só poderá vivenciar o que lhe é conhecido, só pode operar nos domínios do conhecido, ele é totalmente impotente para ir além desses domínios. Basta surgir uma situação desconhecida, que a mente logo se agita e prontamente se instala o conflito.

 

O pensamento tenta modificar a realidade, aquilo que por si mesmo não pode modificar. O pensamento procura sempre trazer o desconhecido para os domínios do conhecido. Mas o desconhecido nunca poderá ser trazido para o conhecido, e essa é a natureza exata dos nossos conflitos: tentar modificar através do pensamento aquilo que não está no alcance do pensamento.

 

Sem a admissão incondicionada do pensamento como a natureza exata dos nossos conflitos, torna-se impossível o despertar da inteligência criativa, da Percepção Pura, com todo seu bem-estar comum, unidade interna, autonomia e auto-suficiência psicológica.

 

 

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